Reforma

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Os feirantes do Ver-o-peso não foram escutados sobre a reforma de seu local de trabalho, mas eles sabem bem o que querem. Segurança e limpeza estão no topo da lista. 

Apesar das opiniões divergentes sobre a reforma e como as reuniões foram conduzidas pela prefeitura de Belém, há um consenso entre os feirantes do Ver-o-Peso: eles não foram ouvidos. A prefeitura de Belém realizou votação, duas reuniões e apresentou um projeto de reforma do Ver-o-Peso sem a participação dos feirantes. Mas os trabalhadores – os maiores interessados – têm muitas sugestões. O portal Outros400 percorreu os setores do Veropa para listar algumas das principais demandas de mulheres e de homens que por lá passam todos os dias. Até agora, segundo eles, nenhum técnico ou servidor da prefeitura lhes perguntou sobre o que o espaço precisa. Uma reivindicação apareceu nos quatro setores visitados pela reportagem, serviço que não se presta com reformas físicas: segurança.


O vendedor Dalcir da Silva declara que as mudanças propostas indignaram os feirantes (Foto: Kleyton Silva)
 

Pela travessa Frutuoso Guimarães, próximo à grade de ferro que divide o Ver-o-Peso e a Estação das Docas, está o setor dos calçados. E, sentado no banco de madeira com o “A Lista de Schindler” nas mãos, o seu Dalcir da Silva, 30 anos vendendo sandálias de couro na feira, explica ponto a ponto o que lhe incomoda na atual proposta. “O prefeito está praticamente há quatro anos na prefeitura, mas só agora, no último ano, ele veio nos surpreender com uma reforma”, inicia o vendedor. “Na verdade, não é reforma. Ele quer destruir o que está construído para reerguer ao modo dele outro Ver-o-Peso. Isso é que está indignando os feirantes.” Segundo ele, até algumas semanas, tudo o que os feirantes sabiam vinha através da imprensa.
 
“Nunca teve uma conversa aqui. Agora na imprensa a mentira de que o feirante foi consultado. Não foi”.

“O feirante não foi consultado”, diz Dalcir. Segundo os feirantes, houve até agora duas audiências. A primeira foi no Memorial dos Povos, ainda em 2015. Na ocasião, ele conta, “quando o feirante foi tomando sentido das coisas, começou a reagir, eles [prefeitura] suspenderam a reunião”. Desde então, a última ocasião em que o projeto podia ser debatido, foi em fevereiro deste ano, na Estação das Docas. Antes disso, o projeto foi apresentado separadamente a cada setor do Ver-o-Peso. “Nunca teve uma conversa aqui. Agora na imprensa a mentira de que o feirante foi consultado. Não foi”, completa.
 
Perguntado sobre o que a feira realmente precisa, seu Dalcir prefere apontar o que ela não precisa. Para ele, a mudança do desenho da feira vai prejudicar o conjunto arquitetônico do qual o Veropa faz parte. “Porque a feira está construída dentro de um patamar que não prejudica a visão do casario e os prédios públicos”, explica. “E o que eles querem fazer suplanta tudo isso. É um telhadão que engloba tudo isso. Tira a vista de tudo. A gente não sabe exatamente as dimensões desse telhadão.” A reforma do setor de calçados, na opinião de Dalcir, deveria se resumir a “ajeitar as bancas, limpar ou trocar o lonado, se for o caso, e reformar a iluminação”.
 
HORTIFRUTEGRANJEIROS
 
Avançando em direção ao forte do Presépio, há muitas ideias para a reforma. No setor das refeições, uma unanimidade: a quentura. A feirante Maria do Socorro, que vai fazer “cinquentinha no próximo sábado”, diz que o “box é um forno, esquenta demais”. “Com a licença da palavra, tem vezes que seria melhor ficar despida, porque é muito quente. O pessoal não quer almoçar porque é muito quente”, completa a feirante, ao lado de seu ventilador de mesa. Para ela, uma forma de amenizar o calor seria levantando a cobertura tensionada. “Aqui nesse setor ainda fica mais quente por causa dos fogões. A gente procura não ter quentura, mas não tem condições. No verão, mano, só sabe quem vive aqui.”

“No meu projeto, o prefeito devia fazer isso, quatro portas de entrada e quatro de saída. O que acontecesse dentro da feira, a gente tinha como resolver.”
 
Mas dona Maria lembrou: segurança. Essa é uma demanda importante. “Segurança não tem”, completa ela, dizendo que, pela idade, “se fosse aposentar, já estava aposentada”. “É uma coisa esquisita. As pessoas ficam metendo a mão no prato do outro. A gente não tem uma segurança, uma coisa que a gente precisa ter”, completa a feirante, ressaltando que objetos como panelas e pratos só não foram roubados porque a vizinha do box da frente trabalha 24 horas e repara as outras. Para a segurança, a feirante tem sugestões: apenas oito entradas na feira. “No meu projeto, o prefeito devia fazer isso, quatro portas de entrada e quatro de saída. O que acontecesse dentro da feira, a gente tinha como resolver.”
Dona Rosaly de Fátima afirma que o calor, a falta de limpeza e de segurança são problemas graves (Foto: Kleyton Silva)

“A gente procura policiamento, policiamento só chega depois de acabado”, lamenta a dona Maria. A frase ecoa nos setores do Ver-o-Peso. Mais à frente, desta vez no setor de castanhas, dona Rosely de Fátima, 55 anos, 20 de feira. “Eu falei tudo no dia em que eu fui votar: limpeza e segurança. Precisa de uma pia pra nós. A gente tem que ir lá em cima pegar água para colocar nossa castanha de molho”, explica, apontando para os baldes debaixo da bica com água que será utilizada nos trabalhos diários. A quentura é problema pra ela também. “Tem que trocar essa coberta. Tem que ser uma telha, outra coisa melhor, que não esquente.” Ela ainda diz que as estruturas das barracas têm de ser trocadas e segurança porque hoje ela “trabalha pela misericórdia de Deus”.
 

No segundo pavimento, de frente para a baía do Guajará, há outras demandas e, quem sabe, uma das soluções para o calor dos demais boxes. Na parte de cima, ficam os setores dos bares, da maniva, do artesanato e das polpas e sucos. Mas, antes, há muita reclamação sobre a condução da reforma até agora. “Nossa barraca, hoje, tem 2,5 por 4 metros. Querem diminuir pra 2,65 por 2,65 metros”, introduz o feirante Flávio Júnior, 38, no setor de artesanato. “Fizeram um projeto, na verdade, como se fosse a baiuca de antigamente. Vai ser só uma janela de frente pro rio, um balcão e uma entrada”, criticou o feirante. “Já imaginou eu expondo minha mercadoria aqui nesse balcão esse pouco e o resto tudo lá atrás?” Para ele, o projeto é bonito, mas não houve consulta, “não vieram nem aqui olhar”.
 
O setor do artesanato, assim como o dos bares, da maniva e dos sucos, fica sobre uma plataforma. O atual projeto prevê que ela seja colocada no mesmo patamar do restante da feira

Ele e outros feirantes do setor fizeram, por conta própria, uma maquete da barraca que eles consideram a mais funcional para o modelo de vendas deles, entregue aos técnicos no dia da apresentação do projeto. O setor do artesanato, assim como o dos bares, da maniva e dos sucos, fica sobre uma plataforma. O atual projeto prevê que ela seja colocada no mesmo patamar do restante da feira para fazer o vento circular. Essa mudança eles aprovam. “Esse piso será rebaixado. Desde lá da Estação das Doca até aqui vai ser num só nível. Porque circula pouco vento. Isso realmente é verdade”, diz Flávio Júnior.
 
Mas a mudança chama a atenção para um detalhe: espaço. E espaço no centro de Belém, no meio do maior cartão-postal da cidade, é valioso. Isso porque com o rebaixamento a escada deixará de existir, criando vagas, que poderiam ser ocupadas por novas barracas. Uma teoria que é reforçada com a diminuição dos boxes em todo o Ver-o-Peso. O espaço, também, poderia ser ocupado por outros empreendimentos além de boxes para feirantes. Como o projeto ainda não foi apresentado, são vários os rumores que correm pelo mercado. Além disso, há rumores sobre taxas. “Já disseram que tudo vai ser pago, água e energia. Hoje não pagamos. É uma coisa surreal, dizem que vão usar água da chuva”, critica Paula Sousa, 40.

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