Cortejo cultural narra uma nova história para a Terra Firme

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A Terra Firme que, há duas semanas, reclamou a lembrança dos seus e de todos os mortos no massacre da noite de 4 de novembro de 2014, estava de volta às ruas no fim da tarde desta sexta-feira (20), em festa. Alegria, luto, indignação, tristeza, êxtase, todos os sentimentos fazem parte da mesma dinâmica de resistir. À violência policial, ao estigma de ser “casa de bandido”, às desapropriações do Estado, à autodepreciação que vem ao fim, quando o discurso oficial vence. Dessa vez, tudo isso vai ficar aqui, na introdução, para dar espaço ao Cortejo Cultural da TF.

Alegria, luto, indignação, tristeza, êxtase, todos os sentimentos fazem parte da mesma dinâmica de resistir.

 Na praça Olavo Bilac, uma das únicas do bairro e das pouquíssimas do mundo que tem horário de funcionamento (a gestão pertence à igreja em frente), a concentração começou ao pôr-do-sol. Da rua Celso Malcher subia um som crescente e coordenado, uma bateria intercalada pelas vozes dos estudantes da Escola Brigadeiro Fontenelle. “A minha terra é firme”, “Minha paz tem cor” e uma paródia da música “Eu só quero é ser feliz” do Rap Brasil, trazendo as rimas para os tons locais. 


















                     Nas ruas da Terra Firme, às margens do Tucunduba, cultura e arte cantaram novos tempos para o bairro

O “bonde” seguiu as vias estreitas da Terra Firme, encorpando a cada viragem de esquina com mais gente que chegava.  Vindo da retaguarda, surge um monociclista na carreira e um pernalta nos malabares acompanhados do berimbau e do agogô. Era o “Eu sou Angoleiro”, grupo nacional de capoeiristas que fez do bairro a sua casa em Belém e que, à noite, na Terra Firme, misturou circo com a ginga da capoeira.

O Boi-Bumbá Marronzinho, há 22 anos dançando, girando e balanceando pelas quebradas de lá, não demorou para entrar na roda. O chamado do batuque ancestral fez a conexão das linguagens, que muito falam à comunidade negra nordestina, migrantes de diversos ciclos, do século XIX às décadas de 1970 e 1980, e hoje em grande número na TF. 

 “A gente sabe que a cultura tem um poder muito grande, quando ela chega nessas áreas mais viscerais em que o governo não chega e ninguém quer chegar, inclusive”, comenta Edmar Souza.

 À medida que entrava mais e mais em direção ao Tucunduba, a chamada “periferia da periferia da Terra Firme”, a dança dos jogadores e do boi era acompanhada de perto pelos olhares curiosos de quem espiava das casas e comércios das calçadas.  “A gente sabe que a cultura tem um poder muito grande, quando ela chega nessas áreas mais viscerais em que o governo não chega e ninguém quer chegar, inclusive”, comenta Edmar Souza, membro do Movimento de Resistência da Terra Firme, um dos organizadores do cortejo. “Quando a arte consegue chegar nesses espaços, as pessoas podem refletir, se refletir e ver o outro, e a gente sabe que isso tem uma interferência”. 












O gingado da cultura amazônica conduziu a população retomando as ruas da cidade

Nas margens do igarapé sempre à espera da macrodrenagem, teve fim o cortejo. Uma resistência celebrativa misturando capoeiristas, donas de casa, crianças, feirantes, o tripa do boi, bailarinas, idosos e circenses e um salve em forma de arte para os antepassados que sobreviveram ao cativeiro e à pobreza e nunca deixaram a esperança desaparecer. Que outros cortejos culturais preencham o cotidiano da Terra Firme!

Fotos: Kleyton Silva

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