Projeto EJA

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Trabalhar durante o dia e estudar a noite, essa é a realidade de mais de 200 mil pessoas que dependem da Educação para Jovens e Adultos no Estado. São milhares de histórias que estão prestes a ser dificultadas pelo projeto de reorganização proposto pela Seduc. 

Entre 2007 e 2011, o Pará perdeu 5,20% das matrículas da modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), segundo comparativo do Ministério da Educação. O Estado possuía 272.230 mil alunos em 2007 e fechou 2011 com 257.955 mil matriculados. Essa diminuição nas matriculas é usada como justificativa para um reordenamento e fechamento de turmas previstos pela Secretaria de Educação do Estado do Pará (SEDUC). “Temos indicativo do fechamento das turmas de terceira etapa, 5º e 6º séries, este ano, e para o ano que vem as de quarta etapa, o que encerraria o EJA aqui na Costa e Silva”, contou Uruguacema Pereira, vice-diretora da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Presidente Costa e Silva.

A diminuição nas matriculas é usada
como justificativa para um reordenamento e fechamento de turmas
previstos pela Secretaria de Educação do Estado do Pará (SEDUC)


Segundo dados do Ministério de Educação (MEC), aproximadamente 15% da população brasileira entre 15 e 17 anos estão fora da sala de aula. O restante, que está matriculado, em sua maioria estuda em séries que não condizem com a idade, ou seja, são considerados repetentes. Estes adolescentes, caso não cumpram o rendimento estipulado, são encaminhados para turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), que têm o papel de acelerar o processo de educação para que o déficit de formação seja sanado.

A escola Costa e Silva, situada na avenida Almirante Barroso, trabalha com a Educação de Jovens e Adultos há mais de 20 anos e, segundo o site da instituição, possui 240 alunos matriculados nesta modalidade. “Por se tratar de uma unidade localizada em um corredor urbano e próxima à entrada da cidade, atendemos uma grande quantidade de alunos de bairros como Águas Lindas, Marambaia e até de Ananindeua, que com certeza ficarão prejudicados com o remanejamento para escolas mais distantes”, afirmou o professor Adelmo Rosa, se referindo às turmas indicadas para serão encerradas.


Professor de Matemática, Adelmo Rosa está prestes a ver o trabalho 
de uma vida inteira ser encerrado  (Foto: Rafael Monteiro)


Segundo ele, outra grande preocupação é com os alunos da Educação Inclusiva. “As turmas de EJA daqui são referência para alunos que possuem alguma deficiência ou dificuldade de aprendizado. Nós somos pioneiros nesse processo de inclusão e agora todo esse trabalho pode se perder”, explicou o professor.

Apesar do corpo docente estar convencido de que o projeto da Seduc será prejudicial aos alunos, o assunto ainda divide opiniões dentro de sala de aula. “Eles não vão acabar com a EJA, vão apenas juntar as turmas em outros colégios para economizar. Acho que estão certos em fazer isso”, afirmou uma das alunas da terceira etapa, que não quis se identificar.

“Vai ficar mais difícil continuar estudando se nos colocarem em escolas mais longe. Eu trabalho o dia todo e estudo à noite. Moro em Águas Lindas e tem dias que é complicado vir para aula por causa da distância. Imagina se me botarem em um colégio no centro, por exemplo?”, falou João Costa, 39, também aluno da terceira etapa. A Secretaria do Estado ainda não divulgou a quantidade de turmas que serão remanejadas, nem para onde, mas os alunos dessa modalidade já convivem com o fantasma do fechamento de turmas desde ano passado.


O aluno João Costa teme ter que fazer mais sacrifícios para se formar. (Foto: Rafael Monteiro)


De fala calma e tom de voz baixo, Heleno Leal, 38, é considerado por seus ex-professores um exemplo de sucesso através do estudo. Ele é ex-aluno da EJA. Ele sabe como se formam os sonhos e como, às vezes, por falta de oportunidades, eles morrem. Para ele, o clichê “a união faz a força” é verdadeiro e necessário quando se trata de realidades como a do bairro da Agulha, em Icoaraci. Em entrevista ao portal Outros400, ele diz que faltam políticas públicas. E diminuir a EJA é acabar com as poucas oportunidades que ainda restam.

Portal Outros400: Heleno, como foi sua formação?

Heleno Leal: Eu concluí o ensino fundamental na Escola Municipal de Ensino Fundamental Avertano Rocha, mais conhecida como Avertaninho, distrito de Icoaraci. Ingressei cursando a terceira etapa da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que é 5º e 6º séries, hoje 6º e 7º ano. Antes da primeira avaliação, uma professora de Língua Portuguesa identificou que eu tinha uma escrita, desenvolvimento e também uma produção de textos muito boa. Com isso, ela percebeu que se eu permanecesse o ano inteiro fazendo 5º e 6º séries, isso iria atrasar muito meu desenvolvimento. Então, ela reuniu com o diretor da escola e com o conselho escolar. Eles decidiram fazer uma progressão da 3º etapa para a 4º etapa, que é 7º e 8º série. Portanto, dentro de um ano eu fiz a 5º, 6º, 7º e 8º série do Ensino Fundamental. Concluído isso, fui transferido automaticamente para Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Coronel Sarmento, também no distrito de Icoaraci. Lá eu dei continuidade à Educação de Jovens e Adultos. No primeiro ano, eu cursei o primeiro e segundo anos do Ensino Médio. No posterior eu cursei somente o terceiro ano.

Portal Outros400: Por que você optou pela EJA?

Heleno Leal: Eu comecei a estudar com sete anos. Fiz da primeira à quarta série, não repeti nenhum ano. Dai fui transferido para outra escola e aí, por incrível que pareça, eu fiquei basicamente cinco anos sem concluir a 5º série. Foi uma adolescência bastante complicada. Onde eu morava, existiam muitas gangues, sendo que naquela época as brigas eram mais acirradas. Depois de cinco anos repetindo, eu parei de estudar e fiquei mais de cinco anos fora da escola. Porém, um dia, já trabalhando, percebi a necessidade de estudar. Porque para conseguir um trabalho digno nesse país e ganhando melhor, é necessário estudar. Então eu voltei, já ingressando na EJA.


Heleno Leal, 38, é considerado por seus ex-professores um exemplo de sucesso através do estudo.
(Foto: Kleyton Silva)

Portal Outros400: E estrutura física das escolas que você estudou, como era?

Heleno Leal: A escola em que eu estudei já foi até desativada, por necessidade de se construir outro prédio. Na época, ela foi construída em cima de um córrego e, quando chovia, alagava toda. Então, foi desativada e reconstruída a partir da união dos próprios alunos, que lutaram pelo projeto através de um instrumento de participação popular, da época, que se chamava orçamento participativo. Nele, os alunos participavam de assembleias que eram feitas por microrregião, para colher as demandas da comunidade. Além disso, o diretor articulou para conquistar o terreno da nova escola, que foi construída em frente à antiga, mas na parte alta. Agora, o atual prédio fica a cinco metros de altura do teto da antiga escola, ou seja, a entrada de hoje começa onde ficava o teto da minha sala de aula. Assim você percebe o quanto era carente de investimento, e ainda é. Vemos que as politicas de governo não são suficientes.

Portal Outros400: Como você enxerga o EJA hoje?

Heleno Leal: A Educação de Jovens e Adultos é uma ferramenta importante para ajudar o trabalhador, não só o que trabalha com carteira assinada, mas aquele que vende chopp, coxinha, que é autônomo, mas sonha em ingressar numa universidade. A EJA é tão importante e precisa ser valorizada como política pública de Estado. Os investimentos para o projeto precisam ser vistos com prioridade pois é uma ferramenta que tira o trabalhador da margem, o tira de uma situação em que ele precisa evoluir culturalmente, precisa se encontrar. Lhe digo isso porque, no meu caso, foi na Educação de Jovens e Adultos que me encontrei e agradeço muito por isso, apesar de toda deficiência que se tinha de estrutura do prédio, dos professores que entrevam em greve, porque a sua remuneração é insuficiente para prestar um serviço de qualidade. Mesmo com tudo isso, foi um momento importante na minha vida.

(…)foi na Educação de Jovens e Adultos
que me encontrei e agradeço muito por isso, apesar de toda deficiência
que se tinha de estrutura(…)

Então, uma coisa que eu vejo é que precisa se ter uma política pública do Estado voltada para a valorização dos educadores. O que inclui uma atualização da remuneração, a aquisição de novos livros de acordo com a realidade, a questão de recursos audiovisuais e ainda a aquisição de equipamentos motivando facilitar o aprendizado principalmente daqueles que necessitam da educação especial, que têm alguma deficiência no aprendizado.  Então, o projeto da EJA é primordial no desenvolvimento do Estado. É uma forma de você olhar o trabalhador como sujeito que precisa construir uma história digna, buscar nova condição social. Claro que ainda tem muito a melhorar, mas é uma forma de se construir um futuro na vida daquele que necessita estudar, principalmente daqueles que não têm tempo de estudar no ensino regular durante o dia. O estudo à noite é cansativo, mas, ao mesmo tempo, ele é satisfatório. Você tem certeza que ali você vai ter um diploma de conclusão do ensino médio e pode até ter a possibilidade de ingressar na universidade.

Portal Outros400: E você continua os estudos? Como foi o desenrolar da sua vida depois da EJA?

Heleno Leal: Eu concluí o médio em 2005. De 2006 até 2009 eu fiz um curso de graduação em bacharel em Teologia. Final de 2009, eu fiz uma prova da Universidade da Amazônia (Unama), e fui aprovado no curso de Direito, porém só cursei um semestre, e parei de estudar até o segundo semestre de 2012, porque nesse período passei por um momento financeiramente difícil, fiquei desempregado e passei a vender chopp para poder sustentar minha família.

Saía de casa às 7h da manhã pra vender chopp e voltava meio dia, sendo que às 14h tinha que estar em sala de aula, ou seja, chegava sempre atrasado porque tinha que sair do Curuçambá para Senador Lemos nesse tempo. Mesmo com todas essas dificuldades terminei o primeiro semestre do curso. Depois a situação apertou mais ainda e precisei ficar mais dois anos fora da faculdade, até que consegui um financiamento de 100%, voltei a estudar de novo, já Faculdade Maurício Nassau. Hoje, estou a um semestre de me formar em um curso que foi meu sonho desde os 10 anos de idade. 

Estudar e ter uma profissão são sonhos que a gente planta dentro do coração(…)

Estudar e ter uma profissão são sonhos que a gente planta dentro do coração, e mesmo vindo de um bairro chamado Agulha, da comunidade da Baixada Fluminense, em Icoaraci, é preciso lembrar que lá existem pessoas que sonham mudar de vida. Eu estive no meio delas. Eu me formei lá mesmo, terminei o ensino fundamental, ensino médio e tudo no processo de Educação de Jovens e Adultos, em escola pública.


Portal Outros400: E a carreira profissional?

Heleno Leal:Hoje eu trabalho como assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). Entrei através de um processo de estágio na Área Jurídica. A pessoa que era minha chefa direta viu meu esforço como estagiário e me convidou para sua equipe de assessoria parlamentar. Ainda tenho muitos sonhos e estou construindo minha história. Acredito que não só eu que tenha alcançado isso, mas muita gente está lutando pra melhorar sua condição social através da EJA. Muitos colegas e amigos da minha turma também conseguiram, mas infelizmente uma grande parte não. Não é fácil ter que brigar a vida todo para superar todo tipo de adversidade.

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