Espaço da Palmeira

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O espaço, que já foi fábrica, descampado
e praça, é eterna promessa para os camelôs do centro de
Belém. Três prefeitos, 400 trabalhadores e um espaço público à deriva.                                                                               
                                           

Tem uma cerpa? Não, amigo. Aqui só refeição mesmo. Mas eu vou almoçar,
tem como conseguir uma? É que aqui a gente só vende refeição. Tem carne assada
com batata, frango frito e sarapatel. Traz um sarapatel, então. O negócio está
parado por aqui, não é? Ah, isso é uma enrolação. Os camelôs já voltaram todos
pra rua. Não era pra eles estarem nesses boxes aí? Na rua, eles fecham a
passagem, enrolam todo o meio de campo. Não tinham que sair da rua para os
camelódromos? Olha, meu amigo, deixa eu te falar: se é por causa do espaço na
rua, por que não proíbem os carros? Tu sabes que camelô na frente das lojas não
é bom pros lojistas, né?
 

De velha só a aparência: réplica do quiosque do Bar do Parque foi construída no século XXI

Esse espaço aqui era o chamado Buraco da Palmeira. Tava tudo cheio de lixo, abandonado mesmo. Era Palmeira porque aqui tinha a Fábrica Palmeira¹. Negócio antigo mesmo, lá do século XIX. Mais de 15 mil metros quadrados. Aqui se vendia de tudo: pão, biscoito, chocolate e caramelo e outras coisas. Teve um incêndio, mas a fábrica foi reconstruída, firma forte. Mas foi, foi até falir. Aí o prédio foi demolido, lá pelos idos de 1970, e ficou só o espaço vazio, o tal do Buraco da Palmeira. Então veio o Edmilson. O Edmilson fez um negócio de uma praça aqui, mas não deu muito certo. 


Aí o desembargador mandou os camelôs saírem da
Presidente Vargas. Foi no dia 28 de janeiro que veio pra mais de 100 guardas
municipais e foi uma porrada. Teve gente ferida, uns 20 camelôs presos. Tudo
trabalhador, meu amigo, ninguém tava fazendo nada errado.


E foi isso. Aí teve toda aquela onda lá da Presidente Vargas. Foi em
2008. Foi toda aquela confusão, tinha coisa no jornal, coisa na justiça. Aí o
desembargador mandou os camelôs saírem da Presidente Vargas. Eles não saíram.
Foi no dia 28 de janeiro que veio pra mais de 100 guardas municipais e foi uma
porrada. Teve gente ferida, uns 20 camelôs presos. Tudo trabalhador, meu amigo,
ninguém tava fazendo nada errado. Mas o negócio da justiça dizia também que a
prefeitura tinha que construir um camelódromo. E aí foi o Duciomar que tocou a
obra. E inaugurou, só que com o nome Espaço da Palmeira².

Vieram pra mais de 400 camelôs de lá da Presidente Vargas. Só que o
negócio não prestou. Olha, me diz como é que as pessoas vão entrar aqui nesse
camelódromo quente, poeirento e sem nada de mais? Aí tu me dizes que os boxes
estão todos fechados. Mas é que o pessoal da associação daqui correu pra cá e
pra lá e conseguiu uma reforma. Só que a reforma só saiu no final do governo do
Duciomar. Tu sabes… Mesmo assim ele não elegeu o candidato dele. E, nesse
período, os camelôs fizeram um acordo: eles ficariam na rua, na Manoel Barata,
enquanto não ficasse pronta a obra. Só que isso foi em 2012. Aí tu me pergunta:
cadê a obra?

 

 

Pois veio o terceiro, o Zenaldo. Esse mandou parar logo a obra. Disque
não tinha projeto. Mas como não tem projeto se, no período do Duciomar, teve
reunião e tudo, inclusive com o tal do órgão do patrimônio, que autorizou?
Enfim, só sei que pararam a obra. De novo o pessoal da associação pra cá e pra
ali e conseguiram uma reforma. Uma obra de mais de oito milhões, parece, com
tudo certinho, bonitinho, casa lotérica, correios, caixa eletrônico pra trazer
cliente. Mas foi só no papel mesmo. Ainda nem começaram nada aqui. O Zenaldo
diz que não tem dinheiro, que veio a crise, e o governo federal não mandou mais
nada.

Deve ter uns 200 camelôs hoje aqui, só que eles vendem pouco, sabe? A
outra metade, ou fez acordo com a prefeitura ou ficou doente, porque muita
gente ficou doente aí dentro disso. O que eu sei é que já passaram três
prefeitos por aqui e nada se resolveu de verdade. Mas e esse quiosque aqui,
esse é velho, né? Que nada. Eu não te disse que aqui antes era uma fábrica?
Esse quiosque quem fez foi o Duciomar, na obra dele. É uma réplica do Bar do
Parque, só que o nome é Espaço da Palmeira. A verdade é que ficou bem
meia-boca. E a verdade da verdade mesmo é que só com o dinheiro do tal do
décimo terceiro dos vereadores, que eles colocaram pra eles mesmos esse ano, já
dava pra fazer a reforma daqui. Pode? Deve poder, aqui pode tudo…


1 Belém da Saudade: a memória de Belém do início do século em cartões-postais. Belém: Secult, 1998.

2 Entrevista com Leno Freitas, presidente da Associação dos Trabalhadores Informais do Centro Histórico de Belém.


Fotos: Kleyton Silva

Ilustração: Marri Smith

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