Praça Dom Alberto Ramos

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Sétimo arcebispo de Belém, Dom Alberto Ramos foi um entusiasta do golpe de 1964 e entregou padres de sua diocese aos militares. Ele também é o nome de uma praça no bairro da Marambaia

Pessoal por aí diz que é mentira minha, mas eu acompanhei tudo o que teve naquela confusão da casa do governador. Moleque? Molecote. Eu fazia esses mandatos de casa, sabe? Vai ali, corre lá, compra o negócio, leva isso e aquilo pro fulano. Eu sempre gostei de lá, mas, nos dias em que o governador adoeceu de verdade, aquela casa metia medo!
 
Ali era pelos idos de 1959, salvo engano. Tava todo aquele disse-me-disse de que o governador estava doente, que era sério, que ele não voltava mais. Aí passou uma temporada no Rio, depois voltou. Voltou e ficou de cama. Aí levou um tempo até que não falava mais coisa com coisa. Eu sabia quem mandava na casa. E quem mandava era a Dalila, esposa do governador. Muita gente não gostava dela porque era a segunda esposa. E tinha esse negócio da igreja de não pode isso, não pode aquilo. Aí quando o governador saiu de si, praticamente escorraçaram ela da casa.
 
Um desses foi o bispo naquela época, o Dom Alberto Ramos. Eu não gostava do sujeito, mas eu era bem moleque. Sempre andava meio puto, dizia bom dia por dizer, sabe? E ele foi lá na casa pra dar a extrema unção do governador. Como o homem não podia mandar mais em nada, o bispo achou de assumir o lugar. Mandou comunicar à Dalila que ela tinha de sair da casa porque não se poderia ministrar um sacramento na presença dela, que era pecadora por ter se casado com um homem que já era casado. Mandou a dona da casa pra rua.

 
Mas como fazia se não tinha separação naquele tempo? E pra igreja tinha esse negócio, hoje já nem tanto, que casamento é só um. Foi aquele bafafá. A Dalila disse que não ia arredar o pé. E ela era assim mesmo. Não se intimidou. Ainda tinha a primeira família do homem querendo fazer confusão, dizendo que ia abrir a boca na imprensa se a Dalila não saísse da casa. Pra falar o quê é que eu não sei. Mas foi até que conseguiram tirar ela da casa por um tempo¹.
 
O bispo era homem conhecido. Escrevia em jornal, tinha programa de rádio, escrevia livro². Enfim, tu sabes como é aqui, pessoal puxa um saco desses bispos, aí eles se acham donos da igreja. Se tinha inauguração de órgão público? Chama o tal do bispo pra abençoar. Lançamento de alguma empresa? Diz pro bispo vir benzer. Casamento de gente importante ele celebrava. Ficava à frente daquela pompa toda no Círio, né? E por aí ia.

Em 64, quando teve toda aquela história do golpe, o bispo foi um dos que falavam em revolução. Ele dizia que Deus abençoava aquele dia, que era um dia de libertação, que era uma revolução pra livrar o Brasil de uma revolução. Entende? Nem eu. 
 
Já em 64, quando teve toda aquela história do golpe, ele foi um dos que falavam em revolução. Foi golpe, né? Claro que foi golpe. Exatamente no dia depois, esse bispo foi pra televisão, rádio, o caralho a quatro. Ele dizia que Deus abençoava aquele dia, que era um dia de libertação, que era uma revolução pra livrar o Brasil de uma revolução. Entende? Nem eu. Que os militares eram democráticos, que ditadores mesmo eram os soviéticos. E que Nossa Senhora e não-sei-mais-quem abençoava a revolução³. A militar, não a soviética.
 
Tem até uma história desse bispo. Diz que, quando teve o golpe, ele fez foi uma lista dos padres daqui de Belém metidos a comuna. Como é que pode um homem desses que em nome de Deus dia e noite fazer isso com os próprios padres da diocese? Eu é que não me troco por esse pessoal. Não dizem que a pessoa, quando morre, vira santo? Que quando morre fica bom? O tal do bispo virou até nome de praça na Marambaia. Mas eu lembro de tudo e de tudo eu vou contar. Esse bispo aí só fica bom quando eu ficar bom também!

 Dom Alberto Ramos virou nome de praça no bairro da Marambaia, em Belém

1 OHANA, Dalila Nogueira. Eu e as últimas 72 horas de Magalhães Barata. Edição da autora, 1960.
2 RAMOS, José Pereira. Dom Alberto Ramos: o pastor da Amazônia. Belém: Fundação Cultural Presidente Tancredo Neves, Governo do Estado do Pará, 2006.
3 COIMBRA, Oswaldo. Dom Alberto Ramos Mandou Prender seus Padres: A Denúncia de Frei Betto Contra o Arcebispo do Pará, 1964. Belém: Paka-Tatu, 2003.

Ilustração: Marri Smith

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