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05 Fev, 2016
Culto das Almas
Gustavo Dutra
Em todas as segundas-feiras, uma tradição religiosa de Belém se mantém firme. É o Culto das Almas, que resgata a memória daqueles que partiram deste mundo.

“Pai eterno, eu vos ofereço o sangue do Nosso
Senhor Jesus Cristo, intercedei por elas.
E a vós, almas aflitas, ide perante a Deus
pedir a graça que necessito”
(Oração popular para as almas milagreiras. Autor desconhecido)

No rosto, um ar sereno. Nas mãos, o velho terço pendurado. Os olhos se fecham para não serem distraídos por nada, enquanto a boca balbucia um conjunto de orações. As pernas, já cansadas pela avançada idade, fazem um andar lento pelo cemitério da Soledade, localizado no bairro de Batista Campos, no centro de Belém. Os passos curtos, porém, parecem seguir por caminhos certos entre os túmulos, como que reconhecendo intimidade com o chão por onde passam. E não é por menos. Dos 73 anos de vida de dona Albertina Silva, cerca de 50 foram passados frequentando aquele espaço. Meio século divido entre os mortos uma vez por semana. Toda semana. Toda segunda-feira.

Para quem não é familiarizado com determinadas crenças religiosas, o hábito de Albertina pode parecer exagerado. Afinal, passar cinco décadas frequentando o mesmo cemitério a cada sete dias requer mais que a simples fé, mas força de vontade e um comprometimento moral e físico com o que se acredita. Entretanto, dona Albertina não está sozinha. Nem de longe. Centenas de pessoas compartilham a devoção de reservar o primeiro dia útil da semana para lembrar, pedir, rogar e desejar paz para aqueles que já partiram deste mundo. As missas em igrejas ficam para o sábado ou domingo. As tradicionais novenas podem esperar até a quarta-feira. A segunda-feira é para os mortos. É o Culto das Almas.

O culto das Almas é realizado todas as segundas-feiras, em diversos cemitérios de Belém.(Foto: Rafael Monteiro)

TRADIÇÃO

Independente de religião – ou da ausência dela –, é muito difícil dizer adeus a quem parte deste mundo. Para algumas pessoas, a morte representa o fim, restando a quem vive apenas a dor da saudade. Entretanto, a maioria das religiões do mundo possui alguma crença sobre o que ocorre no pós-vida. Para quem segue esse tipo de fé, além da saudade, fica ainda a preocupação sobre o que irá ocorrer com o ente querido após a morte. Buscando a salvação dessas almas, foi iniciado, principalmente entre religiões cristãs, o costume de se rezar pelos mortos, a fim de que consigam a glória.

“Essa tradição é bem antiga, de antes do século XV, quando a ideia de céu e inferno ainda era muito forte na cabeça dos cristãos. Naquela época, havia forte o costume de se rezar para pedir salvação às almas que estavam no purgatório, para que pudessem alcançar paz no paraíso”, afirma a historiadora Manoela Leal. “Não há informações precisas do motivo, mas as segundas-feiras eram destinadas às preces pelas almas presas no purgatório ainda na era medieval. Isso se manteve e se espalhou, inclusive no sincretismo religioso que existe no Brasil. Entre religiões afro, segunda é o dia das almas, dos preto-velhos e exus, entidades que também intercedem pelos homens."

“Não há informações precisas do motivo, mas as segundas-feiras eram destinadas às preces pelas almas presas no purgatório ainda na era medieval. Isso se manteve e se espalhou, inclusive no sincretismo religioso que existe no Brasil."

“Esse hábito se manteve até os dias de hoje. Com o tempo, ele foi somado a ideia de que as almas já salvas poderiam interceder junto a Deus para que algumas graças e pedidos na terra fossem atendidos, de modo parecido como ocorre com os santos”, segue Manoela. “Santos são mortais a quem a igreja creditou milagres e por isso alcançaram um patamar maior. Com os mortos foi o mesmo processo: o distanciamento entre a população e a instituição Igreja a partir do século XVII fez com que o povo creditasse algumas graças e mesmo milagres a mortos não beatificados, ainda que sem a aprovação do Vaticano”, continuou a historiadora. “São nomes com quem a população se identifica muito mais. Alguns mortos, geralmente pessoas que viveram em virtude ou tiveram histórias trágicas, acabam ganhando maior destaque, chegando a ter devotos”.

O CULTO EM BELÉM

Na capital paraense, o culto ganhou força e vários adeptos. “Nos meus 20 anos eu fui fazer um concurso público federal, e uma amiga me indicou para vir rezar aqui no cemitério (da Soledade). Rezei para a alma do Joaquim Inácio, que era advogado e podia me ajudar com trabalho. Passei. Desde então, não abandono”, afirma dona Albertina. “Nas segundas-feiras que não vim, sonhei com o cemitério, os mortos me chamando. Se não vier, tudo desanda, cai mesmo. É importante vir aqui orar por eles."


Albertina realiza o Culto há cerca de 50 anos. Quando não vai ao cemitério, os mortos a chamam durante os sonhos. (Foto: Andressa Belo)

Albertina representa bem o perfil dos devotos do Culto das Almas. Pessoas de mais idade, cristãs, que evitam ao máximo ficar uma segunda-feira longe dos cemitérios. “Fizemos uma promessa há mais de 20 anos, que graças aos céus foi atendida. Pra pagar promessa, vamos a um cemitério toda segunda-feira, sem falta”, afirmou o casal católico Marfise e Adilson Moreira. “Somos cearenses, moramos no Acre e sempre estamos em Belém. Mas não importa onde, cumprimos a promessa. Rezamos aos parentes mortos, pelos amigos vivos e depois fazemos a oração das 13 almas”, explicaram.

Esta última reza, por sinal, exemplifica o culto religioso fora da igreja. Segundo a tradição, creditada a São Cristóvão, 13 almas mortas em uma tragédia não eram suficientemente boas para irem ao céu, nem tão más para irem ao inferno e tampouco possuíam pecados para se arrepender no purgatório. Assim, passam a eternidade vagando na Terra, ajudando a quem recorre a elas por orações.

Mas nem só de almas anônimas vive a tradição em Belém. Muito pelo contrário: diversos mortos são reconhecidos como milagreiros, sendo cultuados com agradecimentos e pedidos ao longo dos anos. Os principais túmulos procurados pela população estão concentrados em três cemitérios de Belém.


O menino José, o "Zezinho", é uma das almas mais cultuadas de Belém, recebendo pedidos para interceder por crianças. (Foto: Rafael Monteiro)

O primeiro é o São Jorge, na Marambaia. Lá, são cultuadas as almas milagreiras mais novas. A primeira é de Diene Ellen, morta aos dois anos. Em 1973, ela foi violentada e assassinada pelo pai, que cortou o corpo dela em pedaços e escondeu dentro de uma mala. O outro túmulo é o dos irmãos Marinaldo e Marivaldo, tragicamente mortos após o pai, em uma noite sem energia elétrica, confundir um produto químico com um vidro de xarope e acidentalmente matar os meninos por envenenamento. Os túmulos são geralmente cobertos com brinquedos e doces deixados pelos devotos.

Mas nem só de almas anônimas vive a tradição em Belém. Muito pelo contrário: diversos mortos são reconhecidos como milagreiros, sendo cultuados com agradecimentos e pedidos ao longo dos anos.

Já no cemitério de Santa Izabel, no bairro do Guamá, três almas são destaque. A primeira é a do Dr. Camilo Salgado, médico famoso por ter atendido a população mais pobre sem cobrar nada. Acredita-se que até hoje ele incorpora em médicos para realizar tratamentos e cirurgias espirituais, e recebe pedidos por saúde nas orações. A segunda é de Severa Romana, uma jovem de 19 anos, assassinada em 1900. Segundo a história, o marido dela, soldado do Exército, havia abrigado um colega de farda em sua casa. Encantado com a beleza da jovem, o visitante tentou violentar Severa ao se ver sozinho com ela. Ela tentou resistir, mas acabou sendo morta. “Assassinada em defesa de sua honra”, pode-se ler em sua lápide. E a terceira é a alma de Josephina Conte, a popular “moça do táxi”, talvez a lenda urbana mais famosa da capital paraense: o fantasma da jovem se transformaria em passageira de taxistas uma vez por ano.


O túmulo da escrava Anastácia, coberto por fitas, é tido como o mais antigo do cemitério da Soledade. (Foto: Andressa Belo)

O ponto central do Culto das Almas em Belém, entretanto, é o cemitério da Soledade, onde se concentra o maior número de mortos tidos como milagreiros. Em atividade desde o começo do século XIX, o espaço foi aberto oficialmente em 1850, funcionando por 30 anos. Inicialmente, pessoas de classes mais altas eram enterradas no terreno de igrejas, restando ao cemitério corpos da população mais pobre e escravos. O túmulo tido como o mais antigo do local, inclusive, é o da escrava Romana, também chamada de escrava Anastácia, uma bela mulher que teve uma mordaça de ferro amarrada ao rosto por se recusar a ter relações sexuais com os senhores de escravos. A sepultura dela, nos fundos do cemitério, pode ser identificada pela grade ao redor do túmulo. Dentro, estátuas negras de mordaça adornam o local.

Outra escrava milagreira do Soledade é Preta Domingas, morta em 1871 e enterrada no cemitério, como diz sua lápide, “em sinal de gratidão”, supostamente por ordem da família a qual ela servia. Há ainda as almas das crianças, como a do Menino José, o “Zezinho”, logo na entrada do cemitério, e a do menino Cícero, nos fundos, além das almas dos gêmeos, no túmulo em formato de berço, todos mortos durante uma epidemia de cólera e que atualmente intercedem pelos jovens, recebendo brinquedos, chocolate e roupas como gratidão. Outros como o militar General Gurjão, Mariana Isabel e Raimundinha Picanço também são considerados milagreiros e recebem seu quinhão de adorações.


Preta Domingas é cultuada como responsável por realizar milagres entre os devotos. (Foto: Rafael Monteiro)

RELIGIÃO

"Eu sou católico, mas sei que essa adoração aos mortos não é aceita pela Igreja. Mas a espiritualidade passa acima dessas coisas, não é mesmo?”, afirma João Edir, de 76 anos. “Eu não rezo pra ninguém em específico. Rezo pros meus parentes mortos, converso com o Zezinho, depois com outro... Faço minha obrigação. Depois eu vejo a missa na capela. No fundo, tudo é Deus."


João Edir ora sobre o túmulo de Preta Domingas. Ele não cultua nenhuma alma específica, mas "conversa" com todas. (Foto: Rafael Monteiro)

A tal capela fica localizada no centro do Soledade e pertence à paróquia da Santíssima Trindade, da igreja Católica. Todas as segundas-feiras – único dia em que o cemitério abre para visitação –, o diácono Brito vai ao local e realiza uma celebração no fim da tarde, antes dos portões serem fechados, às 18h30. E assim ocorre há 27 anos.


Ao final do dia, uma celebração católica é realizada na capela do cemitério da Soledade. (Foto: Rafael Monteiro)

"Faço uma liturgia clássica, com bênçãos, recebendo as intenções dos fiéis, para depois fazermos uma oração pelos mortos. Eles chegam aqui e escrevem os pedidos, por saúde, trabalho, pela alma de quem morreu, essas coisas. Bem simples mesmo”, explica o diácono. Sobre o Culto das Almas? “Isso é a crendice do povo, que tem essa tradição baseada na superstição. Não é da Igreja. A gente orienta, dá explicações e informações para melhor atender os frequentadores, para mostrar que esse culto não é da ordem canônica, mas continuam”.

Apesar de enfatizar que a tradição não é parte da Igreja, Brito afirma que a relação entre catolicismo e a religiosidade popular é firme e positiva. “É uma expressão religiosa muito mal redigida, fora do universo católico. Mas a igreja não condena, entende que é uma expressão da fé. Por exemplo, as orações que eles rezam por aí não existem na igreja, não são reconhecidas, mas claro que tem força e valor”, pondera. “Certa vez, em um monastério gótico, vi um livro chamado ‘Com Deus me deito, com Deus me levanto’, que tinha um compêndio dessas orações. Reza pra entrar no mato, reza pra sair de cemitério, reza para banhar no rio.... Nada que seja da Igreja, mas que ela ainda assim reconhece como real. Isso aí do cemitério é da popularidade, do ribeirinho, dos bairros afastados que vem rezar aqui."


Para o diácono Brito, o Culto das Almas é uma crendice popular, mas abraçada pelo catolicismo. (Foto: Rafael Monteiro)

E COMO FICA?

“Nesses 27 anos, te digo que o ritmo de visita diminuiu bastante. De manhã ainda tem gente, perto de feriado de mãe, pai, finados. Mas no dia a dia, está vazio”, afirma o diácono Brito. “O cemitério está abandonado, lama, mato alto. Na época de chuva, fica difícil vir mesmo. E também acho que essa tradição vai se perdendo com o tempo." 

A opinião do diácono Brito parece sentenciar o destino do cemitério. De fato, o mato alto toma conta do espaço. Muitos túmulos estão depredados, com diversas peças quebradas. Os frequentadores, na maioria idosos, logo ficarão cansados demais para vir em todas as segundas-feiras. Estará o fim da tradição já escrito?


Frequentando cemitérios desde 1980, Mariane Pinto tem fé que a tradição não será perdida. (Foto: Rafael Monteiro)

"Eu venho sozinha, desde 1980. Meus parentes não participam, só eu. Na minha família, a tradição deve mesmo acabar em mim. Mas eu ainda costumo ver gente nova chegando aqui. Os mortos são nosso passado, gente como a gente, não vão ficar de lado nunca. Até porque, enquanto realizarem as graças, alguém sempre vai vir agradecer”, afirma a devota Mariane Pinto. “Isso está na fé e coração do povo. Também, seremos nós um dia que vamos ser lembrados por nossos filhos. E isso vai continuar para sempre”. Assim esperamos.

Amém.


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