Cena underground

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram

Do bairro da Cremação ao município de Santa Isabel, tem. Bandas, fãs e um circuito? Tem também. Você pode não conhecer, mas está tendo muito punk no circuito underground de Belém.

Belém fervilha música, disso não há dúvidas. Em todos os cantos da capital, diversos estilos marcam seu espaço. E o rock não fica de fora, apresentando nomes locais sendo consagrados no cenário musical nacional. Mas, muito além dos espaços tidos como “templos do rock paraense”, como o teatro Waldemar Henrique, na praça da República, uma gama de artistas batalha para garantir seu pedaço de palco, mesmo que fazendo shows em locais onde sequer há um. São bandas, músicos, produtores, colaboradores e amigos movimentando uma cena cultural sem muitos holofotes, mas completamente agitada em quase toda a Grande Belém. Um som rápido, com batida forte e letras agressivas, feitas por quem tem a força para se virar como pode para tocar. É a filosofia punk do faça-você-mesmo na mais pura essência. Arte em sua forma bruta.

 O termo “independente” no rock ganhou novos significados ao longo dos anos. Mais do que simplesmente bandas sem contrato com gravadoras, a palavra passou a ser usada para definir um estilo de rock com influência de pop britânico. A música indie, mais popularmente chamada, muitas vezes com andamentos mais leves. Nada mais longe do que o som independente feito em Belém. “É punk, hardcore, grindcore, deathgrind, trash, power violence… é música barulhenta mesmo. Som pra fazer roda, punkear”, afirma o comerciante Paulo Andrade, o Paulão, frequentador assíduo dos shows undergrounds de Belém. “A gente gosta de ‘patu patu patu’”, diz ele, imitando o som da bateria nas músicas rápidas.



Apesar da atividade, não tem nada de violência: o papo é deixar a música bater! Em evento realizado na Veg Casa, em junho deste ano, rolou um “patu, patu, patu”. (Foto: Rafael Monteiro)

Considerando a si mesmo um “observador velha-guarda”, Paulão afirma que acompanhou o movimento punk se popularizar em Belém desde a década de 1980, quando as primeiras bandas do estilo iniciavam sua carreira. “Naquela época, algumas bandas começaram a ter destaque, como o Delinquentes e Ácido Cítrico, mas tinha toda uma outra leva que tocava em tudo que é buraco”, conta Paulão. “Começou a movimentação da cena com bandas que queriam tocar e se viravam pra isso. Arcavam com as despesas, carregavam o equipamento pra shows em locais mais afastados. Mas tinha que ter o som.”

O passar do tempo, fim da Ditadura Civil-militar e a urbanização da cidade, intensificaram a produção de shows em Belém. 

O passar do tempo, fim da Ditadura Civil-militar e a urbanização da cidade, intensificaram a produção de shows em Belém. “Sempre tem opção. Todo fim de semana tem algum festival, ou tá rolando banda em algum bar de Icoaraci, na Cidade Velha, no Guajará. A cidade toda é cheia de show”, listou Paulão. E cada apresentação tem público garantido. Longe do estereótipo do punk inglês violento, de cabelo moicano verde, coturno e cheio de correntes presas ao corpo, no estilo Sid Vicious, da banda Sex Pistols, os frequentadores dos espaços possuem um visual diferente do que poderia imaginar quem está fora do movimento.



Alguns têm uma produção maior, outros são de menor porte. Todos têm público certo. Foi o caso do Festival Mongoloid, em setembro deste ano, em Belém. (Foto: Rafael Monteiro)

Preto é a cor predominante, mas é possível encontrar outras tonalidades nas roupas, muitas fazendo referência a alguma banda. Há alguns coturnos, mas também tênis e chinelos. Calças jeans, bermudas, algumas tatuagens e piercings. Outros, sem barba, pele lisa e nem ao menos uma orelha furada. São artistas, trabalhadores e donos de casa que se reúnem para assistir às apresentações. E participar das rodas, claro.

Com o som pesado tocando nos palcos, o público se reúne em uma grande roda na plateia, girando, se esbarrando, indo de encontro com o outro justamente na intenção de se chocar, tudo sentido pela pulsação da música. 

Com o som pesado tocando nos palcos, o público se reúne em uma grande roda na plateia, girando, se esbarrando, indo de encontro com o outro justamente na intenção de se chocar, tudo sentido pela pulsação da música. Uma expressão gutural do corpo, mas sem a violência que possa aparentar. “A roda não é agressão. Muita gente se bate ou bate em outro, mas é o que o som faz com a gente. Ninguém vai obrigado ou vai pra machucar. É coisa de sensação, é divertido. É como é”, completa Paulão.

 Mas não é só a batida que atrai o público. As letras das músicas também conquistam a atenção, abordando diversos assuntos. Muitas são visões politizadas sobre os problemas da cidade e do homem urbano, principalmente o morador de periferia, abordando questões sociais como insegurança, preconceito e má distribuição de renda. Outras apresentam uma visão agressiva sobre violência e chamada para uma revolução social. Há ainda aquelas com temas diversos, como ataques de zumbis e escatologia.

O CENÁRIO

Mas onde ocorrem esses shows? Basicamente, em quase qualquer lugar. “A gente sabe que não é um estilo musical comercial. Fora uma música ou outra, nada disso vai tocar nas rádios, e assim, não vamos ter portas abertas. Então a gente organiza show onde rola”, afirmou Gleidson Nunes, ex-baixista da banda Fúria Suicida, que atualmente organiza shows, principalmente no interior do Estado. “Camarada, tu tens o circuito maior, que já é difícil acontecer, conseguir um espaço e banda famosa. Aí as bandas menores têm que se virar. Já vi show em bar, praça, quadra, centro comunitário, sítio em Outeiro… Onde o dinheiro permitir, a gente vai tocando.”

Com uma cena consolidada, o circuito se completa não só com bandas de Belém. Na foto, a banda Surra trouxe um pouco do trashcore de Santos (SP) a Belém. (Foto: Rafael Monteiro)

O dinheiro, por sinal, é um ponto problemático para a realização dos eventos. Algumas ondas diz Gleidson, dão lucro. “Afinal, a gente está trabalhando um bocado nisso, nada mais justo. É comum também os shows se pagarem. O dinheiro vai todo pra pagar os equipamentos,  aluguel do espaço, transporte das bandas, essas coisas”, completa, citando também o contrário: outros eventos dão prejuízo, um dinheiro, que, muitas vezes, sai do bolso dos organizadores. Sem falar no estresse e no cansaço da produção.

Essa dificuldade em realizar os concertos é enfrentada por todos que tentam entrar nessa área. “Tem festival que já tem nome. O Icoaraci Attack é famosão. O Fora do Prumo o pessoal conhece, o Noise Underground… Mas aí tem outros ainda mais sem espaço, tipo um Grind Catita em Santa Bárbara”, afirma o produtor. “Aí é foda, tem que ser ingresso barato pra garantir público pra pagar a passagem da banda.”

 “Tem banda que aceita tocar só pra divulgar o trabalho, ajudar a fazer os shows, mas outras só ‘ganhando um’. Mas eu entendo os caras. É o trabalho deles. E tem banda maior que arrasta uma galera pra show”. 

Sobre o pagamento de cachê, Gleidson desconversa. “Tem banda que aceita tocar só pra divulgar o trabalho, ajudar a fazer os shows, mas outras só ‘ganhando um’. Mas eu entendo os caras. É o trabalho deles. E tem banda maior que arrasta uma galera pra show”. E levam mesmo. Alguns grupos, mesmo que longe das rádios, possuem seus fiéis fãs graças às apresentações e divulgação na internet. Bandas como Verminoses do Sistema, Restos de Parto, Mijo de Rato, Criaturas de Simbad, AntChorpus, Baixo Calão e Retaliatory já possuem nome consagrado no circuito underground Belém. Não conhece as bandas? Mas eles existem ― e arrastam pequenas multidões.

FAÇA VOCÊ MESMO

Mas, com tantas dificuldades e sem apoio na mídia convencional, de onde tirar forças pra continuar? A resposta está no movimento punk desde seu surgimento: faça você mesmo. “Cara, essa música é revolucionária, é um ato político. É a expressão total de um povo insatisfeito com o mundo em que vive. É o chamado pra mudar. Não tem expressão pra dizer o quanto do caralho é ver isso sendo feito quando tu arregaça as mangas”, diz o produtor.

Faça você mesmo: o espírito do punk rege a cena de Belém. Promova, toque, cante, assista! 
Faça você mesmo. (Foto: Rafael Monteiro)

Segundo Craigh O’Hara, autor do livro “A filosofia do Punk”, essa ideia pode ser resumida na noção de que, se ninguém vai fazer por você, então você deve assumir o trabalho. Esse conceito era estendido tanto aos ideais divulgados pelo movimento, quanto para a divulgação e organização de apresentações.

 “Todo mundo do meio entende isso e participa. Cria mesmo tudo, entende? O cara que se abala prum show domingo à noite em Icoaraci só pra ver as bandas; as bandas que pegam os cartazes e saem de madrugada colando em parada de ônibus e muro; o pessoal que se mata pra tocar. Todo mundo alimenta essa cena, que da trabalho, mas é viva”, resume Gleidson. “Isso é a vida de muita gente. Só quem sente e vive pode explicar. Quem não gosta e conhece, eu só acho uma pena”. É melhor conhecer!

Continue lendo...

Destaque

Nunc justo ante lacinia sit amet nulla ut

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Morbi venenatis scelerisque bibendum. Nunc justo ante, lacinia sit amet nulla ut, efficitur sagittis sapien. Suspendisse commodo