Bolo e protesto!

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Sem um projeto de cidade para Belém, no aniversário de 400 anos, a prefeitura só conseguiu reeditar a farsa do bolo no mercado do Ver-o-Peso, acrescentando algumas novas promessas.

O festejo da prefeitura de Belém pelo aniversário de 400 anos da cidade, na manhã desta terça-feira, seguiu o mesmo roteiro dos anos anteriores: bolo, música e promessas. Administradores e políticos subiram ao palco, montado em frente ao Mercado de Ferro, para enaltecer uma cidade que caminha com problemas estruturais distantes de serem sanados. No mercado do Ver-o-Peso, coração e termômetro da cidade, a popularidade do prefeito Zenaldo Coutinho se mostrou baixa. E boa parte da população se espremeu ― e quase saiu aos tapas ― para conseguir um pedaço de bolo. 

Na fila, havia moradores de rua, hippies, mendigos e viciados. “Quem tá com fome aí?”, perguntava o animador. Desde o início, ele lembrava que haveria um grande anúncio.

Desde as 8h, o povo se concentrava ao redor de uma grade metálica que protegia os confeiteiros e o bolo de 100 metros, o maior já feito em Belém, segundo anunciava a prefeitura. Um pouco antes, às 7h40, houve uma salva de tiros do Forte do Castelo. Em seguida, foi celebrada, na igreja da Sé, uma missa em honra ao aniversário da cidade. Já no Ver-o-Peso, um vendedor gritava em busca de clientes. Ele vendia sacolas de fibra. “Olha a sacola pra pegar o bolo”, dizia. “Paraense é besta mesmo. Vai pegar um bolo todo esmigalhado. Só ovo”, completou o vendedor de 58 anos, que trabalha desde os 12 anos no Ver-o-Peso, e preferiu não se identificar. 

Uma imensa fila se formava, desde o Mercado de Ferro até a avenida Portugal, quase chegando à praça do Relógio. As pessoas carregavam sacolas, potes e bacias para conseguir um pedaço de bolo. As marcas dos patrocinadores jaziam sobre a mesa. “Cadê o titio Zenaldo, que não chega?”, gritava uma mulher. Como a divisão do bolo estava marcada para as 9h30, Zenaldo estava atrasado. Já faltavam poucos minutos para as 10h. A prefeitura garantiu um bolo democrático. Na fila, havia moradores de rua, hippies, mendigos e viciados. “Quem tá com fome aí?”, perguntava o animador. Desde o início, ele lembrava que haveria um grande anúncio.


Para conseguir uma fatia de bolo, a população se amontou e formou fila desde cedo. 

(Foto: Kleyton Silva)


Às 10h30, o prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB) e o governador Simão Jatene (PSDB) anunciaram a reforma do Ver-o-Peso. Segundo o prefeito, o orçamento para a reforma do complexo já havia sido garantido através do programa PAC das Cidades Históricas, do Ministério das Cidades. Mas, com o corte no orçamento federal em função da crise deste ano, segundo ele, o repasse foi cancelado. “Viemos aqui anunciar a reforma do Ver-o-Peso a partir de um convênio de R$ 25 milhões com o governo do Estado”, disse Zenaldo. O prefeito cortou o bolo, mas não comeu nenhum pedaço, deixando os 100 metros à população. Postura seguida pelo secretariado e familiares, que também não provaram nenhum pedaço.




Houve aperto e confusão, como todos os anos, na repartição do bolo. Pessoas idosas e deficientes partilharam da agonia durante a festa. 

(Foto: Kleyton Silva)


Ao iniciar seu discurso, o governador Simão Jatene disse que “não veio fazer discurso”. “Essa obra é para começar o mais rápido possível”, completou, improvisando, ainda, que a prefeitura garantirá uma contrapartida de R$ 9 milhões. Nem o valor total de R$ 34 milhões, tampouco os R$ 25 milhões, apareciam na placa, em frente ao Solar da Beira, prédio que compõe o complexo do Ver-o-Peso, mas que está há anos abandonado, sendo usado apenas como banheiro e depósito da Secretaria Municipal de Economia (Secon). 

Em um momento constrangedor, o governador Simão Jatene tentou escapar, mas teve 
de apertar as mãos do deputado-delegado Éder Mauro, pré-candidato à prefeitura de Belém.
(Foto: Kleyton Silva)


A festa acontecia ao mesmo tempo em que as vozes destoantes se espalhavam pelo mercado do Ver-o-Peso. Faixas e cartazes, distribuídos por toda a feira, criticavam a prefeitura, as ações do governo e as promessas não cumpridas. Na pedra do Ver-o-Peso, o prefeito foi chamado de “mentiroso” e “traíra”.  Um cartaz dizia “Zenaldo, cadê as creches? Cadê o saneamento? Cadê a saúde?”. Em seu discurso, Zenaldo comemorou o fato de o projeto de reforma da feira ter sido amplamente discutida com os vários setores que compõem o complexo do Ver-o-Peso, “com a elaboração do projeto, ouvindo setor por setor, feirante por feirante, para atender as necessidades de todos. Iniciamos algumas reformas, mudança de conceito”. 



A falta de transparência e debate na elaboração do projeto de reforma do Ver-o-Peso foi lembrada
nos protestos desta terça-feira. (Foto: Kleyton Silva)


Mas um grupo de feirantes discordava da posição do prefeito. Com uma faixa, eles protestaram contra a redução do orçamento total da obra, antes de R$ 47 milhões. E, ainda, contra a falta de transparência e debate sobre a obra, contrariando o discurso do prefeito.  O cartaz dizia: “Prefeito Zenada. Cadê os R$ 47 milhões da reforma do Ver-o-Peso. Metiroso. Traíra”. “Não teve nada. Não teve audiência. Não teve reunião nenhuma”, disparou Didi do Ver-o-Peso, que compõe a Associação dos Feirantes. “Ele [Zenaldo] está empurrando esse projeto na nossa goela, é de cima pra baixo. Nós nem decidimos se esse projeto é viável para nós. Só houve uma reunião apenas para apresentar o projeto.”

Aos moradores de Belém, no fim da festa dos 400 anos, restaram as migalhas. 
O que vem depois? 

(Foto: Kleyton Silva)

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