Cidade das Mangueiras

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Se toda Belém sofre com falta de qualquer arborização, a cidade ainda pode ser chamada de Cidade das Mangueiras? Na primeira reportagem da série #Belémpraquem, o Portal Outros400 procura o que está por trás do famoso título belenense.

Elas estão por aqui há tanto tempo que nós as consideramos de casa, mas as mangueiras não são cria da Amazônia. A espécie (Mangifera indica), nativa das florestas do sul e sudeste da Ásia, fincou raízes tão fortes no solo e no imaginário de Belém do Pará que se construiu uma identificação entre a capital, seus habitantes e essa árvore de tronco espichado, copa grande e de boa sombra e frutos-delícia. Virou expressão e marca turística. Só que, passado mais de um século do germinar dessa relação, o epíteto de “Cidade das Mangueiras” venceu a prova do tempo e do crescimento territorial e demográfico?
Uma pesquisa publicada em 2014 avaliou a percepção dos moradores de dois bairros de Belém sobre a arborização de ruas com mangueiras. Segundo a análise, orientada pela doutora e engenheira florestal Daniela Biondi (UFPR), 71,43% dos entrevistados do bairro do Guamá acreditam que Belém perdeu o título de “Cidade das Mangueiras”, enquanto que 73,17% das pessoas entrevistadas no bairro de Nazaré acham que esse status permanece. 
A disparidade de opiniões simboliza a concentração de mangueiras em pontos específicos de Belém. Considerando a distribuição geográfica, o mais certo seria chamar o “Centro das Mangueiras”: os exemplares da espécie se concentram nos bairros que compõem o centro histórico e financeiro, como Nazaré, Cidade Velha, Campina, Reduto e Umarizal.

Na avenida Pedro Miranda, elas estão lá, figurando no canteiro central. Mas na maior parte da cidade, as mangueiras dificilmente são encontradas. 

Foi nessa área que, no início do século XX, o então intendente Antônio Lemos (1843-1913) institucionalizou o plantar de mudas da árvore frutífera vinda da Índia. A capital vivia sua Belle Époque e o dinheiro das seringueiras (fontes do tão cobiçado látex) fez nascer pés de manga nas principais avenidas e boulevards da cidade com o fim paisagístico de criar grandes túneis sombreados, ao estilo de Paris. É lá que as centenárias árvores e seus frutos ainda são encontrados em abundância.
Fora desse raio de desenvolvimento econômico e social, a mangueira “pegou” em alguns bairros periféricos, como Cremação, Marco e Jurunas, onde são vistas em número bem menor. O Guamá é um dos locais em que o plantio e manutenção da planta não foi historicamente planejado, o que explica o resultado da pesquisa. Não há representatividade de mangueiras nesses espaços, que são cada vez amplos com a expansão da cidade.
A especulação urbana e a ocupação desordenada que afetam capitais brasileiras em diferentes proporções atingem Belém de forma especial: não são só as mangueiras que vêm rareando, mas todo o conjunto de vegetação. Em 2012, um estudo divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) colocou Belém e Manaus, as duas principais cidades amazônicas no Brasil, no fim da lista de capitais em relação ao índice de arborização urbana. Apenas 22,4% do entorno dos domicílios belenenses têm alguma árvore ao redor.

Considerando a distribuição geográfica, o mais certo seria chamar o “Centro das Mangueiras”: os exemplares da espécie se concentram nos bairros que compõem o centro histórico e financeiro, como Nazaré, Cidade Velha, Campina, Reduto e Umarizal.

“Belém vem perdendo, de forma incessante e rápida, o seu verde urbano”, escrevem a socióloga Violeta Loureiro e o geógrafo Estêvão Barbosa no artigo de 2010, “Cidade de Belém e natureza: uma relação problemática?”. “Na cidade das mangueiras, são justamente elas, as mangueiras – tombadas pelo Patrimônio como bem de uso comum e preservação permanente – as espécies que padecem maiores danos, descaracterizando a cidade como tal”.
Além da iniciativa privada, os danos ambientais e a perda de verde na paisagem urbana recaem na administração pública ao longo das décadas.  Os pesquisadores apontam dados da Secretaria Municipal de Urbanismo/Horto Florestal: o plantio de árvores nas ruas e praças em Belém foi caindo progressivamente. Por exemplo, foram 27.979 mudas em 1989; 18.950 mudas em 1990; e em 1991, apenas 4.486. “Foi se estabelecendo em Belém uma enorme diferença entre a área central, belamente arborizada graças à herança do passado (embora hoje muitas árvores estejam doentes e envelhecidas), e habitada, predominantemente, pelas classes alta e média; e uma área de expansão com conjuntos habitacionais de classe média ou assentamentos ocupados pela população de baixa renda, em bairros largamente desprovidos de verde nas ruas, e com raras praças que sirvam como pontos de lazer, recreação e encontro”, afirmam.

MUITO ALÉM DO CANAL


Doralice mostra o corredor de plantas no canal da Visconde. Arborização bem diferente das famosas mangueiras. 

A descrição acima se encaixa ao Canal da Avenida Visconde de Inhaúma, que corta o bairro da Pedreira. O local é um dos muitos ex-igarapés de Belém com vegetação de beira, hoje enterrado pelo cimento e o esgoto. O marasmo do cenário de lixo e água suja, com um ou outro “mato” despontando de teimoso aqui e ali, é interrompido com fartura e cores no trecho que passa pelas Travessas Mauriti e Mariz e Barros. Coqueiros, cidreiras e até pés de graviola crescem nas paredes do canal.

Mas o que chama mesmo a atenção são os topos brancos e floridos dos “buquês-de-noiva”, nome popular da Plumeria pudica. “Eu peguei um ramo dessas na feira e dei pro meu filho plantar. Ficou bonito, né? Deu tão certo que o pessoal foi pegando e plantando também e ficou desse jeito”, mostra Doralice Silva o corredor das plantas que se formou a partir da porta da sua casa. Ela mora no mesmo lugar há mais de meio século, antes do canal ser canal e da Travessa da Estrêla virar Mariz e Barros.
Faz quase cinco anos desde aquela semeadura e as mudanças foram enormes. Quem passa pelo canal vê um longo jardim costeiro e de manhã um encontro de garças que se misturam à alvura dos buquês de noiva. Luiz Silva, filho de Dona Doralice, tem uma banca de peixe na frente da planta que deu origem a todo àquele verde. Enquanto alimenta “Gestrudes” (garça que o visita todos os dias) com pedaços de pescada branca, ele comenta. “A Prefeitura podia ter uma fiscalização constante no canal para evitar que pessoas venham jogar lixo, porque a nossa parte a gente faz. Acho que é mais útil do que gastar com caçamba, lixão, essas coisas”.



Em sua barraca, Luiz alimenta “Gertrudes”, garça que o visita o canal. Assim como parte da vegetação do antigo igarapé, a ave resiste ao cimento, esgoto e lixo. 

DIÁLOGO?

A engenheira florestal da Embrapa Amazônia Oriental, Noemi Vianna, concorda que o cidadão carece de formas de diálogo mais amplas com a administração municipal, porém afirma que os projetos de urbanismo da cidade estão em progresso, “sempre visando à população”. “A SEMMA (Secretaria Municipal de Meio Ambiente) atende às chamadas de pessoas que pessoas que queiram de ter árvores no entorno de suas casas. Os agentes da Secretaria fazem o plantio”. O número da SEMMA é 3204-1014.

Noemi faz parte da Câmara Técnica de Arborização de Belém. Junto com outros 14 especialistas, ela criou o “Manual de Orientação Técnica” de arborização da cidade, um guia para planejar, implantar e manter árvores em espaços públicos. Por enquanto, o manual está disponível em versão online. O próximo passo é a formulação de uma cartilha para ser usada no sistema de ensino local, público e particular. “É preciso de educação ambiental em larga escala para melhorar o nível de arborização na cidade”, acredita.

O plantio de árvores nas ruas e praças em Belém foi caindo progressivamente. Por exemplo, foram 27.979 mudas em 1989; 18.950 mudas em 1990; e em 1991, apenas 4.486.

A Câmara Técnica fiscaliza a aplicação do Plano Municipal de Arborização Urbana de Belém (PMAB), documento instituído em 2008. Nele constam, além da já citada educação ambiental, o fortalecimento da Granja Modelo da cidade, um repositório de sementes, e o plantio e manutenção de espécies nativas e que representem a diversidade sociocultural da Amazônia, como a cuieira e pau-preto (Rio Tocantins), e o açaizeiro.

Respondendo a questão do começo dessa matéria, a engenheira defende que Belém não deve nunca perder a fama de “Cidade das Mangueiras”, por tudo que as árvores representam para a cultura regional e a assistência da equipe técnica da Prefeitura. “O principal é plantar novos espécimes de mangueiras, cuidar do crescimento adequado delas e da saúde das que já existem”, afirma. De acordo com o programa oficial de rádio da Prefeitura de Belém, edição do dia 30 de dezembro, no ano de 2015 foram cuidadas 5.700 árvores (os serviços incluem poda, rebaixamento e outros). Dessas, mais de 2.000 são mangueiras. Foram plantadas 409 novas árvores, 236 mangueiras.
Fotos: Kleyton Silva

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