Teatro negro

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O tema do espetáculo? A perversidade humana em sua pior forma: o racismo. Um espaço de luta de consciências é o que se nota durante os 45 minutos da apresentação.
















Em cena, os atores Amanda Alvino, Bonelly Pignatario, Felipe Almeida, Victor Peixe e Tamires nos contam a história de uma relação de violência e racismo.

Existem várias formas de silêncio. Há quem diga, inclusive, que a ausência total de som é uma ilusão. Na noite do último domingo (22), no espaço alternativo “A Casa da Atriz”, o espetáculo “Negro”, do Grupo de Pesquisa Cênica, provocou uma intricada rede de sons que tomou de assalto o ar. Eram olhares inquietos, cílios nervosos sobre os corpos dos atores. Pernas balançando de um lado a outro a criar ruídos. Dedos roídos. Todo o mundo que estava lá ouviu. Era o teatro instalando seu grito em cada mente e despertando a reflexão.

“Em minha pesquisa, percebi que pouco mudou do dia 13 de maio de 1888 para a atualidade. O povo preto ainda vive a escravidão, uma espécie de herança maldita que persiste porque nós fingimos que não existe.”

O tema do espetáculo? A perversidade humana em sua pior forma: o racismo. É o que pensa Tamires Tavares, atriz e autora da dramaturgia do trabalho, um ser movido a inquietação. “A dramaturgia surgiu através das músicas interpretadas por Elza Soares, através de conversas intermináveis com a atriz Tatá Lima e com o ator e historiador Victor Peixe, e através de casos noticiados de racismo”, relembra. Para a autora, a segregação vivida pelos negros no Brasil é fruto de outro tipo de silêncio, o mascaramento da realidade. “Em minha pesquisa, percebi que pouco mudou do dia 13 de maio de 1888 para a atualidade. O povo preto ainda vive a escravidão, uma espécie de herança maldita que persiste porque nós fingimos que não existe”, relata.

Em cena, os atores Amanda Alvino, Bonelly Pignatario, Felipe Almeida, Victor Peixe e Tamires nos contam a história de uma relação de violência entre quatro personagens: o Branco, o Negro, a Negra 1 e a Negra 2, que vivem juntos numa casa onde o primeiro é o dono legítimo dos demais. O tempo histórico da narrativa não é determinado. Sabe-se apenas que a televisão noticia casos de racismo no mesmo instante em que um homem está amarrado aos pés de uma mesa, sem água e sem comida. Esta é uma das cenas do espetáculo, que trata, também, de forma central, a violência sexual vivenciada no dia a dia pelas mulheres no Brasil.

Havia uma preocupação: não permitir que o público sentisse o menor afeto pelo personagem Branco.

Segundo Victor Peixe, o grupo teve como objetivo sair do âmbito afro religioso, temática mais trabalhada em Belém por artistas interessados na questão negra, e abordar de forma mais direta o problema do racismo. Desta forma, aproxima-se de outros movimentos e grupos atuantes na cidade como o Coletivo Casa Preta e o projeto ParÁfrica. “Embora não sejam grupos ligados às artes cênicas, o trabalho artístico e político que desenvolvem é salutar na formação de uma consciência negra amazônida. Daí pra perceber o teatro como um espaço de luta a ser ocupado, é um passo muito pequeno”, afirma.

Um espaço de luta de consciências é o que se nota durante os 45 minutos da apresentação. Desde a escolha dos atores que encarnam os personagens, seus cabelos e cor da pele, até as canções utilizadas, todos os elementos cênicos buscam a inquietação do espectador. “Nos preocupamos para que em nenhum momento o público possa ter afeto pelo Branco. Nesse ponto, nos aproximamos do distanciamento proposto pelo Brecht. Queremos que todos saibam que estão no teatro, em um espaço de reflexão”, explica Peixe.

Para o historiador e ator, a questão do racismo é também um problema da cena teatral de Belém. Ele acredita que existe um silêncio sobre a estética negra nos cursos de formação de atores na cidade e arrisca dizer que isto se estende também à dança, ao cinema e às artes visuais. 

Para o historiador e ator, a questão do racismo é também um problema da cena teatral de Belém. Ele acredita que existe um silêncio sobre a estética negra nos cursos de formação de atores na cidade e arrisca dizer que isto se estende também à dança, ao cinema e às artes visuais. Como reação, o grupo pretende continuar tornando o teatro “um espaço politicamente necessário para tratar da vida, das angústias, das neuroses, dos desejos, da história e das crenças dessa herança cultural usurpada”.

O espetáculo “Negro” esteve em cartaz entre os dias 18 e 22 de novembro na “Casa da Atriz”, que fica na rua Oliveira Belo, número 95. Para 2016, o plano da trupe é partir para espaços da periferia de Belém e continuar fomentando o debate. Entre silêncios e silêncios, a voz do Grupo de Pesquisa Cênica, definitivamente, tem algo a dizer.

Fotos: Rafael Monteiro

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