Controvérsias

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As mudanças propostas pela Prefeitura para o Ver-o-Peso provocam manifestações de especialistas. Para muitos, o projeto reflete uma concepção errônea sobre o local.

A troca das atuais coberturas de lona por telhas termoacústicas onduladas está entre as principais controvérsias do projeto de reforma do Ver-o-Peso. A ideia, apresentada no projeto básico disponibilizado para consulta pública, é dispor assimetricamente as telhas para permitir passagem de ventilação e iluminação no desencontro das ondas. Contudo, para Dorotéa de Lima, superintendente do Iphan no Pará, “A cobertura proposta tem um impacto formal, de escala e proporção, que precisa ser reavaliado”.
Flávio Ferreira, arquiteto do projeto anterior,  acredita que materiais duros e opacos não são apropriados para o Ver-o-Peso (Foto: Divulgação)

O arquiteto carioca Flavio Ferreira, um dos responsáveis pelo projeto implantado na feira na virada do século, contou, por e-mail, suas impressões sobre a mudança na cobertura: “Soube que o projeto de agora propõe coberturas duras e opacas para a feira do Ver-o-Peso. O resultado é diametralmente oposto ao nosso projeto leve e translúcido. Esta fluidez estabelece o contraponto às edificações históricas, sólidas. A leveza e a aparente transitoriedade respeitam e realçam estes monumentos tombados, sem interromper a relação entre a baía e os belos edifícios.”
 
Mais do que uma questão meramente arquitetônica, os dois modelos de cobertura simbolizam percepções diferentes sobre o que é o Ver-o-Peso. José Freire, um dos arquitetos fundadores da DPJ Arquitetura e Engenharia, empresa que assina o projeto de intervenção em debate, não caracteriza o Ver-o-Peso como feira. “O Ver-o-Peso é tudo menos uma feira. Vai no código de postura de Belém e lê o que é uma feira livre. Se tu leres, vais ver: o Ver-o-Peso não é feira. O Ver-o-Peso é tão importante que não é feira”, garante o arquiteto.

Freire complementa: “Feira sempre foi aquele local que os comerciantes chegam de manhã, arrumam as barracas, colocam as lonas, vendem e, no fim do dia, desarrumam e vão embora. Isso é feira. O Ver-o-Peso, no começo, há 300 anos, foi feira. Mas antes dessa cobertura de lona, o Ver-o-Peso era coberto de telha e os equipamentos já eram fixos.” Na leitura do arquiteto, a estrutura fixa de box e cobertura é condição absoluta para desconsiderar o Ver-o-Peso como feira, afinal, uma feira é geralmente transitória.
O presidente do IAB Pará, Sávio Fernandes, também parte desse entendimento. “As feiras livres são temporárias. Quando você tem algo fixo, corre o risco de não ter mais uma feira e sim um mercado. É o que a gente encontra na Feira da 25. Ela não é mais uma feira, ela é um mercado”, exemplifica. Para ele, dependendo de como for feito, o projeto arquitetônico pode ser a peça-chave para manter a classificação de feira mesmo para um espaço permanente como o Ver-o-Peso.
 
“O uso da tenda é uma maneira de conformar uma cobertura que é permanente, mas que carrega elementos de uma temporariedade que levam a garantir a denominação de feira livre para aquele espaço. Quando você coloca uma cobertura muito extensa e rígida, você tem uma conformação de mercado. Corre-se o risco de o Ver-o-Peso perder o título de maior feira livre da América Latina”, avalia o presidente do IAB Pará.
 
Soluções e problemas

Alterar a cobertura foi a única exigência feita à DPJ. “A prefeitura pediu apenas que se fizesse um projeto sem usar lona”, conta José Freire. A alternativa proposta busca solucionar especialmente a dificuldade de ventilação apontada pelos feirantes. “Com base em uma pesquisa feita pela prefeitura, mais de 80% dos permissionários reclamaram do calor por conta da lona, e reclamaram também do estado dela”, diz o arquiteto. As lonas, que tinham vida útil de seis anos, nunca foram trocadas.

“A gente tem uma rua só, em Belém, que vai de orla a orla. Interromper a Padre Eutíquio com aquela cobertura imensa, já é uma pista de que você não conseguiu inserir questões do tecido urbano no projeto”
 
Por um lado, a cobertura com telhas garante iluminação e ventilação zenital e é de mais fácil manutenção se comparada com a de lona, por outro, traz problemas por conta da rigidez e por ser muito extensa, sobrando um respiro pequeno de área aberta. É também um ponto negativo ela não dialogar com o entorno. “A gente tem uma rua só, em Belém, que vai de orla a orla. É a Padre Eutíquio. Então, interromper a Padre Eutíquio com aquela cobertura imensa, já é uma pista de que você não conseguiu inserir questões do tecido urbano no projeto. É um projeto que não considera questões de entorno”, considera o presidente do IAB.
 
Sávio Fernandes questiona se as venezianas translúcidas previstas nas laterais das telhas para entrada de luz e vento são a melhor opção, já que precisam de manutenção. “E manutenção é algo que a gente não vê naquela área, ou não teria chegado no estado em que está”, comenta. Ele também vê com ressalvas o jardim interno que o projeto apresenta, considerando que o espaço rapidamente seria reapropriado para outras funções. O presidente do IAB Pará aponta, por outro lado, pontos positivos no projeto, como a incorporação das demandas da vigilância sanitária, as soluções de recolha de água e o estudo de fluxo.
 
Ao ser perguntado sobre como melhorar as condições da feira hoje, Flavio Ferreira responde em poucas palavras: “Mais manutenção e menos demolição”.

O diagnóstico da DPJ identificou muitos problemas na feira que precisam ser resolvidos. “Foi encontrada uma situação danosa. Os permissionários reclamam e têm toda razão. Tinham equipamentos quebrados, o piso todo afundado. Quando chove, a água cai em cima deles. Para a água não cair, eles fazem tipo um tubo de plástico com lona em volta daquela descida de água pluvial”, lista Freire. Ao ser perguntado sobre como melhorar as condições da feira hoje, Flavio Ferreira responde em poucas palavras: “Mais manutenção e menos demolição”.
 
Entre pactos e participação

Do final de 2014 para cá, a DPJ fez duas reuniões gerais com os permissionários, em dezembro de 2014 e abril de 2015, e houve dois momentos de reuniões setoriais, em maio de 2015 e em fevereiro de deste ano (ver histórico). Outras setorizadas serão marcadas. José Freire acredita que as reuniões até aqui foram suficientes. Há, no entanto, muitas queixas entre os feirantes de desinformação e pouca participação. A arquiteta Mariana de Souza, que faz parte da equipe de Freire e esteve em contato com os trabalhadores da feira durante o período de formulação do projeto, rebate que houve reuniões setorizadas em que apareceu apenas um representante dos feirantes.
 
Flavio Ferreira lembra que, no tempo da intervenção anterior, seu escritório abriu uma filial em Belém por cerca de oito meses para desenvolver o projeto executivo do Ver-o-Peso. Um tempo de contato com os feirantes, reuniões e audiência públicas. Os feirantes, segundo Flavio, participaram não apenas do projeto, também da avaliação de maquetes em tamanho real e protótipos. Os trabalhadores falam até hoje sobre um consórcio participativo que foi instalado. Na época, Dorotéa de Lima era arquiteta do Iphan. Segundo ela, houve divulgação maior do processo, mas não deixou de ser polêmico, principalmente por conta do escritório ser de fora.
 A definição sobre a cobertura do Ver-o-Peso pode retirar dele o título de maior feira aberta da América Latina (Foto: Kleyton Silva)

Mexer num espaço vivo como o Ver-o-Peso exige responsabilidade. É preciso preservar as condições de reprodução das práticas. E também pactuar com diversos grupos sociais. “Você só pode fazer um projeto adequado para o Ver-o-Peso se escutar todos os segmentos da sociedade e celebrar um acordo, um pacto. Não dá para fazer apenas com sua convicção profissional. São necessárias amplas, demoradas e pacientes consultas para que a reforma se torne legítima”, explica o antropólogo Romero Ximenes que, junto com a antropóloga Mariana Ximenes, assina o estudo antropológico do projeto da DPJ.
 
Será que o projeto alcançou um acordo? “Ele tenta fazer isso. Agora, esse diálogo tem que ser permanente”, opina Ximenes. O equilíbrio no resultado da votação improvisada pela prefeitura entre os trabalhadores do Ver-o-Peso leva a crer que o pacto ainda não foi firmado. A sociedade e, em particular, os feirantes começam a tomar pé da proposta de intervenção. O debate, antes restrito aos técnicos, chegou à feira. Enquanto o Iphan dá conta das dez caixas porta-arquivo sobre o caso Ver-o-Peso, outras vozes precisam pôr mais críticas e contribuições na balança.

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