Capela de São João Batista

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Atualmente funciona só como capela, mas já foi utilizada como prisão para o próprio padre do local, por ter se posicionado contra a escravização indígena.

O senhor tá passando aí pro Fórum, não é? Não tem jeito, a gente para aí na frente e fica olhando… Não é grande, mas bonita é. Pessoal passa aqui assim, todo empacotado, molhado de suor e nem tem tempo de reparar na bicha. Isso é velha, amigo. Aí dentro, tem muito altar, muita parede, muita coluna. E é de São João, santo famoso, festa junina, São João Batista. Pessoal até faz uma fogueira aí e solta umas pistolas em junho, mas já pensou num arraial mesmo de verdade?

Ah, e já foi prisão também. É! Tem uma placa lá dentro que diz que o tal do padre Antonio Vieira ficou preso. Um professor de História passou domingo desses aqui com uma turma. Ele ia dizendo no microfone tudo quanto já se passou nessa igreja. Aí ele contou essa história de não sei quantos séculos atrás. O tal padre era estudioso, falava não sei quantas línguas, era embaixador, amigo de rei e coisa e tal.¹


Só que ele não queria mais que escravizasse índio. Já o outro pessoal de Portugal que vinha pra fazer dinheiro, claro, queria que os índios servissem de besta pra eles. E ficou nessa briga. Até que o padre perdeu e foi preso, mas ficou nessa igreja. Porque eu acho que até brabeza tanta assim tem limite, então ficaram com medo de Deus castigar e deixaram o padre na igreja. Assim eu penso.

Já o outro pessoal de Portugal que vinha pra fazer dinheiro, claro, queria que os índios servissem de besta pra eles. E ficou nessa briga. Até que o padre perdeu e foi preso.

Na verdade não era essa igreja. Era e não era. Essa igreja foi erguida em 1648. Exatamente. Como eu sei? Olha a placa aí, doutor. Mas era uma igreja de madeira, fraca mesmo, daquela taipa e de palha por cima. Então, logo se esfarelou. Aí, só um tempão depois é que foram construir essa aí, toda bonitinha. Foi o Landi que fez. Quando teve a obra da Sé, ali do lado, muito tempo antes, essa igrejinha chegou a ser a Sé de Belém.²




É a mesma igreja, mas não é: a primeira construção, de madeira e palha, não resistiu ao tempo e ruiu.

Bonita? Claro que é. Mas dá uma olhada nas redondezas. Isso aqui o pessoal chamava de Largo de São João. Mas pode chamar de estacionamento de São João agora. Imagina uma rua estreita dessa aí cheia de carro? Eu fico aqui todo dia, na minha banquinha. Bem cedinho, umas 7h, isso aqui é muito bonito. Ou até dia de domingo. Não tem carro nenhum. É muita história pra uma capelinha dessas, não é? Já vi missa aí. Os padres não contam nada disso. Mais antes ter um professor que um padre aí.

1 AZEVEDO, J. Lúcio de. História de António Vieira. 2. ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1931.
2 COIMBRA, Oswaldo. Engenharia militar européia na Amazônia do século XVIII: as três décadas de Landi no Gram-Pará (uma pesquisa jornalística). Belém: Prefeitura Municipal de Belém, 2003.

Ilustração: Marri Smith

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