Ocupação Cultural no Ver-o-Peso

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A Feira do Açaí foi ocupada na tarde e noite de ontem
por pessoas fazendo cultura. É o enfrentamento do Doze do Doze ao estigma e à
inequidade social em Belém

Cair de
tarde no Mercado do Ver-o-Peso e aquele movimento costumeiro de fim de semana. Carrinhos
de mão levando de pupunha até capa, chip de celular e pen drive fazem a costura
entre as pessoas na parada de ônibus, que é em todo lugar: na calçada, no
meio-fio, onde der gente. A bike-som toca um “flash-mid back anos 80 e 90 só as
melhores” lado a lado com um culto evangélico ao ar livre, o apelo dos
feirantes na xepa e os gritos de guardas da Polícia Militar para afastar os
“moleques”. No Solar da Beira, o silêncio voltou a ser ordem, garantido por
cadeados, tapumes e pela mesma força policial.

Grupos de músicos foram uns entre os muitos participantes que ocuparam a Feira do Açaí

Uma centena
de metros mais à frente, entre a Praça do Relógio e o Forte do Presépio, uns sons,
cores e agitação semelhante a que ocupou o velho casarão do Solar, seis meses atrás, foi visto de novo nesse sábado (12/12). Era o Doze do Doze, movimento que
entrou na noite da Feira do Açaí, um dos maiores e mais antigos entrepostos
comerciais de Belém do Pará. Assim como o Solar da Beira antes e depois de ser
lacrado pela prefeitura, a feira carrega a pecha de lugar perigoso, violento,
“melhor evitar depois de horas”, ponto de encontro de “ladrões, vagabundos e
outros desviados”.

Estamos aqui como para contrapor esse discurso do medo e ocupar um espaço que é de todos nós, fazendo cultura para as pessoas

“Estamos
aqui como para contrapor esse discurso do medo e ocupar um espaço que é de
todos nós, fazendo cultura para as pessoas”, falou Francisco Sidou, um dos
organizadores do Doze do Doze. “Essa ocupação é um desdobramento do Solar das
Artes”. Ele se referia ao movimento que, entre maio e junho desse ano, fez
morada no alquebrado Solar da Beira, preenchendo o espaço com oficinas, aulas
públicas, performances, sarais, batalhas de MCs, rodas de conversa e de
capoeira, feira do livro, grafitagem, cinema e quantas mais atividades de
cultura. Foi um ato de resistência contra o abandono da administração pública
com o patrimônio e principalmente com a população marginalizada no Ver-o-Peso e
em toda a cidade. O Solar das Artes durou 24 dias dentro do casarão, até a
desocupação forçada, e depois se espalhou em vários projetos como o de ontem. “Continuaremos ocupando, residindo, resistindo,
re-existindo pelo direito à cidade”, diz uma das cartas-manifestos do grupo.




Doze do Doze projetou imagens sobre os bares da feira, no Ver-o-Peso 

O Doze do
Doze propôs abertamente a mesma ideia em espaço aberto, sobre o chão de pedra da
Feira do Açaí. Nos últimos momentos de luz do dia, o movimento já montava
banca. Varais com poesia eram erguidos em volta de um quiosque enquanto músicos
acertavam os instrumentos para uma jam
ao pôr-do-sol. Não tinha marcas e
anúncios de patrocinadores ou qualquer tipo de publicidade (tirando as kombis da
lotérica “Carimbó da Sorte”, atraídas pelo movimento), só a organização
coletiva e espontânea. Pouco a pouco, o local ficou cheio de outras variedades
de ofertas, além dos tradicionais frutos de açaí: pinturas, ilustrações,
artesanato, roupas e fanzines. Os frequentadores da Feira do Açaí foram se
inteirando, com olhares curiosos, do que estava acontecendo. Na fileira de
bares e lanchonetes ao largo da Feira, um grupo fazia a sagrada roda de samba e
pagode de todos os sábados. Convite feito, convite aceito e não demorou muito o
batuque estava no centro, todo mundo cantando e sambando juntos ao som de
“Insensato Destino”.





Com cultura, movimento questiona as barreiras físicas e simbólicas da cidade

Fotos: Rafael Monteiro

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