Tambor da Paz

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Nem toda religião é abraçada pelos órgãos oficias na celebração de fim de ano. Mesmo assim, o Tambor da Paz busca mostrar que a umbanda existe e que preconceito não deve mais ter vez. 
Fim do ano e começo de noite em um dos postos da orla fluvial de Belém, o Portal da Amazônia. Pessoas trajadas de branco, aos milhares, em festa com música, orações e dança. Uma cena prosaica de Réveillon que já não surpreende ou assusta ninguém. Ou pelo menos não deveria. Infelizmente, não é o que ocorrem com o Tambor da Paz. Na segunda edição do evento, ocorrida exatamente há um ano, a celebração foi interrompida por membros da Guarda Municipal.


“Eles fizeram pressão pra gente terminar, disseram que nosso tempo tinha acabado, sendo que o Tambor estava no horário. Foi um desrespeito muito grande”, conta Pai Reginaldo Lopes, um dos organizadores do Tambor da Paz, encontro tradicional de terreiros de umbanda na capital, que encerra as atividades do calendário.



Para Pai Reginaldo, a discriminação contra umbandistas ainda é grande nos órgãos públicos, principalmente comparado com outras religiões.

Com esse nome, o tambor caminha para o terceiro ano consecutivo, mas a prática é mais antiga, de 1976. Originalmente, o cortejo festivo era no dia 31 de dezembro e se dava na Escadinha do Cais do Porto, perto do Mercado do Ver-O-Peso. Pai Reginaldo, na época um iniciante da umbanda, relembra esses tempos. “Era o encontro dos umbandistas com os Povos das Águas. Nós fazíamos oferendas, agradecíamos do ano velho e pedíamos bênçãos para o ano que ia chegar”.


Na virada do milênio, quase todo o Velho Cais deu lugar à Estação das Docas, ponto turístico da cidade, e o local do encontro religioso ficou menor, sem que com isso o número de frequentadores diminuísse. Na verdade, foi o contrário. “Chegamos a ter mais de 1500 pessoas, entre praticantes da umbanda e pessoas de fora, reunidas em um só local”, afirma pai Reginaldo. 

“Nós vamos aos órgãos públicos atrás de licenças e apoio para realizar o Tambor e o tratamento recebido é muito desigual comparado a outros líderes religiosos, como um padre ou um pastor. Isso nos deixa muito tristes”.

Em 2012, com a inauguração do Portal da Amazônia, espaço revitalizado à beira do Rio Guamá, o encontro ganhou casa nova, já com o nome de Tambor da Paz. “Para todos os anos, nosso principal pedido é de paz, de coisas boas e luz”, explica.  A data mudou para 30 de dezembro porque, segundo o Pai de Santo, na véspera de ano, a maioria dos membros tem compromissos com suas famílias espirituais e de sangue. Muita coisa mudou, mas, para ele, o que permanece intacto é o descaso da prefeitura com as culturas afro-religiosas.


“A discriminação ainda é muito cruel contra o afro, contra o umbandista”, aponta Pai Reginaldo. “Nós vamos aos órgãos públicos atrás de licenças e apoio para realizar o Tambor e o tratamento recebido é muito desigual comparado a outros  líderes religiosos, como um padre ou um pastor. Isso nos deixa muito tristes”.



O Tambor da Paz é “a gente que faz”, seja umbandista, budista, católico, espírita ou ateu. Basta ter respeito e abandonar o preconceito.

Além da permissão do uso do Portal da Amazônia para a comemoração, nesse ano o Tambor da Paz não vai contar com nenhum suporte da administração municipal. Enquanto isso, em uma orla amazônica não muito longe de Belém, a prefeitura de Manaus anunciou um espaço exclusivo na Praia da Ponta Negra (principal local da programação oficial de Réveillon da cidade) para manifestações e celebrações culturais e religiosas de matriz africana, entre os dias 29 de dezembro e 1º de janeiro.  De acordo com a prefeitura manauara, a área destinada tem 20 tendas para terreiros, barracas de comidas tradicionais, estrutura para o Corpo de Bombeiros, Policia Militar e Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).


Na noite desta quarta-feira, o Tambor da Paz sai às ruas mais uma vez. Pai Reginaldo diz que o que mantém o encontro vivo nessas quase quatro décadas é a união entre os participantes (em 2015 estima-se um público de 4 mil pessoas), que são não só da umbanda, mas de outras religiões de matriz africana e até gente que não carrega crença espiritual alguma. “O Tambor da Paz é do umbandista, do católico, do espírita, do budista, do ateu. Toda a gente que faz”. Como em todos os anos, os participantes não precisaram pagar nada. Apenas se espera que ouçam a recomendação de vestir branco ou azul e se despir de todo preconceito.

Fotos: Rafael Monteiro

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