Cidade Hospitaleira

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram
O título de Cidade Hospitaleira não se mantém a uma avaliação. Basta conversar com estrangeiros, turistas e com os próprios moradores de Belém. Na segunda reportagem da série #BelémPraQuem, perguntamos: que tipo de hospitalidade a cidade ostenta?

No último ano, Secretaria de Estado de Turismo (Setur) em parceria com o Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas (Dieese-PA) estimou que o Estado do Pará recebeu cerca de 1,2 milhão de turistas, destes cerca de 84 mil vieram a Belém para as festividades do Círio de Nazaré, período de pico na área turística. A fama de cidade hospitaleira é antiga, mas será que Belém está mesmo preparada para acolher bem os visitantes?

No final de 2015, o Ministério do Turismo divulgou um ranking da competitividade no turismo dentro do País. Foram analisadas 65 cidades dentro de 13 indicadores, como competitividade, infraestrutura, acesso e politicas públicas. Belém ficou em 27º na lista, figurando entre os primeiros apenas no quesito aspectos culturais. Mas a recente pesquisa do Ministério do Turismo, por meio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), colocou Belém de novo sob os holofotes: terceiro destino turístico mais desejado do Brasil. O principal chamariz seria a gastronomia. 

“O atendimento aqui em Belém é péssimo, quando cheguei foi um choque.”

Para a cabo-verdiana Mayara Correia, que está em Belém há dez meses, é difícil dizer que sim. “O atendimento aqui em Belém é péssimo, quando cheguei foi um choque, pois é bem diferente da realidade do meu país onde as pessoas têm o costume de receber bem para satisfazer os clientes”, dispara Mayara, que vive num país lusófono. 

A falta de estrutura para recepção de turistas é facilmente notada. Em uma volta pela cidade, a reportagem do Portal Outros400 foi avaliar o padrão de atendimento e o idioma de trabalhadores do setor. Foram dois restaurantes do centro da cidade e outros dois hotéis: em apenas um deles havia um profissional apto a receber turistas de língua inglesa. Nos demais, a negociação se deu por meio de tradutores de celular, com pouca efetividade.


No mercado do Ver-o-Peso, não há sequer um posto de informações turísticas para orientar os visitantes. (Foto: Rafael Monteiro)

Na visita ao mercado do Ver-o-Peso, a terceira atração turística mais procurada na capital, segundo dados da Setur, o Portal Outros 400 testou como anda o domínio de uma segunda língua, quesito básico para qualquer espaço turístico: o mercado não foi aprovado.

Ao chegar à feira, o turista que precisa se comunicar através do inglês, por exemplo, vai encontrar placas que sinalizam os setores da feira. Não é difícil saber onde ir, porém tentar comprar qualquer item nos 150 boxes do espaço é um trabalho quase teatral. São muitas mímicas, seguidas de expressões simples como “Ok”,“Yes” ou “No”.

Para aqueles mais inteirados com a tecnologia, o espaço oferece sinal de internet gratuito, o que permite usar tradutores on-line nas “conversas”, apesar de as traduções de aplicativos não serem 100% corretas. Segundo o que a ponta a Secretaria de Turismo, apenas 21 trabalhadores da feira receberam qualificação neste sentido, fazendo parte de um universo de mais de 3,5 mil pessoas exercem alguma atividade dentro da feira. 




Noutros pontos turísticos, como o Forte do Presépio, a realidade é a mesma: faltam profissionais para atender a um público estrangeiro. (Foto: Rafael Monteiro)

O mau atendimento e a falta de pessoal capacitado em língua estrangeira são apenas algumas das queixas dos turistas. Eles também incluem na lista algo muito pior: casos de racismo e discriminação, além de dificuldades de locomoção e falta de políticas públicas na área de turismo receptivo.

“A procura por cursos de capacitação foi tão pequena nos últimos anos que decidimos não abrir mais turmas, a última foi em 2014.”

Um dos fatores apontados como causa da maioria destes problemas é a falta de capacitação dos profissionais que atuam nas áreas ligadas ao setor turístico. “A procura por cursos de capacitação foi tão pequena nos últimos anos que decidimos não abrir mais turmas, a última foi em 2014”, justificou Fernando Soares, assessor jurídico do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado do Pará (SHRBS). “A última turma de inglês básico, por exemplo, teve quatro alunos inscritos. Hoje, preferimos encaminhar os poucos profissionais que nos procuram para o Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem comercial”, comenta.

O SHRBS diz que essa baixa procura por aperfeiçoamento se deve à falta de incentivo ao turismo na capital. Fernando Soares conta que faltam atrativos que façam o turista querer vir a Belém com mais frequência, e que, por isso, os profissionais da área julgam desnecessário saber falar outra língua, por exemplo, já que será uma ferramenta utilizada esporadicamente.

“É muito caro fazer congressos e eventos em Belém. Por outro lado, a cidade não oferece um atrativo turístico que justifique os preços altos.”

Ele comenta que hoje até o turismo de negócios, um dos principais atrativos de visitantes à capital, está escasso. “É muito caro fazer congressos e eventos em Belém. Por outro lado, a cidade não oferece um atrativo turístico que justifique os preços altos. Falta política pública voltada para o setor”, critica, apontando para um panorama pouco favorável ao segmento na capital paraense.
A Setur rebate, afirmando que a secretaria investe em acessibilidade aérea, criação de rotas turísticas, formatação de produtos, cursos de capacitação para melhor atendimento, entre outras estratégias.  Um exemplo citado por eles foi o Programa Estadual de Qualificação Profissional do Turismo (PEQTur), que qualificou, em 2015, 2.463 trabalhadores do setor no estado e 427 trabalhadores em Belém.


Até mesmo na Estação das Docas, criada para se tornar um chamariz turístico, comprar um tacacá pode se tornar uma atividade custosa. (Foto: Rafael Monteiro)

Um número que pode ser considerado pequeno já que pesquisas da própria secretaria e do Dieese mostram que o turismo, nos últimos três anos (2013/2014/2015) empregou formalmente 25 mil trabalhadores. Se contabilizarmos os profissionais que atuam como terceirizados ou informalmente, este número salta para cerca de 100 mil ocupados nas diversas áreas do turismo.

ATENDIMENTO SELETIVO

“Belém é, sim, uma cidade acolhedora, mas também depende com quem e para onde você vai. Tem que saber os lugares onde frequentar”. As palavras da estudante estrangeira Keila Delgado, também cabo-verdiana, que há quatro anos vive em Belém, resumem bem a relação que os visitantes encontram. De um lado, há os que procuram agradar quem chega à cidade e, de outro, um setor de serviços com péssimo preparo para atender locais e estrangeiros. “Já sofri discriminação e racismo em vários lugares como shoppings, bancos e restaurantes, mas também fiz amigos aqui que são minha família hoje”, relata.

“É difícil você sair de um País como o meu [Cabo Verde] onde não existe racismo e chegar a um lugar onde te julgam pelo cabelo e pela cor da pele.”

Para ela, esse tratamento seletivo foi um fator que dificultou o processo de adaptação à nova cidade “É difícil você sair de um País como o meu [Cabo Verde] onde não existe racismo e chegar a um lugar onde te julgam pelo cabelo e pela cor da pele. Não estava preparada para lidar com isso”.

O caso de Keila não é pontual. Recentemente o universitário paraense Henrique Noronha Rotterdan, que atualmente reside em São Luís (MA), veio a Belém para um congresso realizado em um dos principais hotéis de luxo da capital. O estudante utilizou as redes sociais para denunciar ter sido alvo de ofensas racistas e homofóbicas dirigidas a ele por um gerente e pelo proprietário do estabelecimento. 

ANÁLISE

Para a diretora da Faculdade de Turismo da Universidade Federal do Pará, Diana Priscila Sá Alberto, a questão passa por outros aspectos mais profundos que vão além da falta de capacitação. “Temos muitos atrativos naturais, mas quando precisamos lidar com os serviços podemos contar nos dedos os estabelecimentos que mantém um padrão de qualidade”, afirma ela. “Academicamente, o que percebemos é que existe uma questão cultural, similar à questão do lixo, onde se fazem campanhas educativas, mas, ainda assim, o cidadão não toma consciência sobre seu papel.”

Continue lendo...

Destaque

Nunc justo ante lacinia sit amet nulla ut

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Morbi venenatis scelerisque bibendum. Nunc justo ante, lacinia sit amet nulla ut, efficitur sagittis sapien. Suspendisse commodo