Maria Fumaça

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A Estrada de Ferro Belém-Bragança foi uma importante via de transporte para muitos municípios paraenses. Hoje, além de construções antigas, o que restou dessa história é o desejo por projetos eficientes de mobilidade.
O que eu me passo é pro cinismo do pessoal, parece que ficaram tão, mas tão desacostumados com a vida normal que esqueceram a vergonha na cara dentro do banheiro. Dia desses, de passagem, eu vi que vão lançar um programa de turismo pela rota da estrada de ferro Belém-Bragança, com um banho de igarapé sujo no Apeú e uma ferrada de formiga tracuá em Tracuateua. Nessa nossa visita turística, a gente vai ver um monte de velharia com umas pinturas novas, um rapaz enjoado contando uma história do falado apogeu de glórias da estrada de ferro e um monte de gente sem saber o que a gente vai fazer lá. Vai ter, sim! Podia ser a rota “Estrada de Ferro Fantasma”.
A Caixa D´água da Estrada de Ferro localizada em Marituba convive com a paisagem de asfalto e excesso de carros
A Maria Fumaça era o jeito mais ligeiro pra ir embora pra tudo quanto era cidadezinha nessa região do Salgado – a gente ia de Belém pra Marituba, Castanhal, Igarapé-Açu, Capanema até chegar em Bragança. E ainda tinha o ramal do Pinheiro, que levava à Icoaraci, que eu cheguei a ir muitas vezes pra ver jogo do Pinheirense, ainda moleque, escondido no vagão. Mas já naquele tempo a gente sabia que aquilo não prestava mais, que o melhor mesmo era acabar com tudo, desativar a Maria Fumaça antes que o trem descarrilasse e ocorresse um acidente sério, numa daquelas viagens lotadas de gente. A gente ouvia os mais velhos dizendo que aquilo já tinha sido bom, que no início era até chique viajar de trem e isso e aquilo. Mas já no meu tempo os vagões eram mais enfeite que outra coisa. 
A Estrada de Ferro foi construída lá pelo final do XIX quando a locomotiva estava na moda e também porque aqui tinha uma boa demanda com as bolotas de seringa vindo daquelas bandas e os paneiros de tudo quanto é coisa – da farinha do Caeté aos hortifrutigranjeiros de Castanhal. Eram 222 quilômetros no todo, que foram sendo construídos de tempo em tempo. Dava pra fazer um estrago com ela. Da estação central de São Brás, a Maria Fumaça saía apitando por todo esse chão. Só de ramal, a gente podia ir ao Tapanã e ao Tenoné, até chegar em Icoaraci, naquele tempo conhecida como Pinheiro. Também tinha o ramal do Maguari. Isso tudo em Belém, fora o os ramais de Igarapé-Açu, por exemplo. E ia embora, de parada em parada, até o pessoal ouvir o apito da locomotiva em Bragança.

No lugar do trilho, socaram asfalto pra passar os pneus. E, umas décadas depois, o pessoal ficou enceguerado por carro. Todo mundo quer um.

O nome Entroncamento, que chamam agora onde fica o túnel, inclusive, tem esse nome porque era a junção das linhas e ramais: uma ia embora rumo à Bragança e, a outra, rumo à Icoaraci. Os trilhos, as locomotivas, vagões de carga e passageiros. Tudo era do governo do Estado. Passou, então, à União Federal, já lá por mil novecentos e trinta e tantos. E, na metade do século, é que formou a Rede Ferroviária do Brasil. Em toda região, além da Belém-Bragança, tinha também a ferrovia Tocantina, do Tucuruí, e a Madeira-Mamoré, lá de cima no Acre. Só que vieram as firmas de carro, os cinquenta anos em cinco e essa indústria nacional, e foram abandonando as ferrovias. No lugar do trilho, socaram asfalto pra passar os pneus. E, umas décadas depois, o pessoal ficou enceguerado por carro. Todo mundo quer um. Não sobra espaço pra gente, só pra carro. 

Eu fico olhando essa BR e a Augusto Montenegro hoje, que é onde era a ferrovia Belém-Bragança e o ramal do Pinheiro. Todo dia é aquele sufoco pra conseguir sair e chegar de casa. Parece coisa de doido: um monte de carros, um monte de ônibus, umas pistas estreitas. E quando tem feriado que nem carnaval? É aquele sofrimento, pessoal na tevê fala de não sei quantos quilômetros de engarrafamento, parece até que estão se gabando de tamanho feito. A gente não pode falar nada que, Deus te livre, é gente que só sabe falar mal e bocudo. Eu me pergunto: será que o governador não tem vergonha na cara de pegar esse inferno todo dia, da casa dele, ali pras bandas da João Paulo II, lá pra Augusto Montenegro, no palácio dos Despachos? Aí que me contaram: não, rapaz, o governador tem um gabinete no Comando da Polícia Militar, na Almirante Barroso, pertinho da casa dele. Aí sim. E outra: lá onde fica o terminal de ônibus de São Brás era onde ficava a estação central, que jogaram no chão. Eu nem me assusto mais.

Ilustração: Marri Smith

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