Museus sem visitantes

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Dois dos maiores museus de Belém seguem sem visitantes. O que deveria ser veículo de educação sobre a história e as artes da cidade virou um enfeite na paisagem da praça dom Pedro II. 

Passando um pouco o Ver-o-Peso, na avenida 16 de Novembro, avista-se o prédio azul da Prefeitura de Belém, o Palácio Antônio Lemos, que leva este nome em homenagem ao Antônio José de Lemos, intendente municipal da capital nos anos de 1897 e 1900[1]. Ali, desde 1991, também funciona o Museu de Arte de Belém (MABE), antigo Museu da Cidade de Belém. O acervo é composto por obras europeias e brasileiras, que retratam, em sua maioria, a Belle Époque. Ao seu lado, está o Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP), antigo palácio dos governadores, construído ainda no século XVIII com a assinatura do bolonhês Antonio Landi. O prédio conta capítulos importantes da história da Amazônia, desde o período pombalino à Cabanagem e à República. Imponentes, os palácios Antônio Lemos e Lauro Sodré compõem a paisagem de Belém em frente à praça Dom Pedro II. São importantes veículos de difusão da história da cidade e do Estado, mas chamam ainda mais atenção por outro motivo: não há visitantes. No MHEP, por exemplo, há dias que nem mesmo uma pessoa vai ao local.

No Museu Histórico do Estado do Pará mais parece uma casa abandonada. Uma casa cara, com custos, mas sem moradores ou visitantes. (Foto: Rafael Monteiro)

Belém é a segunda cidade da Amazônia com mais museus. São 26 instituições museológicas, perdendo apenas para Manaus (AM), com 28. Nacionalmente, porém, a relação é outra: das capitais, Belém ocupa a 14ª posição. Já o Estado do Pará ocupa a primeira posição entre os nortistas, com 42 museus, seguido pelo Amazonas, com 41. O Estado do Brasil com menor quantidade é Roraima, com apenas seis. Ainda assim, a realidade amazônica está bem abaixo das demais regiões brasileiras. São 146 museus em toda a região, média de 20,8 por Estado. O Nordeste tem 632 museus, média de 70,2 por Estado. Aí vem o Centro-Oeste (218 museus), Sudeste (1.151) e Sul (878). Os dados foram obtidos a partir de mapeamento feito pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Na contagem de museus por habitante, o Pará tem a segunda pior média, com 168.228 habitantes para cada museu, tendo à frente apenas o Maranhão, com 266.043. “Nas regiões Norte e Centro-Oeste, estão localizados, respectivamente, 4,8% e 7,2% dos museus brasileiros”, informa o relatório. Mas essas disparidades não ocorrem apenas entre os estados da região Norte. Ainda segundo o relatório do Ibram, “constata-se que a presença de museus ocorre de forma desigual nas regiões brasileiras. O Sudeste e o Sul do País são as regiões com o maior número de unidades museológicas, concentrando cerca de 67% dos museus brasileiros. Os Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro aparecem, nessa ordem, como os que apresentam a quantidade mais elevada de museus”, conclui a pesquisa.

No Mabe, são tão poucos os visitantes que servidores do museu passam o dia sem atividades. (Foto: Rafael Monteiro)
No MABE, a visita é realizada com os pés no chão, totalmente descalços. Essa medida é uma forma de preservar o acervo do Museu. Com uma guia orientando a visita, de pés descalços, sentido-se deslizar pelo chão liso e amadeirado do Museu, vai-se conhecendo, sentido e respirando a história do Pará. Construindo memórias de algo que não se viveu, mas que faz parte das histórias ali guardadas. A média de visitantes, porém, é de apenas 15 pessoas por dia, a maior parte composta por turistas que vai à sede da prefeitura resolver questões administrativas, e apenas um quarto disso – quatro pessoas – é de moradores locais, além das visitas de grupos escolares.

Segundo informações da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), no mês de novembro, a média de visitantes foi de 997, divididos em público escolar e turistas. Dentre os serviços educacionais oferecidos está a oferta de “palestras de Educação Patrimonial com escolas municipais e estaduais”, que é ofereciso no próprio MABE e também nas escolas que compõem o banco de dados do Museu. A divulgação das exposições “sempre é feita pela Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Belém e na página do Facebook, convidando a sociedade à visitação”.

Segundo funcionários do Museu, a média de visitações é de apenas 20 pessoas por mês. Há dias em que nenhuma pessoa entra no Museu. 

O Palácio Lauro Sodré foi construído no Século XVIII. É aquele prédio branco e alto, que vive rodeado de guardas e que, ainda hoje, muitas pessoas acham que funciona a sede do governo estadual, localizado ao lado da Prefeitura de Belém. É lá que, desde 1983, funciona o Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP). Memórias e lembranças de momentos importantes na história paraense estão guardadas ali. Foi nesse prédio, por exemplo, que, após a ocupação pelo levante cabano, foi morto o então presidente da província em 1835, Lobo de Souza.
No MHEP também impera a ausência visitantes. Segundo funcionários do Museu, a média de visitações é de apenas 20 pessoas por mês. Há dias em que nenhuma pessoa entra no Museu. Em uma visita realizada pela reportagem do portal Outros400, na sexta-feira do Círio deste ano, momento em que se aumenta o fluxo de turistas na cidade, somente esta visita foi realizada. A presença do público é tão rara que, quando se chega ao local, os funcionários do Museu aparentam surpresa. 



Em ambos os museus a cena se repete: corredores suntuosos e vazios. A população praticamente desconhece a utilidade dos prédios. (Foto: Rafael Monteiro)

Além da ausência de visitantes, o prédio também está se deteriorando. Um dos salões nobres do Museu, o Salão Pompeano, está fechado há mais de cinco anos para reforma, com vigas escoradas do teto ao chão, por todo o ambiente. Segundo os funcionários do Museu, foi preciso fechar porque o teto daquele salão, um dos mais bonitos do prédio, está sob risco de desabamento e, ainda hoje, não se tem previsão para reforma. E esse problema é uma “responsabilidade do Poder público Estadual e do Sistema Integrado de Museus”, que são responsáveis por zelar pelo patrimônio público e pelo museu.

QUALIFICAÇÃO

Para a professora do Curso de Museologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) e membro do Conselho Internacional de Museus (ICOM), Idanise Hamoy, a falta de investimentos no setor cultural em Belém não é o único fator responsável pela deficiência de público nos museus. Ela pondera que o problema também é causado pela “falta de compromisso e da falta de qualificação específica das pessoas que trabalham nesses espaços, porque quando você tem vontade de desenvolver um projeto, há possibilidades de fazer e os projetos educativos em museus, geralmente, têm um custo muito baixo, porque eles dependem muito mais da presença das pessoas, do público externo”.
 
E quando se fala em qualificação, está se falando num profissional que crie soluções para tornar museus instituições mais próximos da população. “Os museólogos não estão inseridos nos quadros nem do Estado, nem do município. As pessoas que trabalham ali, hoje, são profissionais que foram criados na prática, que desconhecem a própria teoria museológica”, diz Idanise Hamoy. “E é aí que há a dissociação entre a teoria e a prática, que não pode ocorrer quando se pensa museus.”


“Os problemas são muitos, mas não são problemas insolúveis, apenas precisam ser pensados e reavaliados”, afirma a professora Idanise. 
O Sistema Integrado de Museus e Memórias (SIMM) foi implantado na cidade de Belém em 1999 e integra a Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult). O SIMM é responsável por gerenciar os Museus ligados à Secult. São eles: Museu de Arte Sacra, Museu do Círio, Museu da Imagem e do Som, Museu Casa das Onze Janelas, Museu do Forte do Presépio, Museu Histórico do Estado do Pará, Memorial do Porto, Museu de Gemas, Memorial Amazônico da Navegação e Corveta-Museu Solimões. Para todo esse sistema, há apenas seis coordenadorias para o gerenciamento. 
“O que acontece com a estrutura do Sistema Integrado de Museus, hoje, é que ele tem uma direção geral e seis coordenações, e dentro de cada coordenação você tem uma única pessoa para cuidar de todos os museus da Secretaria de Cultura, isso é humanamente impossível de ser realizado”, dispara a professora de Museologia. Para ela, uma solução, para começar, é o investimento e a reorganização administrativa do sistema. “Os problemas são muitos, mas não são problemas insolúveis, apenas precisam ser pensados e reavaliados”, afirma Idanise. “A partir disso, podemos ter museus muito mais preparados para receber o público, com profissionais qualificados e melhor atendimento.”

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