Canais de Belém

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Aqui, embaixo desse canal malcheiroso, jaz a fonte do que um dia foi a via da canoa. A passagem do natural ao artificial de uma cidade que transforma um igarapé em esgoto. 

Rapaz, tu não tá sentindo esse cheiro? É uma mistura de phebo com alguma coisa podre, não é? É o perfume daqui, parece que tem uma fábrica ali por trás. Aí junta com o esgoto, dá nisso. Nem parece, mas isso aqui era um igarapé, dos grandes, amigo. Aqui passava barco de bom porte, tudo nas margens era comércio, embarcavam e desembarcavam nessas docas. Terminou de falar, fez uma curva amarga com a boca e se apoiou no carro de mão. Meu pai é que conta. Diz ele que trabalhou aqui quando tinha muito serviço. Era o chamado igarapé das Almas. Era tudo assim: ali por trás, onde fica o outro canal, também tinha muito barco, mas isso faz tempo¹.

No bairro do Reduto, o que era o igarapé da Fábrica, tornou-se o canal da General Magalhães: parede de concreto, leito de esgoto. (Foto: Rafael Monteiro)

Eu lembro quando fizeram isso lá perto de casa,
naqueles igarapés do Una, do Jacaré e outro lá. Primeiro tiraram todo mundo da
área. Aí deram umas casas novas pro pessoal, lá naquele Paraíso dos Pássaros.
Depois limparam os igarapés, tiraram entulho e fizeram ele todo de alvenaria.
Pessoal do governo disse que era pra acabar com o alagamento, parece. E eu até
acho bom. Mas fica feio, não é? Todo cimentado, com essas vigas por cima. E
outra: antes passava barco por lá, e muito, agora nem canoa o pessoal coloca.
Mesmo assim, o negócio até prestou um tempo, mas depois tornou a alagar as
casas. Aí eu te pergunto: já gastaram um dinheirão com isso, custa cuidar?


Aí fizeram aquela desinteligência: resolveram aterrar o Piri. E haja gente carregando terra. Todo verão era essa reza, metendo terra no leito do rio. Imagina… Foi, foi que aterraram o bicho.


Sabe onde tem muito serviço? Lá no Tucunduba, perto
da universidade. Quando eu vou lá, que é longe, eu volto com o carro cheinho.
Lá, disque estão pra construir um canal também, mas até agora nada, e olha que
isso vem desde a Ana Júlia. Essa mesma obra que fizeram no Una estão esperando
lá no Tucunduba. Lá ainda é igarapé desses valendo mesmo, mas é bem ruinzinho.
Quando tá vazando, chega dá pra ver aquela água escura fedorenta dando no
Guamá. Nessas que eu vou lá pela Terra Firme, eu passo pela universidade, que
sempre tem entulho pra recolher também.

Tu bota fé que até lá na pedra do Ver-o-Peso era um
igarapé? Eu sempre pego material lá da universidade também, aproveito que já tô
no Tucunduba e faço um serviço só. Eu já até tinha escutado essa história. Vi
uns alunos de lá falando. Era o tal do igarapé do Piri. Devia ser o maior
igarapé de Belém, porque ia do Ver-o-Peso até lá pra bem dentro mesmo, e aí
virava um igapó. E por lá passava muita coisa com o pessoal que ia deixar e
mandar mercadoria de Belém.  Eu penso que devia ser que nem a Almirante
Barroso hoje. Ainda tinha pesca, disque dava esses peixe do mato, tipo jiju e
mani².








Teve até uma proposta direita pra esses igarapés de Belém. Um engenheiro alemão queria fazer tudo bonito, com barco passando. Precisa vir gente de fora pra fazer as coisas? Mas foi daqui, foi de lá e o governo não quis. Aí fizeram aquela desinteligência: resolveram aterrar o Piri. E haja gente carregando terra. Todo verão era essa reza, metendo terra no leito do rio³. Imagina… Foi, foi que aterraram o bicho. Se o pessoal quisesse fazer direito mesmo, podia dar uma dentro pelo menos lá no Tucunduba. Construía um negócio bonito, com espaço pra barco mesmo, né? Tu pode ver que Belém é toda cheia de igarapé, braço, igapó e tudo. Já é tempo pro pessoal ajeitar as coisas. Aí eu ia de barco recolher o entulho do pessoal. Não é bom?


Ilustração: Marri Smith

 Foto: Rafael Monteiro

1 ALMEIDA, Conceição Maria Rocha de. As águas e a
cidade de Belém do Pará: história, naturezas e cultura material no século XIX.
Tese de doutorado do Programa de Pós-graduação em História, Pontifícia
Universidade Católica, São Paulo, 2010.

2 BAENA, Antônio Ladislau Monteiro. Compêndio das
Eras da Província do Pará. Belém: Universidade Federal do Pará, 1969.

3 GUIMARÃES, Luiz Antonio Valente. As casas &
as coisas: um estudo sobre a vida material e domesticidade nas moradias de
Belém (1800-1850). Dissertação de mestrado do Programa de Pós-graduação em
História Social da Amazônia, Universidade Federal do Pará, Belém, 2006.

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