Batalha de São Brás

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A praça Floriano Peixoto mudou de nome: é a praça da Batalha de São Brás. Alguém discorda?

Jorge Santos carregou sacolas durante o sábado para os clientes do mercadinho em que trabalha, no bairro da Marambaia. Às 18h, bateu o ponto, foi pra casa tomar um café, trocou o uniforme de trabalho pela camisa do time de basquete, bermuda, boné e skate e seguiu para a praça Floriano Peixoto, no Mercado de São Brás. Após algumas manobras, sentou para descansar encostado em um monumento do local. Na obra, duas estátuas, que representam a República e as Artes – que antes ficavam ao lado da desaparecida Trabalho – miram toda sua atenção para a representação de Lauro Sodré, sentado em um trono acima de nós, e dão as costas para toda a gama de artistas que ocupavam o espaço naquela noite. Era o rap, hip-hop, grafite, pixo e dança, saído das ruas para as ruas, mais uma vez se expressado por conta própria. Era a Batalha de São Brás.

Em São Brás, tem que ser sagaz: a batalha é face a face! Rima ligeira, ideia no ar.
(Foto: Rafael Monteiro)

Dezenas de pessoas com o mesmo estilo se aglomeravam ao redor das duas caixas de som montadas no local, aguardando o início das disputas de improviso entre os MCs. Muitas sentavam ou se apoiavam nos monumentos tomados por tintas de spray.  Outros ficavam em rodas menores, mais afastados dos equipamentos. Até algumas famílias com crianças pequenas rodavam pela área. A praça estava lotada. “Todo sábado fica assim, cheio de gente. Não tem outro lugar que nem esse pro rap, mano. Se é preto cantando ou falou de preto, o pessoal já olha torto pra gente. Acha que é ladrão querendo dinheiro pra droga”, contou Jorge, que anda de skate na praça desde os oito anos e acabou virando frequentador da Batalha, que já ocorre no local há dois anos e meio.

O ganhador da disputa, determinada pelo voto popular e do júri, segue na competição da noite, até que seja conhecido o campeão do sábado.

Os competidores se reúnem com o DJ e se inscrevem para as batalhas. Após um sorteio, o primeiro combate é iniciado. “Atenção, pessoal, vamos começar as batalhas da noite. Lembrando que existem regras. Palavrão, só se for necessário. E que Jesus nos abençoe”, afirma o mestre de cerimônias, mediador do embate, antes de iniciar os confrontos. O ganhador da disputa, determinada pelo voto popular e do júri, segue na competição da noite, até que seja conhecido o campeão do sábado.

As rimas seguem velozes. “Escuta aqui, seu pela-saco/ a noite aqui vai ser de esculacho/ vou rimando no som dessa batida/ até a hora que eu acabar com a tua vida”. Os versos seguiam ao som da negritude. “Acabar com a minha vida, tu só ameaça/ Mas todo mundo viu que a tua rima não tem graça/ vou te mostrar como é que faz um improviso de critério/ e rimar durante o teu caminho daqui ao cemitério”.

“Aqui a gente faz tudo por contra própria, sem apoio. Se sustenta como dá”, afirmou Pelé do Manifesto, um dos MCs mais consagrados em Belém.

Com o avançar da noite, vai sendo comprovado que o movimento hip-hop de Belém encontra em si mesmo a força para existir e resistir. “Não esqueçam que você pode encomendar sua camisa ou boné da Batalha de São Brás ou comprar o CD da disputa do último sábado. E também vamos concorrer na rifa pra ganhar o DVD aqui. Só R$ 1. Vamo, que é só pra pagar o som”, anunciam os organizadores entre cada rodada.

“Aqui a gente faz tudo por contra própria, sem apoio. Se sustenta como dá”, afirmou Pelé do Manifesto, um dos MCs mais consagrados em Belém. Com sete anos de carreira, reconhece que a Batalha de São Brás teve um papel fundamental no crescimento do seu trabalho, que já alça voos nacionais. O vídeo de sua música “Sou Neguinho”, gravado em um dos sábados, já alcançou mais de 100 mil visualizações na internet e ganhou destaque em fóruns nacionais de hip-hop.

INÍCIO
A cena deu seus primeiros passos com festas fechadas, pouco público, mas houve a necessidade de se expandir às ruas. No início, veio a Rima das Ruas, na praça da República. Aí veio a Batalha de São Brás. “Aqui acabou se tornando um espaço fundamental pro hip-hop de Belém. A aglomeração de todos os setores, com o improviso, os Bboys (dançarinos de rua), os grafiteiros. Antes a gente trazia uns painéis para que fosse feito o grafite durante a batalha, mas não temos mais dinheiro para isso”, continuou Pelé do Manifesto. Sobre os monumentos pixados? “Não é da Batalha. A galera do grafite e do pixo sempre está aqui, conhecemos eles, estão no movimento. Mas o pixo nunca é feito durante a Batalha”.

Na praça sem ocupação efetiva, o hip-hop deu novo significado para o espaço público.
Não adianta chorar, tem que rimar! 
(Foto: Rafael Monteiro)

O hip-hop é a estrela da noite. Toda a atenção é destinada às apresentações. Há poucas conversas paralelas. Quase não se encontra bebida alcoólica. No microfone, um MC canta sobre como o cigarro pode acabar com sua vida, e que o melhor é se manter saudável. No público, algumas pessoas com cigarros na mão. Outras, passando um baseado ao colega do lado. “Na semana antes do Círio foi a única vez que tivemos problemas com a polícia. Eles vieram e pediram para desligar o som, por que não tínhamos licença, tinha gente fumando maconha perto de crianças. Mas conversaram com a gente, não foi violento”, contou Pelé. “Maconha é a nossa cultura. É a realidade da cidade, na verdade. Não tem porquê esconder. Aqui ninguém mexe com ninguém, fumando ou não”, completou outro membro da plateia.

FAMÍLIA

Mas as famílias que vem ao espaço concordam? “Não tenho muito problema com a droga, não. Sábado à noite é o único momento em que a praça está segura, na verdade. O resto do tempo é um abandono”, disse Tadeu, que passeava com a filha Camila, de 7 anos. “A praça é abandonada mesmo. Eu venho aqui há dois meses para vender camisas, boné e essas coisas, e todo sábado chego umas 17h para limpar antes. Tá sempre cheio de urina, sujo. Limpei hoje, e amanhã já está tudo nojento outra vez. Se a prefeitura limpa, deve ser uma vez no mês e olhe lá”, contou o estudante de história Felipe Andrade, de 25 anos, que aproveita a Batalha para conseguir uma renda extra.

“Tem que ser sagaz/ tem que ser sagaz/ pra rimar na Batalha de São Brás”, gritava o público.

“A gente sentiu a necessidade de um local pro hip-hop em Belém, pra fazer cultura, e vimos que o mercado de São Brás era um espaço inutilizado. Não havia nada aqui. Então decidimos ocupar para ter lugar na rua para mostrar esse trabalho”, completou Everton MC, um dos idealizadores da Batalha, enquanto acompanhava atencioso a disputa que ocorria. Após várias etapas, o público elege o vencedor da última disputa. Ele virá novamente na próxima semana. Se continuar ganhando, poderá representar o Pará em uma disputa regional e, posteriormente, nacional. Mas para isso ainda tem tempo. 

Antes, ele, o vencedor, e o resto do público vão voltar para casa. Domingo é dia de descanso, mas depois chega a segunda-feira e todo mundo tem que trabalhar. Movimento independente como esse é assim. Você dá de si o quanto pode, quando pode, para no próximo sábado ter força para rimar novamente. Tem que ser esforçado. Tem que ser sagaz. 

“Tem que ser sagaz/ tem que ser sagaz/ pra rimar na Batalha de São Brás”, gritava o público.

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