As mulheres e a cidade

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O silêncio que construiu a história da capital paraense

Do bairro da Campina, emerge uma posição pelo protagonismo feminino. Silenciadas historicamente, as expressões, as vozes e o corpo feminino se ressignificam a partir dos discursos delas mesmas. Há uma pergunta: onde esteve a mulher em 400 anos de história belenense? Na Cabanagem, são famosos Batista Campos, Eduardo Angelim e os irmãos Vinagre. Na República, se exalta Paes de Carvalho e Gentil Bittencourt. Por mais que tenham sido suprimidas, elas estavam lá. E, para reconstruir o passado da mulher em Belém e na Amazônia, só desconstruindo o presente.

A mulher é a personagem suprimida da história da cidade. 
Uma das lutas feministas é demonstrar seu protagonismo – tanto ontem como hoje. 

As lutas por igualdade de gênero e os movimentos feministas, apesar de intensos desde a década 1970 e 1980, ainda não conseguem fazer da mulher a protagonista dos livros de história e do espaço urbano. Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, Belém possuía cerca de 734.391 mulheres para 659.008 homens, uma maioria numérica que não representa poder de voz e maior reconhecimento social.

HISTÓRIA

“A sensação que nós temos é de que essa inserção da mulher no mercado de trabalho, no contexto urbano e como chefe de família, é recente. Porém, se analisarmos mais profundamente, veremos que esse personagem sempre esteve presente na história”, explica a professora Eliana Ramos, doutora em História, atuante na Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) e  membro do Grupo de Pesquisa Terra, Natureza e Território na Amazônia Luso-brasileira.

A historiadora conta que, durante sua pesquisa, encontrou relatos datados de 1830 que falavam sobre mulheres já inseridas nas relações de trabalho da época. “Uma das personagens interessantes que encontrei relatada em documentos policiais foi uma preta vendedora de peixe frito, ou seja, uma mulher que já trabalhava fora e que já fazia parte do comercio local”, afirma Eliana.

Mulheres foram muito atuantes em momentos históricos como a Cabanagem, mesmo tendo sua participação diminuída ou silenciada nos livros.

Ela ressalta, ainda, que as mulheres foram muito atuantes em momentos históricos como a Cabanagem, mesmo tendo sua participação diminuída ou silenciada nos livros. Alguém estudou uma liderança feminina da Cabanagem? “Em outro documento que tive acesso, fala-se em uma viúva chamada Dona Bárbara, que, segundo consta, foi acusada de, na época em que o líder cabano Antônio Vinagre foi preso, ser a responsável por infiltrar-se na embarcação que o levaria até o Rio de Janeiro e facilitar-lhe a fuga”, conta a historiadora, lembrando, ainda, que os planos foram denunciados e Dona Bárbara “negou a participação, alegando que o dinheiro que carregava consigo não era para suborno, mas para o seu sustento na capital federal”.

Para ela, essa é mais uma prova deste protagonismo que insiste em ser mascarado pelo machismo institucionalizado, inclusive na academia. E, como lembra Marco Polo, protagonista de Cidades Invisíveis, do escritor italiano Italo Calvino, “jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve”. Belém, às portas dos seus 400 anos, é uma prova desta construção feita no dia a dia através de múltiplos discursos, mas relatada nos livros através de uma visão unilateral, que ora exalta personagens (os vencedores, homens, brancos e ricos), ora os silencia (os perdedores, pobres,  mulheres e negros) em prol da construção de um ideal de cidade.

A REINTERPRETAÇÃO DO PASSADO

Se as personagens históricas femininas dos últimos 400 anos não tiveram seu espaço devidamente reconhecido, as mulheres que estão, hoje, construindo a Belém do futuro, aprenderam com isso e reconstroem um mundo cada vez mais livre desse ciclo de supressão. Esse é o caso das feministas negras na Amazônia. Um grupo de mulheres que luta em prol de igualdade de gênero, valorização profissional, desconstrução de preconceitos racistas e resgate da memória feminina negra na História. “Na Amazônia (enquanto contexto macro), ainda estamos iniciantes no debate sobre feminismo negro em comparação ao demais territórios brasileiros já tão maduros nessa reflexão”, afirma Thiane Neves, publicitária, feminista e ativista negra.

Thiane Neves é publicitária, feminista e ativista negra. Para ela, na Amazônia, ainda se luta para compreender negras, indígenas, amazônidas no geral.

Ela explica que, na Amazônia, ainda existem lutas por direitos básicos que dificultam o empoderamento das mulheres. “Aqui, as mulheres do campo ainda enfrentam os grileiros por um pedaço de terra. Em Belém, impera a morenice cabocla. A gente ainda luta para se compreender negras, indígenas, amazônidas, afroindígenas. Protagonizar nessa pluralidade de raças não é fácil”, conta. Ela levanta, ainda, questionamentos sobre como essa mulher se posiciona em um contexto local e continental. “Porque se a América Latina como um todo cultiva a mestiçagem como identidade social e cultural, como faz para na Amazônia a gente se posicionar como povo negro, de matriz africana, de cultura africana, de origem transatlântica?”

Em reunião, o grupo de mulheres negras trava discussões sobre a posição da mulher na sociedade amazônica.

Desse grupo de mulheres, surge o projeto fotográfico ParÁfrica, que busca a conscientização negra do Estado do Pará. Uma das idealizadoras do projeto, Aíssa Mattos, sabe que “o feminismo negro é uma militância diária e muitas vezes familiar”. Para ela, ainda é preciso “brigar dentro de casa para se afirmar negra”, disse Aíssa durante um dos dias da exposição fotográfica, que ocorria no Casulo Cultural, no bairro da Campina.

PROSTITUTAS

Dentro desse contexto de reconhecimento e valorização de gênero, também lá no bairro da Campina, está  o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (Gempac), que desempenha um importante papel social ministrando palestras educativas sobre a prevenção de DST-Aids, e mantendo um ateliê de costura para as mulheres, entre outras ações que beneficiam as prostitutas e suas famílias em todo o Pará.

Dona Lourdes, como é conhecida, é fundadora e coordenadora do Gempac, grupo que luta para dar um novo significado à mulher prostituta. 

“A puta está presente na História e faz parte do desenvolvimento social, apesar de ser tratada sempre de uma maneira pejorativa e banalizada”, afirma Dona Lourdes Barreto, fundadora e coordenadora do grupo. “Nossa luta é quebrar essa visão e nos fazer enxergar do pescoço pra cima como participantes ativas da construção de uma cidade melhor.”

“Nossa sede no bairro da Campina funciona como uma associação de moradores. Quando abrimos para nossas atividades, temos crianças brincando, mulheres de todas as profissões”, comenta a coordenadora.

O Gempac possui hoje mais de quatro mil mulheres cadastradas somente em Belém, dez mil em todo o Pará, realizando diversas atividades culturais, educativas e sociais. “Nossa sede no bairro da Campina funciona como uma associação de moradores. Quando abrimos para nossas atividades, temos crianças brincando, mulheres de todas as profissões”, comenta a coordenadora. “E é isso que almejamos para além das nossas paredes: poder ser vista como ser humano e como profissional.”

Há uma conexão. “Respeitando o limite de tempo e espaço, nós temos, sim, uma relação entre a mulher do século XVIII e a de hoje, pois elas estiveram e estão presentes no espaço urbano, estão lutando pelos seus ideais, pela sua sobrevivência e escrevendo a história com outras tintas”, finaliza a professora Eliana. Ainda lembrando o escritor Italo Calvino: “A cidade não é feita disso [discursos], mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado.” A cidade é fruto de uma combinação feita de ruas e construções, mas, acima de tudo, de gente, suas histórias, seus casos e suas vivências.

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