O chifre da cidade

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Como presente para Belém, a Prefeitura inaugurou um monumento onde antes dormiam moradores de rua. Autoridades civis e religiosas foram aplaudir. Qual o significado?      
Já viste o chifre do prefeito? Está lá na casa dos cheira-cola, na praça dos Estivadores, conhece? Eu não entendi nada. No dia do tal aniversário de Belém, que foi aquela palhaçada de todo ano, com o povo todo se batendo por um pedaço de bolo, o prefeito veio pra cá pra inaugurar o monumento. Eles disseram que era uma homenagem ao barco do fundador de Belém, o Francisco Caldeira Castelo Branco. É tipo uma homenagem ao cocô do cavalo do bandido. Mas sabe o que eu vi? Um chifre. Agora tem que saber uma coisa: o chifre é do prefeito ou do Castelo Branco?

Eu fico besta pra esse pessoal: ah, o Castelo Branco é isso e aquilo, é conquistador, navegador, dono de todas essas terras: é Deus no céu e o Castelo Branco em Belém. Parece que só tinha bicho aqui. Mas tinha gente, rapaz! E muita. Presta atenção: o cara chegou, disse que a terra era de Portugal, matou um monte de índio. Aí, como ele era essa limpeza, se meteu numa briga, foi expulso daqui, morreu preso em Portugal. Sabe o que ele vira? Herói! Um grande homem. Visionário! Pode isso? Aqui pode. Pode tudo!
 


O dinheiro que a prefeitura gastou com essa belezura aí, pra não dizer o contrário, o Zenaldo bem que podia ter investido em tratamento pra usuários de drogas dessa praça. Todo o tempo é cheio de viciado, roubando, morrendo, fazendo tudo o que não presta. Mas tu sabes quantas clínicas públicas tem pra esse povo? Nenhuma. Rapaz, o pessoal não está lá por que quer, crack é doença. Isso eu sei porque minha banca ficava bem lá. O tempo que o bispo fica puxando o saco desse pessoal, ele podia era arrumar dinheiro pra uma clínica. Depois, ele fica puto quando dizem que no tempo do dom Orani era melhor…
 
“Aí me responde: e os viciados que estavam por aqui? Foram pra onde? Foram tudo pra Manassés, pra Vasos de Honra? Claro que não. Continuam por aí, jogados pela vida.”

Mas vão dizer: ah, mas fizeram um tal de Boulevart aqui, é que tem que ocupar essas praças. Não, tudo bem. Teve festa, show, teatro e tudo. O outro lá, que quer ser secretário de cultura, apareceu bem na foto. Foi pra um monte de gente branca, mas foi. Aí me responde: e os viciados que estavam por aqui? Foram pra onde? Foram tudo pra Manassés, pra Vasos de Honra? Claro que não. Continuam por aí, jogados pela vida. Não adianta querer transformar isso aqui de novo no Passeio Público do Antonio Lemos. Avisa pro pessoal aí: a Belle Époque acabou! Superem. Eu fico com o que pessoal diz aí no Veropa: pra um prefeito traíra, só uma cidade chifruda!









A cama de papelão é um incômodo sinal 
de resistência ao projeto de higienização 
social da praça.

Foto: Kleyton Silva
Ilustração: Marri Smith

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