São Ninja Liberto

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram
Um prédio com mil portas. Dos mais antigos, dos mais falados, dos mais vividos. São José esteve lá desde o início, mas não pôde impedir o calvário de seus moradores.     

Parece que eu to vendo: lá vinha o corpo do Ninja, se desenrolando lá de cima. Que ano? Lá por 1998. Já tava na televisão, pessoal no rádio tava direto aqui. Gente rodeando tudo quanto era canto, daqui pra lá, correria e tiroteio. Pararam os ônibus, o trânsito todo, só carro da polícia, do governo e jornalista. Todo mundo já tinha medo desse monstro, sempre tinha rebelião. Mas, naquele dia, quando o mataram o Ninja, a gente já sabia que era muito sério. É pra levar?
 
Mas vale à pena entrar lá. Assim me disseram. O lugar é velho, parceiro. Isso aí foi construído ainda pelos padres, os capuchos, não os capuchinhos, mas os capuchos de não-sei-onde, já com o nome de São José. Isso ainda lá por 1600 e tantos. Era a tal coisa de catequizar os índios. Mas teve uma briga e eles foram todos expulsos. É, todos esses padres. E o prédio ficou.1 Como já era um prédio de pedra, ficou firme. Aí deram outra utilidade pra essa belezura.

 
Sabe aquela história de fogueira santa? Negócio de Inquisição, que era o tribunal da igreja: aí pegava alguém que tivesse cometido algum crime – crime pra Igreja – e julgava, torturava, humilhava e tudo quanto. Isso teve em Belém. Não a fogueira, não a forca. Mas a inquisição. E o padre que cuidava disso ficava aí nesse prédio.2 Aí queria prender tudo quanto era benzedeira, rezadeira, feiticeira, mas, imagina, ia prender pouca gente que eu digo…

Eu sei que depois desse motim, só fui ver onda de novo dia desses. Não teve aquela visita da taça da Copa? Pois é…
 
Depois, esse prédio deve ter sido muita coisa. Sei que o que eu vi foi essa rebelião. Era tipo uma coisa quando tinha onda lá dentro. A gente já sabia. Aí todo mundo corria lá pra frente pra olhar. Pessoal entope o lugar, trata o pessoal que nem bicho – pessoal aprontou das suas, mas é gente –, depois espera o quê? Muita onda mesmo. Se fosse eu, ia ser o primeiro a tocar o terror. Mas a rebelião, toda a onda das gangues, refém as mortes foi o estopim. Fecharam o lugar. Aí disseram: não, vamos fechar porque um lugar como esse não pode ficar no centro. Ah, mas lá em Santa Izabel quer dizer que pode? Pode, porque aí ninguém vê nada.


O São José é pedra fundamental do nosso quebra-cabeça. Por ele, se passaram muitas das histórias que explicam a cidade – e nos explicam. 

Eu sei que depois desse motim, só fui ver onda de novo dia desses. Não teve aquela visita da taça da Copa? Pois é, aí a Coca-Cola fez toda aquela festa lá, com visita, tinha uma fila imensa pra ver o troféu. Mas teve o protesto do pessoal. Não vai ter Copa e o caramba. E diz que os estudantes queriam levar a taça. Teve bomba, spray de pimenta e tudo. A gente teve até que fechar o carrinho aqui. Achei foi pouco. Já pensou se o pessoal leva a taça? Com aquele time, meu amigo, só roubando a taça mesmo…
 
1 MATOS, Frederik Luizi Andrade de. Os “frades del rei” nos sertões amazônicos: os capuchos da Piedade na Amazônia colonial. Dissertação de mestrado – Programa de pós-graduação em História Social da Amazônia. Belém: Universidade Federal do Pará, 2014.
 
2 LAPA, José Roberto do Amaral (org.). Livro da Visitação do Santo Ofício da Inquisição ao Estado do Grão-Pará (1763-1769). Petrópolis: Vozes, 1978.

Ilustração: Marri Smith

Continue lendo...

Mangueirão

O Mangueirão é um grande personagem da história do futebol paraense. Não há torcedor que não guarde uma memória do estádio. O problema é o

Ver-o-Peso

Belém discute a nova reforma do Ver-o-Peso. Mas, assim como no passado, trabalhadores e população questionam o projeto para o local, e se perguntam se

Maria Fumaça

A Estrada de Ferro Belém-Bragança foi uma importante via de transporte para muitos municípios paraenses. Hoje, além de construções antigas, o que restou dessa história

Transporte Fluvial

O transporte fluvial público em Belém não é um tema recente. A diferença é que no passado os projetos não eram tão ineficientes como agora.