Refúgio dos Anjos

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Populações da periferia e LGBT são grupos tradicionalmente excluídos. Porém, a união desses dois espaços num bar do Guamá oferece um refúgio à quem precisa.

“Sem sombra de dúvidas, ser LGBT na periferia nunca é um mar de flores”. Não precisa ser homossexual, transgênero ou mesmo morador da periferia para perceber a verdade na frase do doutorando em antropologia Ramon Reis. Essa parcela da população é alvo de violência, críticas e condenações em todo o espaço urbano, e nas áreas periféricas, isso não é diferente. Mas nesta mesma região, tradicionalmente hostil, há um ponto de segurança. Literalmente, um refúgio. O “Refúgio dos Anjos”, conhecido como “Bar da Ângela”, o mais antigo bar LGBT de Belém em funcionamento, no bairro do Guamá, se mantém como um local de diversão, acolhimento, sociabilidade e, como os frequentadores gostam de dizer, resistência.

Há 19 anos funcionando, o Refúgio dos Anjos se

 tornou um 

espaço de lazer, sociabilidade e resistência LGBT

Funcionando aos sábados e domingos, o bar existe desde 1996. Na época, ainda um pequeno empreendimento no quintal de casa, com um bingo para angariar fundos para um tratamento médico, antes de se tornar uma das mais tradicionais casas LGBT da cidade. Vou conferir. Desço do ônibus na rua Barão de Igarapé Miri, em frente à praça Benedito Nunes, e procuro o bar. Não encontro. “Boa, noite, tudo bem?”, pergunto ao vendedor de lanche. “Boa noite”, responde atencioso. “Amigo, sabes me dizer onde fica o bar da Ângela?”. Ele me olha dos pés a cabeça, encara as argolas em minhas orelhas, vira o rosto e responde em um tom levemente agressivo, após dois segundos de silêncio. “É pra lá”. Sigo na direção e encontro a discreta entrada do bar. Uma parede branca, uma porta de metal e a palavra “Refúgio”. Lá dentro, percebo o porque da fama do local.

As luzes coloridas, olhares leves, pessoas dançando e bebendo em mesas. Alguns gays, “bicha mesmo”, como se definem, mais atirados na pista. Nas laterais, grupos de diferentes sexos e de lésbicas. Majoritariamente negros. “Aqui é ótimo. Muito bem frequentado, é livre, nos sentimos bem. Venho de Canudos pra cá porque é a melhor opção pros gays”, afirma Roni Macedo, cliente da casa. E a vizinhança? “Acho que como o bar está aqui há tempos, os vizinhos não encrencam muito. Geralmente o pessoal aceita. Muito mais aqui do que perto da minha casa. Aqui é um refúgio mesmo”.

As luzes coloridas, olhares leves, pessoas dançando e bebendo em mesas. Alguns gays, “bicha mesmo”, como se definem, mais atirados na pista. Nas laterais, grupos de diferentes sexos e de lésbicas. Majoritariamente negros.

De fato, o público do local, o tempo de existência do bar e a simpatia das proprietárias da casa indicam que há um diferencial no ambiente. “O bar da Ângela tem um ambiente familiar, mesmo. A relação não fica apenas no proprietário/cliente, só no dinheiro. Mas são amigos, tem uma relação a mais. O bar da Ângela é uma bagaceira”, continua Ramon, que faz um estudo de caso do bar em sua tese de doutorado na USP, que trata da questão da sociabilidade em bares e boates LGBT nas periferias de Belém e São Paulo.












O espaço é frequentado pela população LGBT de diferentes bairros. Todos afirmam que se sentem em casa no bar.

“Não se pode tratar a periferia como um espaço homogêneo, principalmente entre cidades tão diferentes. Mas, tradicionalmente, você tem um espaço extremamente conservador, que reproduz determinadas identidades, o que dificulta ao LGBT ter respeito e reconhecimento”, afirma. E a história do bar comprova isso. Apesar da aceitação entre os moradores do entorno, o estabelecimento sofreu com diversas batidas policiais, principalmente nos primeiros anos de existência, feitas por agentes que associavam público LGBT à exploração sexual de menores.

Apesar da aceitação entre os moradores do entorno, o estabelecimento sofreu com diversas batidas policiais, principalmente nos primeiros anos de existência, feitas por agentes que associavam público LGBT à exploração sexual de menores.

Entretanto, mesmo com repressão, o bar acabou se estabilizando na cultura de Belém. “Eu entendo o Refúgio como bar, e não boate, justamente por essa relação mais pessoal que envolve o espaço. Há outras casas LGBT em Belém, mas, além de mais novas, não possuem esse clima familiar que na ‘Ângela’ existe. Há esse diferencial”, continua. 

“O bar tem muito o clima de casa, mesmo. As donas do bar são como família pra gente, porque a gente vê que elas também resistem ao preconceito. Aquele bar é um grito na cara da sociedade”, completa Macedo. “Abraça e se joga, mano”.

Fotos: acervo pessoal

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