Cidade das Chuvas

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A chuva de Belém é cantada por poetas há décadas. O que não se canta é como podemos solucionar os alagamentos que perturbam os moradores. As soluções não são simples, mas são possíveis.

“Em Belém é assim: quando não chove todo dia, chove o dia todo”. É o que dizem por aí. Mas não é bem dessa maneira que acontece. A capital paraense, situada quase exatamente à linha do Equador, na Amazônia, margeada pela Baía do Guajará e pelo Rio Guamá, apresenta um clima bem definido no decorrer do ano: o período chuvoso, que vai de dezembro a maio, e o período menos chuvoso, que segue de junho a novembro. Esses períodos são chamados de inverno e verão amazônicos, respectivamente. Uma realidade bem conhecida. Sendo tão natural para o belenense a tal chuva da tarde, por que, ano após ano, as chuvas alagam as ruas da cidade toda?

Os pesquisadores apontam que não há uma rede de drenagem adequada para a água das chuvas. (Foto: Kleyton Silva)

De acordo com uma pesquisa publicada no final de 2012, que mapeou as zonas mais propensas a sofrerem inundações a cidade de Belém, os alagamentos ocorrem quando as chuvas fortes ou muito prolongadas coincidem com a maré alta ou preamar, atingindo níveis superiores a 10,0 mm. Quando a maré está baixa, é necessário que a altura do evento atinja 35,0 mm para alagar boa parte da cidade, o que não quer dizer que não ocorra se esse nível não for atingido.

Universitário, Jurunas, Telégrafo, Terra-Firme, Miramar, Cidade Velha, Barreiro, Condor, Sacramenta e Maracangalha são os bairros belenenses sob risco de inundações.

Os dez principais bairros a sofrerem com essa situação caótica, de acordo com o “Mapeamento das Zonas de Riscos às Inundações no Município de Belém-PA”, são: bairro Universitário, Jurunas, Telégrafo, Terra-Firme, Miramar, Cidade Velha, Barreiro, Condor, Sacramenta e Maracangalha. Mas, também, podem-se observar inundações nos bairros menos centrais, como Transmangueirão, Benguí, Tapanã e Satélite. Nessas localidades, “apesar de apresentarem ruas asfaltadas, não há uma rede de drenagem adequada para as águas das chuvas”, apontam os pesquisadores.

Ainda segundo o estudo, além destes, vários outros fatores contribuem para os alagamentos no Município de Belém, como as características naturais favoráveis às inundações, com grande parte do seu território localizado em áreas de “baixadas”, situadas em áreas com aspectos topográficos abaixo de 4 metros de altitude; a ocupação desordenada do espaço urbano, com aumento do número de residências, conjuntos habitacionais e áreas pavimentadas na cidade; a falta de consciência ecológica e sistema de drenagem pluvial deficiente.

Em 2015, o volume de chuvas em Belém foi considerado anormal (Foto: Kleyton Silva)

“Outro fator é a ausência de vegetação, ocasionada pela impermeabilização das superfícies”, afirmam os Geógrafos Luis Sadeck, Arlesson Souza e Laryssa Tork, “em função do avanço das residências, edificações, asfaltamentos e outras obras de infraestrutura sobre as áreas verdes da cidade, em especial nas últimas décadas, que dificultam os processos de infiltração das águas pluviais, provocando o aumento e a aceleração do escoamento superficial pelos canais e, consequentemente, resultando em enchentes e inundações”.
Esta situação é preocupante considerando que, até o final de março, o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) prevê que a população belenense sofrerá com novas chuvas acima do volume normal, seguindo os passos do ano passado, quando o volume das chuvas em Belém, de 1º de janeiro até 29 de dezembro, foi de 3411 mm, quando a média anual é de 2922 mm. “Pode ser dito que o volume de chuva anual, em Belém, foi acima do normal em 2015. Durante o período chuvoso, a maioria dos meses apresentou chuvas acima do normal, todavia, durante o período menos chuvoso, as chuvas apresentaram volume abaixo do esperado”, informa Nilzele Gomes, meteorologista do Sipam.

MACRODRENAGEM

Para conter as situações de alagamentos ocorridas em vários pontos da cidade de Belém, algumas medidas são realizadas pela Prefeitura Municipal. De acordo com a Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), “a Prefeitura de Belém reforçou os trabalhos de limpeza e manutenção, que vêm sendo executados, desde agosto de 2015, ao longo dos mais de 54 km de canais da cidade”, atividade essa que “acontece de forma reforçada nos períodos de chuvas mais intensas”.

O mestre em Ciências Ambientais e analista em Ciência e Tecnologia do Sipam, Flávio Altieri, ressalta que o sistema de drenagem pluvial de Belém, hoje, é deficiente para atender às necessidades atuais apresentadas pela capital paraense. “Hoje, a eficiência dele (do sistema de drenagem pluvial) deve ser menor que 50%, por conta da limpeza desses canais e do sistema de drenagem que é dificultoso. O que se consegue fazer é limpar os bueiros, mas o sistema de drenagem interno, a tubulação, é mais complicado”, ressalta Altieri.




No canal da Caripunas, bairro do Jurunas, a situação é a mesma que em toda a rede hidrográfica de Belém: falta manutenção e limpeza. (Foto: Rafael Monteiro)

Essas medidas paliativas, efetivadas pelo poder público, não atendem às reais necessidades da capital paraense, visto todo ano serem realizados os mesmos procedimentos e, ainda assim, todo ano, diversos pontos da cidade serem inundados com as águas das chuvas. Além disso, há a ausência de implantação de sistema de drenagem em diversos bairros do município, principalmente nos que estão localizados em áreas periféricas.

“A prefeitura sempre diz que vai ter mudanças, mas até agora não vimos nada.”

Moradora da “baixada” da Travessa Quintino Bocaiúva há 30 anos, Talinne Pinto, diz que a área em que reside sempre alagou. “Esse trecho aqui, toda vez que chove, enche. E a água chega até uns 20 centímetros de altura”. Até hoje, nenhum sistema de drenagem foi implantado no local que compreende os trechos entre Caripunas e Timbiras, mesmo já estando pavimentado, conforme Talline conta, “com o passar dos anos, chegou o asfalto, mas continuou alagado e a solução que nós moradores encontramos é a de construir as nossas casas mais altas que o nível da rua e improvisar com os móveis e eletrodomésticos, colocando batente em tudo. A prefeitura sempre diz que vai ter mudanças, mas até agora não vimos nada”.

Nas ruas próximas a canais, que formam as chamadas áreas de “baixada”, as casas são erguidas mais que o normal para evitar alagamentos. (Foto: Rafael Monteiro)
Em outro trecho da cidade, às margens do canal da Caripunas, situado entre a Rua dos Caripunas e a Avenida Generalíssimo Deodoro, banhado pela bacia da Estrada Nova, Jobson, morador daquele entorno há oito anos, conta que “basta dar uma chuvinha que alaga tudo, se ela (a chuva) for forte, então, aí que alaga mesmo e demora dias pra baixar de novo”. No canal, há uma placa da prefeitura de Belém, já meio caída e quase não dá pra que as informações ali presentes versam sobre as obras de macrodrenagem daquele canal, mas as obras estão abandonadas há anos. “Há uns dois anos que pararam essas obras, que começou ainda na época que o Duciomar ainda era prefeito daqui da cidade, enquanto isso, temos que conviver com o lixo que o povo joga aqui e com os riscos de doenças por ter que ficar cheirando e pisando nessas águas imundas”, relata o morador.

A Sesan informou que desde o último dia 4 de janeiro, foram retomadas as obras de macrodrenagem de todos os canais da baixada do Marco, que deságuam no canal do Tucunduba. Além disso, a bacia da Estrada Nova está em obras intensas, em cumprimento ao Programa de Saneamento da Bacia da Estrada Nova (Promaben), para implantação e conclusão da macrodrenagem dos canais nesse entorno que compreende integralmente os bairros do Jurunas, Cremação e Condor e, parcialmente, os bairros Cidade Velha, Batista Campos, Nazaré, São Brás e Guamá. “No trecho da Avenida Bernardo Sayão, entre a rua augusto Corrêa e Av. José Bonifácio, aproximadamente, 30 mil famílias estão sendo beneficiadas diretamente pela obra da macrodrenagem da bacia da Estrada Nova”. O prazo para conclusão é previsto até o final de 2016.
 
“Hoje, só o canal São Joaquim tem as comportas funcionando efetivamente.”

A solução para o problema de alagamento na cidade de Belém é algo complexo que só será alcançado a médio e longo prazo, pois envolve trabalhar um sistema de drenagem que seja apropriado à condição atual da cidade. Mas, algumas soluções, à curto prazo, são possíveis de serem realizadas, embora não garantam 100% de efetividade, como a implantação de comportas em todos os canais da cidade. Essa medida reduziria bastante o número de alagamentos na cidade, pois evitaria alagamentos decorrentes da incidência das fortes chuvas e da maré alta, já que as comportas impediriam que a água da maré alta entrasse nos canais. “Hoje, só o canal de São Joaquim tem as comportas funcionando efetivamente”, aponta Flávio.

Além disso, embora o lixo despejado pela população não seja o principal fator causador dos alagamentos na cidade, ele é uma das causas que contribuem para o entupimento do sistema de drenagem. A educação ambiental da população também poderia contribuir para a redução dos entupimentos dos ductos e proporcionar melhor escoamento das águas das chuvas. No entanto, “o problema dos alagamentos da cidade é bem mais complexo que somente fazer uma campanha educativa, para fazer com que a população não jogue mais lixo nos canais”, explica Flávio, “em situações normais (sem lixos nos bueiros e canais), continuaremos tendo problemas quando tivermos chuvas intensas que coincidam com as marés altas, que, acabam por resultar em situações de alagamento, e, mesmo quando a maré está baixa, você tem chuvas intensas ou muito prolongadas que também podem causar o alagamento”.


Na imagem, uma placa da prefeitura: cuidado com o canal. Apenas uma política de saneamento efetiva pode transformar os canais de Belém em aliados da cidade. (Foto: Rafael Monteiro)

Cuidar da cidade de Belém é uma via de mão dupla, mas a principal mão, nesse caso, tem que vir do poder público que precisa se comprometer com estudos e realizações das modificações necessárias que precisam ser feitas no sistema de drenagem da “Cidade das chuvas”. Esse seria um dos presentes mais bem dados à nossa querida Belém em seus 400 anos.

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