Sessão Especial

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Luta e resistência marcaram sessão especial da câmara que lembrou o Dia Municipal e Estadual da Umbanda e dos Cultos Afro-Brasileiros. A data reforçou as diversas pautas do movimento e reverenciou a memória do terreiros mais antigos de Belém.

Nos últimos dias, a Câmara Municipal de Belém foi tomada por tensão, protestos, abusos e violências, durante a tentativa de votação do Projeto de Lei 13/2015, que prevê a extinção de diversos cargos públicos. Nesta sexta-feira, 18, entretanto, o clima foi bem mais ameno. Ao invés dos cartazes de protesto, o plenário foi tomado por batas brancas e guias. No lugar dos gritos contra a votação, as palavras “axé” e “sarava” eram constantemente ouvidas. Isso por que foi realizada sessão especial em comemoração ao Dia Municipal e Estadual da Umbanda e dos Cultos Afro-Brasileiros. Na bancada, entretanto, a violência se manteve presente. Dessa vez, exposta através de relatos de intolerância, racismo e homofobia.


A data foi escolhida em referência à uma personagem história de grande importância para os cultos de matriz africana na Amazônia. Rosa Viveiros, mais conhecida como Nochê Navanakoly, ou simplesmente Mãe Doca, foi a primeira mulher a inaugurar um terreiro de religião afro, de Tambor de Mina, em Belém, em 1891, apenas três anos após a abolição da escravatura. Mãe Doca foi alvo de preconceito e violência, sendo perseguida, presa e agredida diversas vezes. Resistindo contra a opressão de sua religião, acabou se tornando um mártir, virando um símbolo da luta contra a opressão religiosa. Atualmente, 125 anos depois de Mãe Doca, infelizmente, o cenário parece ter evoluído pouco.

“Conquistar este espaço é uma necessidade. Há uma construção de luta importante ocorrendo, e temos que buscar sempre lutar pela inclusão social de nossos irmãos de religiões afro, contra a violência constante, a intolerância total contra nossa cor e religião, e evidenciar isto no espaço público é o primeiro passo para mudar”


“Conquistar este espaço é uma necessidade. Há uma construção de luta importante ocorrendo, e temos que buscar sempre lutar pela inclusão social de nossos irmãos de religiões afro, contra a violência constante, a intolerância total contra nossa cor e religião, e evidenciar isto no espaço público é o primeiro passo para mudar”, afirmou Tatá Kinamboji, também conhecido pelo nome de Arthur Leandro, membro do instituto Nagetu. “Há uma política de brancos, que impede o avançar dos negros. Uma política dos patrões, que oprime o trabalhador, e dos católicos, que impedem o avançar das religiões afro. Mas a resistência e luta existem, e precisamos buscar isso”.


Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Secretaria de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial, do Governo Federal, Belém possui pelo cerca de 1,3 mil terreiros de religiões de matriz africana. Representantes de pelo menos 50 deles estavam presentes na sessão, com religiosos de diversos municípios, como Ananindeua, Santa Bárbara e Marituba. Plenário lotado por quem vive a Umbanda, o Tambor de Mina, Candomblé e outras religiões. Apesar disso, a falta de membros de outras igrejas e mesmo de parlamentares foi evidenciada por todos. Dos 35 vereadores de Belém, apenas dois – o vereador Fernando Carneiro e a vereadora Marinor Brito, que presidia a sessão, ambos do PSol – estavam presentes. A vereadora Sandra Batista, do PCdoB, estava representada por um assessor.








“Fico feliz de ver amigos e colegas, mas preciso dizer que estou muito triste hoje. Muitos irmãos presentes, mas quase ninguém de outra religião. Podemos falar da violência que sofremos, do preconceito, das agressões. Mas todos passamos por isso e sabemos de tudo. Falamos para nós mesmos, e isso não rende nada. Há uma bancada evangélica, mas eles são vereadores do povo, e não da religião. Continuamos ignorados”, afirmou a irmã Neide Rodrigues.

O preconceito institucional também foi alvo de críticas pelos participantes da sessão. “Não há políticas públicas para as religiões afro. Muito pelo contrário, há uma violência contra nós. Hoje, ao chegar, nos deparamos com uma servidora da câmara virando o beiço para nós. No aniversário de Belém, fomos completamente excluídos da programação religiosa. Não é só intolerância, é racismo religioso. Não queremos ser só tolerados, queremos aceitação e respeito”, afirmou Pai Odair.

Dos 35 vereadores de Belém, apenas dois – o vereador Fernando Carneiro e a vereadora Marinor Brito, que presidia a sessão, ambos do PSol – estavam presentes. A vereadora Sandra Batista, do PCdoB, estava representada por um assessor.

O evento contou ainda com uma homenagem aos afros religiosos vítimas da intolerância religiosa, mortos no último ano, e a entrega de certificados à terreiros que contribuíram para a luta contra a opressão religiosa. Ao final da sessão, uma grande roda foi formada no plenário, enquanto o hino de Umbanda era entoado ao som de tambores. Um modo alegre de firmar o debate e mostrar que o espaço público é, de fato, de todos.


“Qual o terreiro que sobrevive há mais de uma geração? Onde está o terreiro de Mãe Doca? A perseguição religiosa e falta de incentivo acaba com os terreiros de Belém. Mas resistimos e lutamos. Quando o Brigue Palhaço afundou, 100% dos ocupantes eram negros. E, mesmo na hora da morte, gritavam ‘Viva ao rei do Congo’. Assim resistiremos até o fim”, completou Tatá Kinamboji.





CAMINHADA

No próximo domingo, o debate sobre intolerância religiosa volta à discussão em Belém através da Caminhada Fé e Resistência, que ocorrerá às 9h, com saída na Escadinha da Estação das Docas, seguindo até a Praça da República. O evento é aberto ao público em geral. É preferível aos participantes usarem roupas brancas ou claras.

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