Cidade Morena

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Cidade Morena é provavelmente o mais difundido e cantado título de Belém. Uma moça de pele escura e trejeitos sensuais é a imagem que muitos fazem, mas quanto há de racismo e machismo no epíteto? Em nossa quarta reportagem da série ‪#‎BelémPraQuem‬, a cor da cidade vem para o centro do debate. 

Cidade tem cor? Belém tem. Uma cor mal definida e mal resolvida. À capital paraense, foi conferido o título de Cidade Morena, que se refere à cor da pele da maior parte da população da cidade, essa cor que tem um tom meio escuro, meio marrom, até pardo, talvez meio pálido. Negro. Negro? O título de Cidade Morena atravessa o campo musical rumo ao político. Um epíteto que se refere sempre ao feminino, uma mulher, dita cheirosa e bem arrumada, mas que mais parece a menina da esquina, ainda pré-adolescente, que passa pela rua e é hostilizada pelos olhares masculinos a assobiar e mexer com a “morena bonita”. O moreno pode mascarar uma identidade. Uma identidade que ainda sofre os impactos de séculos de abusos coloniais e ainda não conseguiu refletir sobre si mesma, sobre suas origens e raízes. E, por isso, ainda não conseguiu se assumir. Por que Belém não é a Cidade Negra?

O Pará é a unidade da federação em que as pessoas mais se declaram pretas ou pardas, segundo o Mapa da Distribuição Espacial da População Segundo a Cor ou Raça, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Secretaria da Igualdade Racial. São 76,7% de negros e pardos. A pesquisa, publicada em 2013, apontou, porém, que, deste total, 69,5% se declaram pardos, sendo que apenas 7,2% se autodenominam negros. Pardo é um termo que está nas certidões de nascimento, nas pesquisas do IBGE, nos formulários de vestibular, mas que não aparece nas ruas. Sempre que alguém é indagado sobre sua cor, a formulação gira em torno do moreno, nos seus vários graus, desde o moreno-cor-de-jambo até o moreno-claro. O indicador aponta uma identidade. A maior parte da população paraense não se considera branca, tampouco negra, mas algo que está entre os dois. Será mesmo?

Carmina Dias, 41 anos, microempreendedora do Centro Comercial em Belém. Ela se declara morena-clara. (Foto: Moisés Sarraf)

É difícil apontar a origem do termo moreno e, sobretudo, do epíteto cidade morena. Mas há indícios. Basta olhar anúncios publicitários, por exemplo, por ocasião do aniversário de 400 anos da cidade. Um incontável número de peças publicitárias trata a cidade como morena. Quantos enredos de escolas de samba de Belém vão chamar Belém de Cidade Morena este ano? “Ser moreno é não ser negro. É quase branco. Mas não é branco”, introduz a publicitária Thiane Neves, mestre em Comunicação Social e militante do movimento negro. “Quem disseminou a identidade morena foram homens brancos como forma de legitimar os casamentos inter-raciais. Eles não estavam casando com negras, mas com morenas”, completa Thiane Neves, que faz parte do coletivo Blogueiras Negras.

A ideia de Cidade Morena se solidifica pelos anúncios publicitários e reportagens, ganha fôlego na arte e se cristaliza diariamente nos discursos rasos. “Belém, Belém, menina morena”, escreveu Chico Sena em sua música “Flor do Grão-Pará”, considerado um hino. Há outros rastros de significados. Na página da prefeitura de Belém, em que se descrevem os símbolos do brasão da cidade, há uma explicação sobre a morenice. Segundo o texto da página, o sol do brasão  está lá em razão da “latitude da cidade que recebe os eflúvios do equador, daí a constância do sol que tanto derrama seus raios, para fazer de Belém, uma cidade morena”. Para a prefeitura, morena cor-de-bronze.

Os descendentes de indígenas e negros se sucederam, geração após geração, nas funções desempenhadas por seus antepassados escravos. 

A origem das desigualdades no Brasil, sociais e raciais, está no processo de colonização europeu, que perpetrou um genocídio indígena, escravizou os nativos e, então, trouxe africanos para serem escravizados. Quando o elo colonial fora quebrado e a escravidão abolida, as elites, descendentes do colonizador, tinham no indivíduo e na cultura europeias suas referências. Os descendentes de indígenas e negros, portanto, ainda eram semi-escravos, desprovidos de autonomia, se sucedendo, geração após geração, nas funções desempenhadas por seus antepassados escravos. Tanto que, como cita Zélia Amador, pesquisadora e co-fundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), o projeto de nação imperial e, depois, republicano fora marcado pela imigração branca, como de italianos e alemães, uma forma de europeizar o Brasil. “Como mais tarde se percebe que não conseguiu branquear o território inteiro, se branqueou o Sul e o Sudeste. Mas o Norte e o Nordeste permanece preto, índio.” E, para os negros brasileiros, fora estimulada outras categorias, como escravo-liberto e, posteriormente, moreno. Moreno, como diz Thiane Neves, que é a qualidade do não ser negro. Moreno-quase-branco. Mas não branco.

Isaías Tavares, 56 anos, conhecido como Zazá, se intitula trabalhador e se autodeclara moreno-claro. (Foto: Moisés Sarraf)
“Eu sou levada a achar que pra mim o moreno do Belém é Negro”, prossegue Zélia Amador. Para ela, por mais que a presença indígena seja forte em todo o Estado, no caso específico de Belém a identidade negra se sobressai. Mas, tanto em Belém quanto no resto do Brasil, ser negro não é bom. “Ninguém quer ser. Toda a carga negativa colocada na palavra negro e negra é tão forte que dificilmente alguém quer se dizer negra. Então morena é mais fácil dizer”, pondera. Nem o negro quer ser negro, nem o branco quer chamar usar o termo negro. Então o termo moreno se encaixa para ambos os lados da relação. O que fica claro é a dificuldade em se autodeclarar ou se reconhecer como negro. Zélia Amador tem um exemplo: em língua inglesa, moreno é o branco com cabelo negro. Nós temos outro: nos Estados Unidos, basta uma gota de sangue negro para ser negro; no Brasil, basta um gota de sangue branco para ser branco. 

Mas há peculiaridades raciais e, mais amplamente, culturais na Amazônia. Houve o tapuio, no passado colonial, depois o caboclo e o ribeirinho. Há, dentro da academia, o afroindígena. Mas, numa conjuntura política, essas múltiplas identidades não enfraquecem a luta pela emancipação? “Constantemente eu sou negada como pessoa negra. Teve um pesquisador que me olhou e disse: ‘afroindígena’. Na ocasião eu fiquei muito empolgada, pois não tinha ainda a dimensão de como minha identidade é complexa”, explicou Thiane. E, por mais que o conceito do moreno esteja disseminado em todo o Brasil, para Thiane ele é mais intenso nas Amazônias, como ela prefere falar.  “Nos demais lugares percebo que as pessoas já lidam melhor com a questão do moreno e do negro (…). Amigas negras quando chegam aqui se assustam de serem chamadas de morenas tão insistentemente, até mais que em suas cidades.”

Milhares de africanos desembarcaram – e viver para sempre – no Pará. 
 
Há, ainda, outro clichê: não há negros em Belém. Há indígenas, há morenos, mas “negro, negro”, não. Mas há. Por muitos motivos. Historicamente, a colonização portuguesa escravizou indígenas. Mas, com a resistência cada vez maior das ordens religiosas e financiamento estatal, a escravidão negra passou a fornecer a mão de obra ao governo-geral do Grão-Pará e Maranhão, com a nova capital Belém. No governo pombalino, através da Companhia Comercial Geral do Grão-Pará e Maranhão, garantia a logística para o mercado negro a São Luís e Belém. Milhares de africanos desembarcaram – e viver para sempre – no Pará. Na opinião de Vicente Salles, em “O negro sob o regime da escravidão”, a criação da companhia foi fundamental para o aumento numérico de escravos negros na cidade.

Mas não apenas a discussão racial envolve a morenice, mas, no caso de uma “menina morena”, a questão de gênero. Essa Cidade Morena, cantada e discursada, é sempre um ser feminino. E, quando aparece, é cheirosa, formosa, faceira. Sempre tem um quê de sensual. Uma objetificação do corpo negro que, para Thiane Neves, passa, antes, por uma questão indígena. “Romantização da dizimação das mulheres de etnias indígenas, em primeiro lugar. Em segundo, das mulheres de etnias africanas escravizadas que foram arrastadas até a província do Grão-Pará e Maranhão”, afirma a militante. “E a mistura desses povos, cujos corpos eram desnudos, gerou o pensamento sobre o ideal da mulher morena sexualizada: quanto menos roupa, menos pudor, mais à disposição para o sexo.” Um processo que tem reflexos, inclusive dentro das universidades, diz Thiane, já que “ainda hoje existem muitos pesquisadores em Belém que cultivam esse ideal da mestiçagem e continuam reforçando essa ‘morenice cabocla’.” Morena?

“A concepção de uma Belém morena, cheirosa e sensual, nos prejudica diariamente, pois os corpos das mulheres de etnias indígenas ainda são vistos como corpos à disposição e nós, mulheres negras, somos vistas como as incansáveis do sexo.”
 
Toda vez que um anúncio publicitário lembra da morena cheirosa, toda vez que o governador, no palanque, fala da cidade morena e toda vez que se canta a beleza da morenice, reforça-se uma ideia equivocada sobre a mulher amazônica e sobre a cidade. A cidade de Belém e a mulher de Belém são como apenas um nesse discurso. “A concepção de uma Belém morena, cheirosa e sensual nos prejudica diariamente, pois os corpos das mulheres de etnias indígenas ainda são vistos como corpos à disposição e nós, mulheres negras, somos vistas como as incansáveis do sexo, as mulatas sensações”, dispara Thiane. “E isso é romantizado por meio dessa morenice gostosa. Muitas mulheres se sentem contempladas com essa perspectiva e certamente até podem ser aborrecer comigo, mas essa é mais uma questão grave nesse falso romantismo: aquilo que nós ainda não conseguimos descortinar enquanto imposição de uma sociedade pouco favorável à liberdade da mulher, especialmente da mulher negra e da mulher indígena”.

Socorro Costa, 49 anos, autônoma, vendedora de bolsas. Ela se declara morena. 
(Foto: Moisés Sarraf)
 
Mesmo que o moreno não se reconheça negro, a Polícia Militar em todo o Brasil, assim como diversas outras instituições militares, sabem muito bem que moreno é negro. Basta olhar para quem foram as vítimas da chacina da Terra Firme no final de 2014. “Na rua ou em grandes lojas, as empresas de RH [Recursos Humanos] sabem quem é negro, a publicidade sabe quem é negro, a produções cinematográficas e televisivas sabem quem é negro, o poder público sabe quem é negro, a saúde pública sabe quem é negro”, completa Thiane. E agora começa: não é por aí, existe o moreno, sim. Negro é outra coisa. E se essa ideia ainda persiste, vamos aos exemplos. Em 2012, foi um caso de racismo por parte de uma professora para com um servidor e um aluno da Universidade do Estado do Pará (Uepa). Em novembro do ano passado, um jovem hospedado no hotel de luxo Crowne Plaza foi hostilizado, num caso de racismo e homofobia. E, ainda no ano passado, um grupo de jovens, que, para a cidade, são morenos, foram barrados de entrar no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA) apenas por serem morenos durante o  festival “Rock in Rio Guamá”. Para citar alguns.

Lá dentro, o “moreno” sabe. Ao entrar nos restaurantes e outros espaços dominados por pessoas brancas, ele sente o desconforto. 

Lá dentro, o “moreno” sabe. Ao entrar nos restaurantes e outros espaços dominados por pessoas brancas, ele sente o desconforto. Um desconforto, em menor ou maior grau, que é minimizado, caracterizado mentalmente como uma questão subjetiva individual. Mas não o é. Ele sabe que há algo errado com o tratamento desprendido. E, gradativamente, num processo mais lento ou mais veloz, ele toma consciência de que tem algo haver com sua pele e seu cabelo, até mesmo com seu nariz e seus lábios. E, em algum momento, ele vai reagir a isso. Seja por meio de uma pergunta ou uma frase ríspida, quando ele reagir, vai ser imediatamente apontado como algo exagerado. Precisava disso? Adjetivos que vão do radical ao coitadinho. Mas ele vai reagir. O moreno sabe o que é, lá no fundo. E vai comemorar o dia em que se disser negro. Ele vai. E a cidade, vai?

Marcos Aires, 19 anos, soldador. No intervalo do trabalho, ele declarou como vê sua pele: morena. (Foto: Moisés Sarraf)

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