Um risco, um pixo e um grafite

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Um risco, um pixo e um grafite: como o muro reflete a cidade à beira dos seus 400 anos.
























O K-xorro passeou faminto pelas ruas do Reduto como se farejasse o osso enterrado. E encontrou!
Quarta à noite sem graça sobre as pedras portuguesas. Ainda são 20h, mas as ruas do Reduto já adormeceram. Guardas sem farda escutam a Rádio Clube em frente aos portões. Veículos transitam de farol alto nas ruas estreitas; eventualmente estacionam na esquina das travestis. Grupos de boleiros trazem uma garrafa de coca-cola nas mãos. Olhares miúdos espreitam a movimentação de dentro das janelas gradeadas. Indo e vindo, pelotões de esportistas em bikes se misturam ao pessoal da construção civil de bicicleta. A cidade parece toda monotonia. Parece. Até que um sujeito entrecorta o medo urbano. Vestido à caráter ― terno, gravata e coturno ―, ele rasga a mortalha com uma mochila e seu equipamento. Gravata? Quem vai desconfiar de um sujeito de gravata? A quarta à noite é o espaço ideal para um ataque do cão: Dog-viralata, famoso K-xorro, artista da rua de Belém, estirpe rara, canino de ouro!

Ele atacou as ruas do Reduto com uma necessidade inerente: riscar. Depois de uma caminhada, tirou da mochila uma lata de tinta preta à base d’água e uma lata de spray também preto. Mirou uma “tela” linda, limpinha, pronta para receber a marca do Dog. Quando se preparou, sacou o movimento de um guarda sem farda que desligou o radinho. Achou melhor conversar. Apresentou-se como estudante de Artes da Universidade Federal do Pará (UFPA), explicou que o que estava fazendo era… arte. Era de se esperar que o guarda não desse ouvidos. Ao lado, estava o proprietário do muro a ser pixado, que também entrou na conversa. Era de se esperar que o proprietário, imediatamente, chamasse a polícia. O Dog-viralata gastou lábia, argumentou sobre as precárias condições das artes em Belém, dialogou, enfim. O dono do espaço, de braços cruzados, esboçou uma resposta.
O Dog-viralata gastou lábia, argumentou sobre as precárias condições das artes em Belém,
dialogou, enfim. O dono do espaço, 
de braços cruzados, esboçou uma resposta.

A CIDADE

A cidade está pixada ― e muito. Está suja, detonada, como diz o pessoal do pixo. O risco das latas atravessa Belém. Qual o centro irradiador? Do complexo do Entroncamento, uma grande galeria, aos bairros de Nazaré, Batista Campos e São Braz. O risco atravessa cada pequena rua esfolada de Ananindeua, Marituba e Santa Izabel. A cidade está grafitada. O grafite perpassa a Campina e o Reduto, toma a avenida Independência e desemboca em Marituba. Grafite e pixo se entrecruzam ― há tempos. Há diferenças, mas, principalmente, intersecções. Se as décadas de 1980 e 1990 foram responsáveis pela era de ouro da pixação em Belém, nos últimos anos vive-se um revival. A velha guarda voltou pra pixar. Ainda existem gangues na cidade. O grafite se espalha. O novo vigor da lata de tinta no muro se materializa numa frase: voltei! Nos muros, sempre há uma referência à “G80/90”, galera das antigas que se reúne nos fins de semana, joga uma bola, toma uma cerveja e sai pra desenhar os muros. É só olhar, a cidade está gritando que voltou.

Enquanto King Robbo riscava os metrôs de Londres, em Belém a moçada assistia ao filme que dispararia a largada. The Warrios: os selvagens da noite (1979), que narra uma Nova Iorque tomada por gangues, onde “Os Selvagens” têm de atravessar a disputa territorial da cidade até estar à salvo. O celeiro da pixação era as escolas, onde se começava com o pincel atômico. As latas de tinta, então, passavam às mãos da molecada. “Sair à noite nos bairros pra pixar era adrenalina”, conta Preto Michel, escritor e arte educador, pixador das antigas, como se declara. Como toda juventude que se reúne em grupos, gangues se formaram pelos bairros de Belém e região metropolitana. “Nesse período, era pixação, não tinha treta, não tinha violência”, completa Michel. Aos finais de semana, em reuniões, pixadores deixavam sua marca nos cadernos dos parceiros, espécie de livro de ouro, cheio de rubricas.

Nas barcas da galera, virada das décadas de 1980 e 1990, a moçada se reunia para ir às aparelhagens, onde o som era o brega, mas também o house, o pamperape era a trilha sonora. As pixações passaram às capas dos jornais, os pixadores viraram celebridades da cena. As gangues se territorializaram, “começaram as tretas”, conta Michel. A violência cresceu. O ponto de encontro eram os fogos da festa de Nazaré, no arraial de Nazaré, que ainda hoje mantém uma aura de conflito entre as gangues. 






















Foram 20 minutos de ataque no muro, que deixou de ser uma tela limpinha pra levar um carimbo: estamos na ativa.


O RISCO

“Meu nome é Leônidas, mais conhecido como Léo”, introduz. Léo começou no mundo da pixação como muita gente: via os “caras pixando no banheiro, rabiscando muro, riscando no colégio”. Nas sextas-feiras, diz ele, rolava uma réuzinha, a reunião de pixadores lá no colégio Perpétuo Socorro, na praça Batista Campos, em Belém. E enquanto Ferris Buller passava uma tarde adoidada em Chicago, “muito nêgo da Cremação, muito nêgo da Batista Campos, muito nêgo do Jurunas” já estava começando a se dividir em gangues, conta Léo. Essa foi a história de Belém e a de muitos municípios paraenses no decorrer da década de 1990. “Aí as meninas gostavam. ‘Ah, risca meu nome e tal’. Começou a partir daí. Isso foi em 1992 e 1993. Eu estava fazendo a sétima ou oitava série”.

E enquanto Ferris Buller passava uma tarde 
adoidada em Chicago, “muito nêgo da Cremação, 
muito nêgo da Batista Campos, muito nêgo do Jurunas” 
já estava começando a se dividir em gangues, 
conta Léo.

Léo terminava o primeiro grau da época e o Toni Garrido tocava a tarde toda nas rádios. Nas salas de aula ainda com quadro negro e giz, o FHC propunha o Plano Real. Em meio a recreios regados a xarope globo com bolacha, Romário comandava o tetracampeonato. E, mais ou menos nesse mesmo período, um trio de moleques resolve dar um balão lá pela Doca. A intenção naquela tarde era estudar, mas um deles tinha um spray na mochila. Aí juntou a lata com a vontade de riscar. Uma casa e um corredor vazios foram os alvos. Na parede, carimbaram “Marcos”, “Júnior” e “Black”. A quarta pixação era “Léo”. “Hoje em dia, um desses amigos é promotor, o outro é advogado”, conta Léo. “Só eu que continuei nessa vida de, de vez em quando, dar uma riscada (risos)”.

E se iniciou uma jornada pelas ruas. A volta das festas sempre era um bom momento para deixar a marca num muro branquinho. Mas, no decorrer da década de 1990, numa madrugada errante, dar de cara com o Patam não era o melhor dos desfechos para um rolê. “Antigamente era muita porrada. A gente levava muito tapa”, narra Léo, citando as vezes em que foi detido pela polícia. O Patrulhamento Tático Metropolitano (Patam) fora extinto. O Léo, assim como seus amigos, deu prosseguimento à vida. De estudante secundarista, passou a representante de vendas, mas não deixou as ruas. O foco da polícia também mudou. “Hoje, a maioria dos policiais quer R$ 50 ou R$ 100 pra aliviar”. Um nome ficou conhecido na cidade, segundo Leônidas, em função do atrevimento. O pixador que atendia pelo apelido de “Masp”, do bairro da Cremação, resolveu pixar uma viatura de polícia. “Hoje é militar da Marinha. Assim falam”. 

É impossível não notar. “A cidade está detonada! (risos)”, comenta Léo. Não há espaço para novas pixações. Na avenida Almirante Barroso não tem espaço pra mais nada. É pixação por cima da outra, grafite, stêncil. Queimação sobre queimação. “Se não estiver pixada, é porque tem vigia dia e noite”, completa Léo. As marcas estão no ponto mais alto do pórtico metrópole, em frente ao shopping Castanheira; se alastraram junto ao grafite pelos pilares de viadutos, do Coqueiro ao Daniel Berg. Logo na chegada a Belém, o visitante assiste às imagens na avenida Júlio Cézar. No Facebook, há fanpages sobre pixação em Belém, blogs que contam trechos da história dos grupos. No Youtube, vídeos de pixadores em ação com até oito mil visualizações. “Pediram pra eu parar, mas não dá!”. 

T. REX

Pichar é crime, o artigo 65 da Lei de Crimes Ambientais é claro. “Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano”. Pena de três meses a um ano, além de multa. Se for um monumento ou prédio tombado como patrimônio, a pena vai de seis meses a um ano de detenção, mais
multa. Por essa ótica, Belém é um grande bolsão criminoso, onde o descumprimento da lei chegou a níveis de descontrole. Mas o marco jurídico, como visto, não é suficiente para explicar. Para o Luizan Pinheiro, autor da tese de doutorado “Pixação: arte contemporânea”, o ato de pixar é essencial ao humano, é da “ordem da embriaguez”, é um instinto típico dos “animais da cidade”. É como um Tiranossauro Rex nas jaulas do filme Jurassic Park. “Como controlar 60 milhões de anos de instinto? O T. Rex quer caçar, os pichadores querem pixar!”, dispara Luizan. “Isso é incontrolável. A arte é incontrolável”.
“Como controlar 60 milhões de anos de instinto? O T. 
Rex quer caçar, os pichadores querem pixar!”, 
dispara Luizan.

Arte! Luizan considera o pixo como arte, “exatamente por ele ser desautorizado, insubordinado, desobediente, ele ser revoltado, ele ser agressivo, sujo, filho da puta!”. O picho vem de piche, explica. O piche que foi utilizado para escrever “Abaixo a ditadura”. Vandalismo ou arte? “Eu digo: é vandalismo e é arte. Ele põe em risco e em crise o sistema visual da cidade”, completa. E o melhor exemplo é a Marianne, a representação feminina no topo do Monumento à República, na praça da República. “O monumento pixado é uma afirmação radical do limite onde chegou a irresponsabilidade do Estado em cumprir as suas políticas públicas”, completa Luizan. “Mesmo que o moleque piche por prazer, que ele invada os territórios, isso não te desobriga de cumprir uma política pública porque a juventude que picha também tá em risco pelo tráfico, tá na matança pela polícia nas periferias”.

GRAFITE

Entre diferenças, vozes e intersecções, surge uma dicotomia entre grafite e pixação. Um binômio. A legislação brasileira aponta essa divisão. A Lei 12.408, de 2011, faz um adendo à Lei de Crimes Ambientais, afirmando que “não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística”. Contanto que haja autorização do proprietário. E se o proprietário autorizar uma pixação? Aí o pixador certamente não iria querer fazer. E como diferenciar a linguagem? Na Alemanha, a imprensa chamava o grafite de picho e o picho, grafite. “O mais legal é isso, pois quando tu me pedes uma definição, eu vou te dizer: mano, não tem definição”, arremata Luizan. “A definição é o brother que tá lá na parede mandando o caralho, entendeu? Essa é a cena”. Já o Léo, o Leônidas, pixador das antigas, diz que “a diferença é a ideia deles”. “A ideia do grafiteiro é mais comercial. Eles acham que, fazendo grafite, vão ganhar dinheiro, vão fazer outdoor, vão fazer placa. Pixador não quer saber disso, não. Ele quer saber de tá com o nome dele lá em cima”. Mas essa é a opinião do Léo.

A Drika Chagas pensa diferente ― e faz de um jeito diferente. Durante um trabalho na rua, uma viatura parou ao lado. É grafite, não é?, perguntou o policial. “Alguns policiais já tão começando a fazer uma diferenciação de um e de outro”, conta Drika, que trocou uma ideia e até recebeu o convite para grafitar o muro de um dos policiais. A Drika começou a se interessar pela linguagem ainda na adolescência em função de uma revista sobre grafite. À época, ela já desenhava, mas não conhecia a arte de rua. Foi por meio da banca de revistas que passou a se inteirar. Num evento da prefeitura, o “Cultura de Rua”, Drika foi conhecer quem já fazia grafite em Belém. Na verdade, em Marituba. Anderson Bocão e Moisés compunham o M3, um grupo que produzia grafite em Marituba, mais que em Belém. Drika, então, começou a pintar a cidade. E veio o curso de Artes Plásticas na Universidade Federal do Pará. “Foi um período que eu quase não pintei, não pratiquei o grafite. Parei pra estudar. Fiquei mais pesquisando. Quando eu saí, já senti meu trabalho mais apurado”.
A rua da Drika é pra todo mundo. Para ela, muros 
e paredes são a galeria mais democrática. 
A rua da Drika é pra todo mundo. Para ela, muros e paredes são a galeria mais democrática. “Acredito que hoje em dia o grafite é a arte que mais conversa com o povo”, afirma. E embasa isso a partir da notória elitização dos museus e galerias institucionalizados. “Eu sempre digo que o público de massa tem um medo de entrar numa galeria, num museu. Acha que pra entrar você tem que estar arrumado, tem que pagar… Tu chegas e dá de cara com um guardinha lá na porta, com um segurança te olhando com cara feia, que não te dá nem bom dia”. Sem bom dia, ainda assim, a cena segue.











Ao final da ação, incorporando um pantera negra, o pixador sente a adrenalina escorrer por todo o corpo. Esta feito.


AÇÃO

K-Xorro é a persona de Marivaldo. Além de suas performances nas ruas, ele atua como arte-educador em escolas públicas da capital paraense. Acredita no grafite, na pixação e noutras linguagens de rua como mecanismos para emancipação social. “Mas tenho cuidado: eu, como arte-educador, não posso estimular a pixação nos meus alunos”. Naquela noite de quarta-feira sem graça, o dono do muro era o empresário Jogi Mutó. Enquanto ouvia a ladainha do K-xorro, sua filha Bárbara, 15, comentava a cena. “Meu quarto é todo grafitado”. O pai, então, finalizou: pode grafitar aquele muro. O Dog foi lá e desceu um cachorrão na parede. Em uns vinte minutos, a saudação estava na parede. 

Mas aquele episódio não é o comum. O K-xorro pixa à noite, sem autorização, e entra em batalhas de queimação. A mais recente está no muro do cemitério da Soledade. “Belém 400  nus!”. A frase pixada ficou lá alguns dias, depois foi apagada. Não fizeram um grafite ou uma pixação por cima, ela foi apagada. Aí o Dog foi lá e pixou de novo. E mais uma vez apagaram a mensagem. O Dog não resistiu e pixou: a arte quer respirar. E um recado aos senhores feudais da arte, como ele mesmo chama. “Eu continuo pixando e vou morrer pixando. Essa é uma energia que está dentro de mim e não posso controlar”.



















Pixadores e grafiteiros, artistas de rua no geral, deixaram uma mensagem aos senhores: não dá pra parar.



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