Belém 350 Anos

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Às vésperas de seu 350º aniversário, Belém foi exaltada por Líbero Luxardo como uma grandiosa e promissora pérola na Amazônia. Mas, o que de fato era real? O que aquele filme mostrava? O que não ocorre novamente, 50 anos depois?

Como em todos os anos, a chegada do Réveillon anuncia que o aniversário de Belém está cada vez mais perto. A diferença deste ano é que o próximo 12 de janeiro não será uma comemoração qualquer. A capital paraense vai celebrar uma data diferenciada, quando a cidade completa uma idade especial. Um número redondo, coisa que não pode passar em branco. Para engrandecer o fato, órgãos públicos, empresários e outras personalidades produzem propagandas e outros materiais para enaltecer o município, dissertando sobre a riqueza da economia, qualidade de vida e felicidade da população. Obviamente, tudo focado nos bairros centrais, excluindo o sentimento de abandono e descaso encontrado nas áreas periféricas. Para esta grande parcela da população, resta ver o filme sobre a cidade e não se reconhecer em nenhuma cena.

Essas linhas acima poderiam muito bem ser entendidas como uma descrição dos últimos momentos de 2015, mas, na verdade, são um relato do passado. Isso tudo ocorreu em 1965, às vésperas dos 350 anos de Belém. Entretanto, a similaridade dos cenários não pode ser notada sem levantar o questionamento: afinal, nos últimos 50 anos, o que, de fato, mudou?

BELÉM 350 ANOS



“Belém, do Pará” (1966), cine-jornal filmado por Líbero Luxardo, mostra uma Belém sob a égide do progresso e da modernidade

Apesar de natural do Estado de São Paulo, Líbero Luxardo encontrou no Pará a sua menina dos olhos. A partir do começo da década de 40 do século passado, o cineasta se tornou responsável por uma série de produções no Estado, incluindo os primeiros longa-metragens feitos aqui, se tornando o principal nome da história cinematográfica desta terra. Muito disso se deu ao relacionamento com Magalhães Barata, governador do Pará na época, para quem Líbero produziu alguns documentários e cine-jornais, muitos com teor político.

Tempos depois, em 1966, o tente coronel Alacid Nunes, que havia passado cerca de um ano como prefeito de Belém, nomeado por Jarbas Passarinho no começo do período da ditadura civil-militar, assumia o governo do Estado. Neste ano, Líbero publicou um cine-jornal com cerca de 10 minutos de duração, chamado “Belém do Pará”, para comemorar o aniversário de 350 da capital paraense.

O filme causa certa estranheza para os olhos atuais. Provavelmente, deveria provocar o mesmo sentimento a maior parte da população da época, ao vislumbrar as imagens de uma Belém centrada em médicos, empresários, catolicismo, pontos turísticos e pessoas brancas de classe média.

“É complicado dizer que toda produção feita durante o período da Ditadura é tendenciosa, má ou com algum aspecto negativo. Nada é absoluto. Mas este filme, claramente, pode ser entendido como uma pura propaganda da ideia que os militares queriam vender em todo o país”, afirma o historiador Victor Gusmão. “Claro que pode haver uma paixão do autor pela cidade, não nego. Mas diversos elementos, como a ideia de crescimento econômico, progresso, parceria entre indústria e trabalhador e mesmo a imagem do governador como uma pessoa do povo eram a ideia básica vendida durante todo o regime”.

O filme, bem verdade, causa certa estranheza para os olhos atuais. Provavelmente, deveria provocar o mesmo sentimento a maior parte da população da época, ao vislumbrar as imagens de uma Belém centrada em médicos, empresários, catolicismo, pontos turísticos e pessoas brancas de classe média.

Filme exalta a cidade turística dos cartões-postais

“Quem vem aqui uma vez verá tanta beleza,/ que a própria natureza enaltece o que fez” afirma a letra de “Exaltação a Belém”, música de José Macedo que abre a filmagem, antes da voz do narrador entrar com os dizeres “A cidade de Belém, capital do estado do Pará, bela e progressista, comemora a passagem dos seus 350 anos”.

“Essa primeira frase resume muito do filme. A exaltação exacerbada do ufanismo, a imagem de cidade bela, e, principalmente o progresso. Pode reparar que ‘progresso’ e ‘progressista’ são termos que aparecem direto no filme. Eles passavam a ideia de crescimento, dos benefícios da elite social, dos ‘jovens pioneiros’ empresários que apoiavam o regime. Claramente, é uma imagem irreal da cidade, mas é o que quem estava por cima queria ver, e, principalmente, o que eles queriam que fosse visto”, continuou Victor

As imagens seguintes complementam a visão do historiador. Passagens sobre formatura de uma turma da faculdade de medicina da Uepa, comentários sobre a criação de ‘casas de crédito’, o crescimento urbano representado pelos arranha-céus, o passeio de jovens brancos em um clube, lembranças saudosistas do período colonial e imagens do Círio de Nazaré. A produção ainda mostra uma visita do próprio diretor do filme, Líbero Luxardo, à sede do Banco Comércio e Indústria da América do Sul para receber os parabéns pelo sucesso do filme “Marajó – Beira do Mar”, e um almoço entre o interventor Alacid Nunes, empresários do ramo industrial e trabalhadores.

“O governador, tenente coronel Alacid Nunes, democraticamente entra na fila do almoço (..) Os principais diretores e suas esposas servem os empresários e convidados, em uma confraternização entre o capital e o braço trabalhador”, afirma o narrador. Segundo um estudo divulgado na III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, 76% da população paraense se entende como parda ou negra. Os trabalhadores da cozinha, entretanto, são alguns dos poucos negros que aparecem na filmagem. “Essa é talvez a imagem mais emblemática do filme que pode ser entendida como propaganda. A situação é completamente irreal. A população pobre era tão deixada de lado quanto é atualmente”, afirma Victor.


50 ANOS DEPOIS, CHEGAM OS 400

“Belém do Pará” vai fazer 50 anos, mas muitas ideias dele permanecem atuais. “É visível que o conceito do filme continua atual. A propaganda dos órgãos oficiais e das pessoas financiadas por elas ainda buscam apresentar uma cidade irreal, elitista, que só faz sentido para quem vive em uma bolha. Muitos dos problemas são os mesmos”.

E parecem ser mesmo. Enquanto o filme de 1966 apresenta a formatura de uma turma de medicina da Uepa, exaltando a grandeza do ocorrido, em 2015, a instituição enfrentou cortes de gastos, perda de recursos para projetos de pesquisa e extensão, uma greve de professores e greves e paralisações estudantis em campi de diversos municípios do Estado, incluindo Belém.

Segundo uma pesquisa da ONG Associação Filmes de Quintal, em parceria com a Unesco e o Ministério do Desenvolvimento Social e Secretaria de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial, a Região Metropolitana de Belém possui 1.300 comunidades tradicionais de religião de matriz africana. Entretanto, neste ano, líderes religiosos denunciaram a falta de espaço e o preconceito contra essas religiões na administração pública.

Enquanto o filme apresenta a visão de jovens brancos aproveitando um dia de sol no clube, os moradores da periferia de hoje apontam a insegurança, abandono e falta de políticas públicas na capital paraense.

“A sociedade mudou, a cidade mudou, mesmo alguns problemas mudaram. Mas a relação entre esses três elementos parece ser a mesma de 50 anos atrás. Há um governo, sem dúvidas. Mas para quem ele serve? A quem atende? Para quem a imagem dos 400 anos será vendida?”, completa Victor.

Há esperança de mudança? “Vejo a História como uma forma de estudar o passado para entender o presente e, em alguns casos, tentar vislumbrar o futuro. É perceptível que a população se mobilizou. O acesso aos meios de produção da comunicação são maiores. Com o tempo, talvez, os fatos passem a ser contados pelo ponto de vista da periferia”, conclui o historiador. Aguardemos, então. Os próximos 50 anos ainda prometem muita história.

Imagens: Cine-jornal “Belém do Pará” (1966)

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