Festa intolerante

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Excluídos da programação oficial do aniversário de Belém, religiosos e lideranças afrorreligiosas organizaram um ato em prol do respeito e igualdade religiosa.
As frases podiam ser lidas por qualquer pessoa que passasse pela escadinha da Estação das Docas, em diversos cartazes: “Nosso culto é nosso Axé”, “Aceite minha escolha e respeite meu querer”, “Intolerância religiosa é o analfabetismo da alma”. À frente das frases, estava um público que não foi abraçado pela festa oficial do aniversário da cidade, nesta terça-feira (12), manhã de comemoração pelos 400 anos de Belém. Diversos manifestantes, membros de comunidades religiosas e afrodescendentes, de vários locais da cidade, se reuniram para protestar contra o desrespeito, o racismo e a intolerância. 
Partindo da Escadinha do Ver-o-Peso, o povo de terreiro de Belém mostrou sua força a despeito da exclusão da programação oficial. (Foto: Rafael Monteiro)

“Estamos lutando também para a gente ter um local apropriado para realizarmos os nossos cultos, que não tem em nossa cidade”, diz Mãe Clea. 
 
“Estamos lutando por uma cidade sem racismo, sem intolerância religiosa e sem homofobia”, disse a Mãe Clea, do terreiro Seara de Umbanda Mamãe Oxum, na Cidade Nova 6, município de Ananindeua. Mas não é apenas essa a batalha dos membros das religiões de matrizes africanas. A ausência de um espaço para celebrações e homenagens aos seus orixás demonstra o quanto Belém ainda precisa avançar no campo da diversidade religiosa. “Além disso, estamos lutando também para a gente ter um local apropriado para realizarmos os nossos cultos, que não tem em nossa cidade”, complementa Mãe Clea. “Outras religiões têm os seus locais para fazer os seus cultos, as suas celebrações, e nós não temos.”

A beleza e os sons afroamazônicos desfilaram pelo boulevard Castilhos França, se unindo ao Ver-o-Peso, um dos pontos de maior negritude da capital paraense. (Foto: Rafael Monteiro)

Durante o encontro, a celebração foi realizada como nos terreiros, com muita música, dança e batuque de tambor. Todos vestindo seus trajes sagrados, consagrados pelos Santos que os acompanham. Nas mãos de cada membro e das pessoas que passavam pelo local, encontrava-se uma Carta-Manifesto, intitulada “Belém 400 sem racismo e sem intolerância religiosa”, entregue pelo Movimento Atitude Afro do Pará. De acordo com o Pai Edson Catendê, o objetivo da carta é “pedir aos gestores públicos desse município, que a gente quer uma Belém com mais 400 anos sem racismo e sem intolerância religiosa”, porque “nós, de religiões de matrizes africanas, não aguentamos mais tanto sofrimento, com os nossos terreiros sendo invadidos, vários babalorixás sendo assassinados, junto com a nossa juventude negra”.

Pai Catendê deixou uma mensagem: “Nós, de religiões de matrizes africanas, não aguentamos mais tanto sofrimento, com os nossos terreiros sendo invadidos, vários babalorixás sendo assassinados. (Foto: Rafael Monteiro)

Partindo da Escadinha da Estação das Docas, os manifestantes realizaram uma passeata que seguiu até a orla do Ver-o-Peso. O carro-som do ato foi impedido de acompanhar o movimento pela guarda municipal da prefeitura de Belém, o que, para os manifestantes, demonstrava o preconceito com as crenças de matriz africana, uma vez que havia veículo de religiosos neopetencostais. “Nós não estamos aqui para questionar, discutir ou ir contra nenhuma religião. A gente quer respeito. A gente não quer que tolerem a gente, a gente quer respeito pela nossa fé, pela nossa história e tradição”, explicou o Pai Catendê.

Parte dos religiosos neopetencostais presentes na avenida Boulevard Castilhos França hostilizaram os manifestantes afrorreligiosos. (Foto: Rafael Monteiro)

Durante o percurso, porém, até a chegada à orla do Ver-o-Peso, religiosos de denominações neopetencostais, que também participavam da festa dos 400 anos de Belém, hostilizaram os manifestantes. Ouviu-se frases como “dedesmoniza, Senhor”, “perdoa-os, Pai, pois não sabem o que fazem”. Um desses religiosos, inclusive, numa tentativa de “converter” uma Mãe de Santo, começou a orar sobre a religiosa, para que ela aceitasse “a palavra do Deus verdadeiro”, no que a mesma respondeu que era justamente por esse motivo que estavam realizando essa passeata, para que esse tipo de perseguição não ocorresse mais entre eles.
 
Já próximo do fim da passeata, a cantora Gaby Amarantos parou para cumprimentar os babalorixás e os parabenizou dizendo que esse era um dia para eles e que merecem ser vistos e respeitados em toda a cidade. “A festa é de todos nós!”, disse a cantora.
 
Depois de participar da festa oficial da prefeitura, a cantora Gaby Amarantos apoiou a manifestação afrorreligiosa, junto ao Pai Tayandô, liderança em Belém. (Foto: Rafael Monteiro)

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