Não se mete a colher, por que?

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Encarar a violência contra mulheres como natural ou assunto que se resolve dentro de casa é uma das coisas que fez os casos de feminicídio aumentarem no Brasil e no Pará

“Em briga de marido e mulher não se mete a colher”. A perpetuação do significado desse ditado popular é uma das piores formas de naturalizar a violência doméstica no país e, por tabela, o tipo de violência que mais mata as mulheres no Estado do Pará. Quem lembra da estudante universitária Ingred Israel, 28, originária de Óbidos, atacada e morta com 20 facadas dentro de casa, na Cidade Nova 5, após discutir com um colega? O caso ocorreu em 20 de abril deste ano e foi o primeiro a ser enquadrado no Pará na Lei do Feminicídio. Ou da Marcionilde, 38, moradora da Cabanagem, que teve rosto, braços e seios queimados por um maçarico pelo marido, resultado de uma “briga de casal”? Ou Lorena Pereira, cujo rosto foi desfigurado por golpes de terçado pelo ex-companheiro, em Abaetetuba?

É para dar visibilidade a esse tipo de violência que hoje, 25 de novembro, instituiu-se o Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. A data é uma homenagem à “Las Mariposas”, as irmãs Pátria, Minerva, e Maria Teresa,  que foram torturadas e assassinadas por protestaram contra a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, nos anos 1960. O dia vem sendo aludido desde 1981, no 1º Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho, e proclamado pela Organização das Nações unidas (ONU) em 1999 como o “Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra a Mulher”.

















Símbolo de campanha de combate à violência contra as mulheres (Imagem disponível em no site Irecê Repórter)

Essa data é importante para te lembrar de todas as formas de violência impostas a nós, mulheres, mas também para refletir que o feminicídio ainda é a forma de violência que mais mata mulheres e meninas em todo o Brasil. O feminicídio é um crime de gênero e pode ser caracterizado pelo assassinato de mulheres apenas por serem mulheres, imposto por homens que julgam ter o poder de decidir sobre a vida ou morte da companheira, irmã, mãe, namorada ou ex-namorada. As principais causas são o ódio, o desprezo, o ciúme, o sentimento de perda de controle ou de propriedade sobre a mulher e sempre são precedidos de violência moral, psicológica, física e sexual.

As formas de reprodução de atitudes patriarcais e machistas levam à naturalização desses casos, dessas vítimas, fazendo com que se difunda o pensamento que isso é normal. Que “marido ou namorado mata mesmo e já é de tanto tempo que nem tem mais o que fazer”. Quando a lógica não anda por esses caminhos tortuosos, a reação é culpar a vítima porque “ela mereceu, provocou, traiu, deixou o lar…” e a consequente inocência e impunidade do agressor. 

“O Cravo brigou com a Rosa
Debaixo de uma sacada
O Cravo saiu ferido
E a Rosa despedaçada” 
(O Cravo e Rosa – Cantiga de Roda Popular)

Desde a infância a normalidade dessas relações violentas e abusivas são reproduzidas nas nossas brincadeiras mais simples, nos ditados populares, nas cantigas de roda. Mas é tempo de refletir sobre e desconstruir essas naturalizações.

A mulher não precisa aguentar tudo num relacionamento para manter a família unida. O homem não pode agir como dono daquela mulher que vive ou se relaciona com ele, impondo superioridade e opressão. Não é culpa da mulher se ela foi violentada e ela também não estava pedindo por isso. O único culpado é o agressor. Não é normal viver numa relação abusiva e a mulher não tem que obedecer aos “comandos” do seu companheiro.

Não é tarefa fácil esse combate, pois a violência é rotina na vida de muitas mulheres, principalmente se ela é pobre, negra e dependente financeiramente do marido. Os dados do Mapa da Violência Contra a Mulher 2015¹ mostram que somente no Pará, em 10 anos (2003-2013), o Feminicídio cresceu 104,2%, e em Belém cresceu 52,2%, o que dá o número de 5,6 mulheres mortas para cada 100 mil mulheres habitantes no Estado. 27,1% dessas mortes ocorreram dentro de casa causadas por pais, irmãos, namorados, maridos, ex-namorados ou ex-maridos.

Atualmente o Brasil possui leis para ajudar nesse combate, como a Lei Maria da Penha (11.340/2006) e a Lei do Feminicídio (13.104/2015), mas a jornada ainda é longa e passa por muitas outras vias, que não só a jurídica, quando o assunto são as mulheres e seus direitos. Além das leis, é preciso que ocorra um processo de reeducação social para que a sociedade entenda a gravidade dessa situação, pois a Lei em si, não extingue com a violência. Implantar políticas públicas integradas para coibir e prevenir a violência contra a mulher, seja ela doméstica ou não. É preciso que a mídia pare de retratar os casos de feminicídios como “crimes passionais” ou “homicídio privilegiado”, termos que estabelecem a culpabilidade da vítima.

Por isso, hoje é dia de luta, união e vozes erguidas para combater o patriarcado, o machismo presente em nosso cotidiano. Contra os Cunhas, Bolsonaros, Fidelix, Antônios Eduardos, Diógenes Araújos e tantos outros que se julgam donos de nossos corpos e de nossos destinos apenas por serem homens. Somos Mulheres. Basta de violência contra as nossas mentes, as nossas decisões, os nossos corpos, e as nossas vidas!












Grafite: arte urbana para promover igualdade de direitos (Imagem: disponível no site da Agência EBC Brasil)


Referências:

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Guajajara

Sônia Guajajara foi recebida com um canto de saudação na sala da Associação dos Povos Indígenas Estudantes na Universidade Federal do Pará (APYEUFPA), na última