Transporte Fluvial

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O transporte fluvial público em Belém não é um tema recente. A diferença é que no passado os projetos não eram tão ineficientes como agora.



Tem coisas que só aqui mesmo. Olha bem: esse é tipo de coisa que só a gente daqui mesmo pra aprontar. É que eu já vi de tudo por essas bandas — e não é pouca coisa. Já vi secretário proibir bar de vender cerveja. Já vi vereador impedir o público de entrar numa sessão pública. Já vi guarda de trânsito organizar a fila dupla em frente de escola. Já vi prefeito criar um serviço só pra a empresa dele executar. Já vi filho de empresário vestir roupa de cotista pra passar no vestibular. Já vi até polícia bater em romeiro. Resumindo: de tudo eu já vi, mas nem em tudo eu acredito. E porque eu já vi de tudo, hoje eu gostaria de dar meus parabéns. Vamo respeitar quem arrumou o barco de Icoaraci pro centro. Deu certo demais, pra não dizer o contrário.

Hoje tu olhas pra essa baía aí na frente e quase não tem barco, só umas rabetas do Combu, uns barquinhos cheios de açaí e uns navios do Marajó. Mas já teve barco em penca. E já teve transporte público entre Mosqueiro e Soure. Isso não é novidade pra ninguém. A gente saía lá do porto do Mosqueiro sem preocupação: todo mundo ia sentadinho, uma festança, a gente nem sentia quando jogava na baía. Tinham umas poltronas garbosas, cada uma com um cinzeiro, porque naquele tempo podia fumar até em UTI. A viagem não era demorada, muita gente ia passar final de semana nas praias. Isso tudo no navio Presidente Vargas, uma embarcação que era da chamada Frota Branca da Enasa, a Empresa de Navegação da Amazônia S/A. Coisa de primeiro mundo!

Essa Frota Branca da Enasa ainda tinha outros navios, o Lobo D’Almada, o Lauro Sodré e o Leopoldo Peres, que eu me lembro. E como o governo era quem bancava, porque era um serviço público mesmo, nem com toda essa pompa a passagem era cara

O bicho tinha sido construído em 1957, se não me engano, no estrangeiro, num estaleiro lá da Holanda, onde deram pra ele uns corredores grandes, um casco de aço e os quatro andares. Era bonito que só! Só não tinha espaço pra carga, era todo pra passageiro. Deixa eu te explicar: hoje, os barcos daqui andam numa velocidade de 12 nós, que é coisa de 22 km/h. O Presidente Vargas atravessa essa baíazona do Marajó que nem igarapé: ia a 25 nós, pouco mais de 46 km/h. Essa Frota Branca da Enasa ainda tinha outros navios, o Lobo D’Almada, o Lauro Sodré e o Leopoldo Peres, que eu me lembro. E como o governo era quem bancava, porque era um serviço público mesmo, nem com toda essa pompa a passagem era cara.

O usuário de transporte público em Belém não é a prioridade nos projetos mais recentes

Como era um serviço bom, que a população gostava, e de um préstimo imenso pro povo lá do Marajó, tinha que acabar. O navio Leopoldo Peres fazia linha Belém-Manaus. Numa das viagens, quando ele cortava o estreito de Breves, já lá do outro lado do Marajó, foi abalroado por um corveta, e afundou lá mesmo. Pessoal conta que até muito tempo depois encontravam mala e pedaço do barco boiando lá por perto. E teve mais: numa das viagens, o Presidente Vargas atracou em Soure, no Paracauari. Foi só o tempo do pessoal descer e, em 20 minutos, no trapiche mesmo, ele começou a fazer água pra não navegar mais: afundou na frente de Soure que eu vi. O negócio foi tão estranho que parecia calculado. Depois tentaram tirar ele do fundo e acabaram jogando de vez no canal do rio. O Augusto Montenegro se acabou no meio da lama num estaleiro lá de perto de Val-de-Cans. E o Lobo d’Almada e o Lauro Sodré se afogaram numa disputa judicial. Agora, sim, parece história daqui.

Agora me inventam um transporte de Icoaraci pra Belém como se fosse uma viagem pra Lua. Aí me cobram dez reais numa passagem: então, pra ir e voltar, eu ia ter que pagar vinte contos todo dia. Pode?

Desmontaram a Frota Branca. Foi meio que planejado, assim eu penso. Mas eu fui lá na puta-que-pariu pra contar outra história. É que agora me inventam um transporte de Icoaraci pra Belém como se fosse uma viagem pra Lua. Ah, mas não tem problema, pelo menos o pessoal está fazendo, o cabôco podia dizer. Aí me cobram dez reais numa passagem: então, pra ir e voltar, eu ia ter que pagar vinte contos todo dia. Pode? Não, é que é uma viagem experimental. Eu quero saber de viagem experimental? Aí anunciam que um dia na semana a viagem ia ser de graça. Imagina a quantidade de gente que vai dar? Aí, depois de tudo isso, acabam com a viagem e pronto. Tá bom pra ti? Eu só tenho uma resposta: numa segunda-feira de manhã, os funcionários chegam de ressaca na Semob. Aí juntaram a competência com a vontade de vomitar e pariram uma ideia: bora colocar um barco de algum lugar pra Belém? Mas ficaram sem qual seria o valor da passagem. Na dúvida, tasca-lhe uns dez reais. E por aí vai: o planejamento da mobilidade de Belém só pode ser feito numa segunda-feira de ressaca, com o ar-condicionado quebrado e salário atrasado. Porque, olha, não parece sério.

Ilustração: Marri Smith

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