Cidade das águas

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Entre a falta de estrutura e a recente elitização da orla de Belém, vive uma população que sofre com um planejamento urbano mal feito desde a colonização.

Pare um momento e pense em um local cuja foto possa ser utilizada como uma imagem ilustrativa de Belém. Provavelmente, você pensou nos tradicionais cartões postais da cidade, como o Ver-o-Peso, o Forte do Presépio, ou até mesmo a Estação das Docas – todos com aquele charme característico de sua vista privilegiada ao rio. Bonito, não?

Agora, pense nos pontos da cidade que fazem parte do seu cotidiano. Aquilo que você enxerga pela janela de casa, ou no trajeto até o trabalho. Provavelmente, você pensou em asfalto, cimento, piçarra, ônibus e concreto. Água? Só se for a fétida que corre pelos canais ou a barrenta que bate abaixo das casas sobre palafitas.

As imagens de Belém mundialmente conhecidas, aquelas que estão nos principais trajetos turísticos, são de cenários à beira do rio Guamá ou da baía do Guajará. Mas a realidade é que toda a construção da capital paraense foi feita dando as costas para sua orla, renegando a importância e as possibilidades que ofertavam as águas presentes na região. Durante seu crescimento, a população buscou a terra firme, deixando para trás não somente a beira do rio, mas toda a população que vive e depende desses locais.

“(…)a realidade é que toda a construção
da capital paraense foi feita dando as costas para sua orla, renegando a
importância e as possibilidades que ofertavam as águas presentes na
região”
As imagens de cartões postais não correspondem a realidade de uma cidade que cresceu de costas para o rio

CRESCIMENTO PROBLEMÁTICO

Belém não é uma ilha, mas parecia uma. Localizada no meio da bacia fluvial amazônica, a cidade é banhada pelo Rio Guamá e pela Baía do Guajará, além de ser cortada por diversos furos, braços de rios e igarapés. Água por todos os lados. Ou pelo menos era assim 400 anos atrás, quando Castelo Branco chegou por essas terras. “Belém começou na beira do rio, em áreas de várzea, alagadas, cortadas por igarapés. Era cheia de pontes, como se fossem pequenas ilhotas separadas. Era normal que se procurasse um ponto mais estável para a criação de moradia, então já naquela época, foram privilegiadas as áreas altas e secas, e a várzea deixada de lado”, afirma o urbanista José Sales.

Esse modo de crescimento urbano foi a regra para a região nos anos seguintes. A medida que a área era tomada por colonizadores, novas construções e casas era erguidas, sempre buscando as terras menos alagadas e mais próximas do continente. As beiras dos rios acabaram sendo ocupadas por pequenos grupos de colonos e nativos que não conseguiam se estabelecer no resto da cidade.

“A situação era assim até o primeiro salto de crescimento da Amazônia, no período até parte do século XVIII. Quando a atenção sobre a região cresceu e Belém começou a inchar, a logística da época considerou melhor aterrar os igarapés do terreno para a construção de vias largas. Isso seguiu como regra nos governos seguintes, principalmente no período do Antônio Lemos. Ele que aterrou toda a Pedreira e o Marco”, continuou José. “Foi um erro crucial na história de Belém”, avalia.

“Assim se criou essa realidade
absurda que Belém vive. Há uma grande população vivendo nas várzeas, em
casa sem infraestrutura, água encanada ou tratamento de esgoto.”


Como em quase todo crescimento demográfico da história, o aumento da populacional resultou também no aumento da população mais pobre. Sem espaço nas áreas próximas ao continente, essa parcela precisou se estabelecer nas áreas mais afastadas, longe dos centros urbanos e da especulação imobiliária que havia no entorno. Assim, ocupavam as várzeas e terrenos alagados, em sua maioria construindo casas sobre palafitas. Feitas de forma improvisada, as moradias dessa áreas ficaram a parte das políticas públicas de ocupação.

“Assim se criou essa realidade absurda que Belém vive. Há uma grande população vivendo nas várzeas, em casa sem infraestrutura, água encanada ou tratamento de esgoto. Com o aterro dos igarapés, não há uma via de navegação na capital, então os moradores ficam isolados fisicamente, socialmente e economicamente”, continua o urbanista.


Desde o inicio da colonização a várzea era lugar de gente pobre

GENTRIFICAÇÃO

Gentrificação é um termo que pode ser definido como o fenômeno de urbanização de um espaço periférico que altera a dinâmica da área, com a valorização do espaço em prol de uma elite, afetando a população de baixa renda. Uma prática cada vez mais comum em Belém.

“O Portal vai virar um local similar à Doca. Um igarapé aterrado que virou símbolo da elite da cidade.”


“Existe toda uma lógica de capital nisso. Você tem um espaço de várzea, sem condições de habitação, mas com uma bela vista. Se você melhorar esse terreno, vai atrair a atenção das classes mais ricas. Mas aí não dá pra ficar com a população pobre do lado, que não vai consumir esse espaço. O Portal da Amazônia está ai”, aponta José Sales

O local, criado como uma janela turística para o Rio Guamá em meio à periferia do Jurunas, é uma obra envolta em polêmica. “Essas obras não são para os moradores da periferia, assim como a Estação das Docas não serviu a ninguém que frequentava a Escadinha. A obra retira as famílias pobres de lá, e agora quer construir condomínios de elite na região. Uma especulação imobiliária que o morador da periferia não pode combater”.

Em 2011, o Ministério Público do Pará, a Advocacia Geral da União e o Ministério Público Federal chegaram a entrar com um pedido na Justiça para suspender a construção de condomínios, que eram realizados sem estudos de impacto ambiental e de vizinhança. Entre os pontos levantados pelos órgãos, estão o fato das edificações no local poderem comprometer a ventilação da região, aumentando a temperatura no centro da cidade, a incapacidade do terreno em suportar a quantidade de dejetos produzidos em imóveis verticalizados, que despejados sem o tratamento adequando, poderiam resultar na morte do estuário do local.

“Acredito que, no decorrer dos anos, o Portal vai virar um local similar à Doca. Um igarapé aterrado que virou símbolo da elite da cidade. A própria Macrodrenagem do Una resultou na especulação imobiliária da região, desabrigando famílias mais pobres. Em um ponto privilegiado como o Portal, não vejo por que isso não se repetiria”, alertou o urbanista.

DOS CANAIS ÀS ILHAS

“Belém tem esse formato muito curioso.  Estás andando por uma rua de asfalta, toda bonita, ai vira na esquina e dá de cara com uma casa de palafita sobre o canal, no meio do mato alto. Fica bem do lado da área bacana. Mas, no canal, é moradia de pobre”. O entendimento do comerciante Mário Silva, de 54 anos, sobre a capital paraense é baseada na experiência de vida. “Não sou estudado. O que sei eu vivi, com o meu trabalho e minha família. Belém não é fácil pra quem mora por aqui”.

Crescido no bairro do Telégrafo, Mário trabalhou com o pai desde jovem revendendo açaí que parentes traziam de ilhas próximas da capital. Ele conta que viu os anos passarem entre viagens de barco, moradias sobre palafitas e portos de Belém.

“Não posso te dizer que mudou muito, não. Só que ficou mais cheio e mais sujo. Tem esses locais bonitões, tipo aquele negócio pro Arsenal (Portal da Amazônia), mas isso é pra turista. A realidade no Porto da Palha, no Jurunas, no Barreiro, é que tá tudo sucateado, uma bagunça”, afirma.
 

Hilton Barbosa faz da falta de estrutura nas ilhas seu negócio, vende 40 garrafões de água mineral por dia


E parece ser mesmo. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Pará aponta que apenas 4,23% da área ocupada da orla de Belém é utilizada exclusivamente como habitação. O uso industrial da orla fica em cerca de 12%, e o uso comercial em 34%, além de pequenas porcentagens ocupadas por feiras, restaurantes e portos. Entretanto, 33% da área pode ser caracterizada como um misto de todas essas atividades, coincidindo no mesmo espaço.

“Lembrando aqui, antes era melhor, na verdade. A gente pescava no meio da cidade. Agora só tendo sorte e coragem”, relembra Mário. Segundo um levantamento de 2012, feito também pela UFPA, Belém é atualmente cortada por 68 canais. Nenhum deles, entretanto, possuí condições de navegabilidade, sendo rasos e poluídos.

“Os igarapés eram meios de sustento, lazer, locomoção. Havia uma identidade entre a população e esses espaços, que foi completamente perdida. O crescimento urbano sem planejamento adequado para esses terrenos, a falta de saneamento e o aterramento dos furos acabou podando qualquer viabilidade dos canais. Nem como forma de escoar água das chuvas eles servem”, afirma José  Sales.

A situação é similar nas ilhas que compõem a capital paraense. Segundo o plano diretor da cidade, Belém é composta por 39 ilhas, que correspondem à 65% do território total do município. Entretanto – ou talvez de forma presumível, a situação de quem vive atravessando a baía parece pior.

“Na maioria das comunidades não há qualquer forma de saneamento mesmo. É uma comunidade do interior no meio da capital do Estado. Em muitas nem luz há. É um isolamento bastante complicado, quando você percebe tudo que essa região representa. Aquela velha história, do cara que mora em cima do rio, mas não tem água para beber”, continuou o urbanista.

O senhor Hilton Barbosa, de 44 anos, vende água por toda a região das ilhas. Ele trabalha em sociedade com seu padastro, o senhor Wilson de Souza, que trabalha no ramo há 18 anos. Os dois vendem um garrafão com 20 litros a R$ 2,50. A água é retirada de um poço artesiano no município de Santa Maria. Segundo Hilton, ele vende 40 garrafões, que ele também chama de “carote”, por dia em todas as 39 ilhas que fazem parte de Belém.

Para o vendedor, a água é mais limpa do que a água encanada vendida em Belém. Ele afirma que o poder público já tentou desenvolver projetos para distribuir água encanada pelas ilhas, mas a qualidade do líquido era ruim, amarelada. “Já tentaram colocar água aqui, mas ela não presta. Por isso é que eles não pararam de comprar da gente. A água que a gente vende é pura, vem direto da fonte”, conta. Dona Margarida Alves Correa Gouveia, comerciante da Ilha do Combu, afirma que, para beber, precisa comprar até cinco baldes por semana.

Em uma analise final da situação, o urbanista José Sales aponta uma possível solução. “A construção urbana ideal para Belém era não o aterramento, mas o investimento em canais de navegação nos igarapés, como em Veneza. Faz muito mais sentido para a realidade daqui”, finaliza ele.

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