Agenda Oficial?

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram

Divulgada a programação
oficial da comemoração dos 400 anos da capital paraense, fica uma pergunta: quem são os
convidados para a festa da cidade? A periferia responde.    

Na manhã do dia 14 de outubro deste ano, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, a vice Karla Martins e os secretários municipais se concentraram no mercado do Ver-o-Peso, um dos maiores símbolos do município, durante o lançamento oficial da contagem regressiva para o aniversário de 400 anos da capital paraense, num evento com tons de festa e expectativa sobre a comemoração na cidade. Dias depois, a prefeitura divulgou o calendário oficial de eventos da celebração, com a programação institucional até o dia 29 de outubro. Aí, não precisa estar atento para reparar, uma rápida conferida na agenda já levanta o questionamento: afinal, o aniversário é de Belém ou dos cartões postais?

Segundo o Plano Diretor do Município de Belém, a capital paraense está dividida em oito Distritos Administrativos e 71 bairros. Para a programação oficial, entretanto, é dividida em bem menos. Ao longo dos 12 meses de eventos anunciados pela prefeitura, o circuito de eventos é restrito quase que rigorosamente aos mesmos cinco bairros, que por sua vez, são reduzidos a cinco pontos: Mercado do Ver-o-Peso, no Comércio; Hangar, no bairro do Marco; Centur, no bairro de Nazaré; Palácio Antônio Lemos, sede da prefeitura, na Cidade Velha; e Portal da Amazônia, no Jurunas.
“Existe toda uma gama de projetos sociais, grupos de carimbó, artesanato, dança, música, coral… todo tipo de arte que nasceu na cidade, mas vai ficar de fora do aniversário. A comemoração é só no centro mesmo, pro público restrito de sempre”.
Há eventos programados para outras partes da cidade, claro. A orla do Distrito de Icoaraci deverá receber algumas celebrações. A Praia do Farol, em Mosqueiro, também. Mas, a participação ínfima desses espaços, e ausência completa das dezenas de bairros na lembrança da organização da festa, falam mais alto. Em uma cidade com quase 1,5 milhão de habitantes, é de se esperar que a maioria não se sinta contemplado pela agenda.

“Não me surpreende. A prefeitura de Belém ainda acredita na visão clássica da cidade construída para a elite, da Belle Époque, que desconsidera toda a periferia que forma essa cidade. Não só essa prefeitura, mas toda a construção de Belém foi feita excluindo esses bairros e os ribeirinhos”, afirmou Francisco Batista, morador da Terra Firme que integra o movimento “Belém 400 anos sob o olhar do gueto”, movimentação política e cultural que visa discutir e apresentar a cultura da cidade do ponto de vista da periferia.




Francisco Batista: “Não só essa prefeitura, mas toda a construção de Belém  foi feita excluindo esses bairros e os ribeirinhos”

“A gente já sabia que não ia ser contemplado. A prefeitura sempre deu as costas pra essa parte da população, por isso nós nos mobilizamos. Dentro desse ano já realizamos algumas ações no bairro da Cabanagem, Terra Firme e outros bairros. Vamos continuar realizando eventos, e no dia 11 de janeiro, uma grande caminhada pela cidade para mostrar que a periferia existe”, continuou Francisco.
O sentimento de exclusão é compartilhado pelo professor Marco Oliveira, que mora e trabalha no bairro do Benguí. “A gente vê aquelas grandes feiras no parque do Entroncamento, e alguns eventos na Orla de Icoaraci. Em todo o longo perímetro entre um ponto e outro, a cidade é esquecida”, afirmou. “Existe toda uma gama de projetos sociais, grupos de carimbó, artesanato, dança, música, coral… todo tipo de arte que nasceu na cidade, mas vai ficar de fora do aniversário. A comemoração é só no centro mesmo, pro público restrito de sempre”.
Não só os bairros mais afastados do centro foram esquecidos na programação. Além da porção continental, Belém é formada por 39 ilhas, que correspondem a 65% de todo o território do município. Mesmo assim, apenas Mosqueiro, Outeiro e Cotijuba figuram na agenda da festividade. Para as outras 36, restou um “passeio fluvial envolvendo a população das ilhas, as embarcações tradicionais do Ver-o-Peso, Marinha do Brasil, barcos privados e soluções de mobilidade fluvial em homenagem aos nossos rios e sua importância nos 400 anos de história de Belém”, conforme consta na programação oficial.




O Movimento Gueto 400 pretende marcar a data dos 400 anos de Belém pautando as demandas e manifestações culturais das periferias da cidade.

“Existe toda uma população ribeirinha que sempre foi esquecida. Se o rio é tão importante para Belém, por que a cidade deu as costas a ele? Por que os ribeirinhos são ignorados?”, questiona Francisco. “O Gueto 400 vai elaborar uma carta para o povo de Belém, mostrando nossa agenda de reivindicações, nossa visão de apropriação da cidade, para mostrar que a periferia existe”, completa. “A prefeitura quer é fazer festa pra elite, as suas ações são todas só pra isso”.


71 bairros. 39 ilhas. Quase todos deixados de fora da programação do município, mas produzindo sua própria cultura e realizando os seus eventos para o quarto centenário. O que é a programação oficial, então? A festa que quer levar uma população para os mesmos cinco locais diferentes, ou uma cidade que se mobiliza para pulsar cultura de canto a canto? Quem faz Belém é o povo, e o que vem do povo é legítimo. O resto é só institucional.


Foto: Kleyton Silva
Ilustração: extraída da Fanpage Gueto 400

Continue lendo...

Guajajara

Sônia Guajajara foi recebida com um canto de saudação na sala da Associação dos Povos Indígenas Estudantes na Universidade Federal do Pará (APYEUFPA), na última