Cabanagem

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram
O Memorial da Cabanagem foi inaugurado em 1985 em Belém como uma homenagem ao cabano anônimo do movimento político amazônico. Mas a quem servem as homenagens?         
 
Longe de mim mexer com as coisas de quem já foi pra cima, que nem o Oscar Niemeyer, que Deus o tenha, porque ele é praticamente o pai da capital desse país. Longe de mim! Mas eu me passo praquele monumento que tem lá no Entroncamento que eu só fui olhar de verdade quando fizeram aquela obra pra desafogar o trânsito e amarraram ainda mais o trânsito por não sei quantos anos. Foi mais ou menos nesse tempo que eu peguei uma dessas revistas, dessas que não vende na banca, sabe? Mas que recebe patrocínio do governo pra fazer propaganda e fica mofando em consultório.

Pois então. A revista dizia por que o monumento é bonito, elegante e importante pra cidade, como tem que cultuar a memória e os fatos realizados por grandes homens no passado. Tudo assim, bem explicado. Vocês sabem que teve a Cabanagem em Belém, em Cametá, Manaus e tudo, não é? A Cabanagem foi uma guerra civil, assim eu penso. Mas já chamaram de coisa de anarquista, já meteram negócio de luta de classes na história e agora ela é essa coisa linda, uma revolução legítima. A materialização das ânsias do povo. Um modelo! Tudo bem, já disseram mesmo, mas eu acho que não é por aí.

Mas se era um monumento pra homenagear o cabano anônimo, por que dentro do monumento tem os restos mortais dos medalhões?

Mais ou menos quando a Cabanagem ganhou essa fama de revolução do povo, que um menino novo resolveu homenagear. Homenagear ele mesmo. E, em 1985, quando a Cabanagem fazia 150 anos, exatamente no dia em que os cabanos invadiram Belém, que o Jader Fontenele Barbalho, o famoso Jarde, inaugurou o Memorial à Cabanagem. E foi aquela festa, imagina, discurso, balão! Coisa de gente que sabe das coisas! E o Jarde é bom de festa e bom de papo (furado).

Mas se era um monumento pra homenagear o cabano anônimo, aquele legítimo paraense pai d’égua que num esmorece frente às adversidades e que toma muito açaí com charque e peixe frito, por que dentro do monumento tem os restos mortais dos medalhões, o Batista Campos, o Eduardo Angelim, por exemplo? Lá dentro tem um vitral, tem até uma lágrima de cristal, que significa a dor de todo o povo paraense dessas terras sem fim pela morte de seus líderes. Está sentindo isso? É a tal da dor!

O Memorial: uma homenagem ou apenas mais um local de exclusão social?

Eu bem que podia agora dar uma de enjoado que reclama de tudo. Ia dizer que é um monumento inútil. Que só serve pra empatar ainda mais o trânsito do Entroncamento. Elefante branco, projeto no papel, um vice-prefeito! Mas não. Lembrei que todo dia tem é muita gente na entrada do memorial. É uma gente esfarrapada. É um pessoal sem eira nem beira. Uns homens velhos magros, umas mulheres buchudas. Uma gente sem perspectiva. São como os cabanos de ontem, só que esses de hoje são viciados em crack.
Ilustração: Marri Smith

Continue lendo...

Mangueirão

O Mangueirão é um grande personagem da história do futebol paraense. Não há torcedor que não guarde uma memória do estádio. O problema é o

Ver-o-Peso

Belém discute a nova reforma do Ver-o-Peso. Mas, assim como no passado, trabalhadores e população questionam o projeto para o local, e se perguntam se

Maria Fumaça

A Estrada de Ferro Belém-Bragança foi uma importante via de transporte para muitos municípios paraenses. Hoje, além de construções antigas, o que restou dessa história

Transporte Fluvial

O transporte fluvial público em Belém não é um tema recente. A diferença é que no passado os projetos não eram tão ineficientes como agora.