Batuques

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Dois movimentos culturais autônomos ainda não voltaram às atividades em 2016. Os batuques das praças são vítimas da falta de apoio da administração pública.
 
“Gente, quando será o próximo batuque? Saudades já!!!”. “Quando terá Batuque em São Brás, meus queridos? Saudade não cabe no core rsrs”. “Quando terá novamente os batuques?”. Desde o mês de janeiro deste ano, mensagens dessa natureza aglomeram-se nas páginas das redes sociais do Batuque do Mercado de São Brás e do Batuque da Praça da República, manifestações existentes há anos em Belém. As vozes do meio virtual e das ruas querem saber qual é a razão das festas, que são referências na cidade, não terem voltado após o último ano. A resposta dos produtores culturais pode ser resumida em três pontos: falta de apoio, coerção, e má vontade da gestão pública.

Os batuques fazem falta para os moradores da cidade que são interessados em cultura popular (Foto: Kleyton Silva)
 
Tony Leão da Costa, historiador e um dos organizadores mais frequentes do batuque realizado no Mercado de São Brás, credita à ausência de qualquer auxílio por parte da Prefeitura Municipal de Belém (PMB) o fato de a manifestação não ter tido retorno em 2016. “Dá bastante trabalho organizar um batuque daqueles a cada 15 dias, sem apoio de instituições públicas e nenhum tipo de fomento, além da grana do bolso dos próprios artistas e organizadores”, relata.
 
Segundo ele, muitas vezes o dinheiro para o transporte dos músicos, questões técnicas relacionadas ao som e mesmo coisas básicas como água precisavam ser custeadas pelos produtores ou contavam com a ajuda da contribuição dos frequentadores, que nem sempre era suficiente. “Passávamos um chapéu, mas as contribuições sempre eram bem pequenas e isso acabava pesando para o bolso de parte dos organizadores, que tinham que cobrir os gastos de cada dia”, completa.
 
“Muitas vezes a Guarda interviu para acabar com o Batuque, mesmo ficando claro que era um evento cultural de artistas e público, sem maiores dimensões, num espaço público.”

O peso de tomar as rédeas de uma atividade que deveria ser realizada pelo poder público, posto que o lazer e a cultura são atribuições de qualquer gestão municipal, soma-se ao tratamento da Guarda Municipal de Belém (GMB) como mais um elemento desmotivador para a volta do espaço. Tony lembra que “boa parte do período em que o Batuque do Mercado de São Brás existiu, o contato com a Guarda Municipal foi tenso”. “Muitas vezes a Guarda interviu para acabar com o Batuque, mesmo ficando claro que era um evento cultural de artistas e público, sem maiores dimensões, num espaço público. Enquanto a Guarda esteve lá houve uma permanente tensão no ar, que atingia, sobretudo, aos organizadores”.
 
A tensão da presença da GMB, de acordo com Tony, deu lugar, após um tempo, ao completo abandono do local. “É muito triste perceber que, ou a Prefeitura aparecia de forma coercitiva, na maioria das vezes pela presença da Guarda, ou desaparecia, deixando o patrimônio histórico se deteriorar totalmente”, observa.
 
Após três anos de atividades, o historiador lembra que o batuque reuniu manifestações populares com boi de rua, carimbós, grafite, arte de rua, carnaval, samba, jazz, chorinho, associou-se com o movimento negro, com movimentos de estudantes, professores, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Escolas de Samba e poetas, “ocupando e fazendo arte de maneira autônoma”. Tony destaca também a presença do “núcleo de organizadores” composto por Ana Rosário, Heverton Barros, Edimar Silva, Tommil Paixão e Rômulo Borges, além de ele próprio.
 
Apesar da ausência do batuque às sextas-feiras, o mercado de São Brás ainda é um local com forte presença de atividades culturais autônomas como o Sarau Multicultural, Batalha de Hip-Hop de São Brás e rodas de capoeira que ocorrem ali.
 
BOÊMIA INTERDITADA
 
O Bar do Parque é um dos mais famosos redutos da boêmia de Belém. É lá que, nos últimos quatro anos, foram realizados, periodicamente, batuques que chegavam a reunir 1.500 pessoas, segundo os organizadores. “Eu não sei qual foi a razão do batuque parar. Agora só o que a gente vê por aqui, na frente do teatro, é o pessoal que tá ensaiando uma quadrilha junina”, diz Carlos Teixeira, garçom do Bar.

“A gente vê que tá cada vez mais difícil realizar coisas nas praças”, afirma Pierre Azevedo (Foto: Kleyton Silva)

Pierre Azevedo, antropólogo e um dos organizadores do movimento colaborativo Batuque na Praça, acredita que é possível perceber uma movimentação por parte da gestão municipal no sentido de impedir as realizações independentes. “Foi quase que uma desarticulação tomada por parte da prefeitura. A gente vê que tá cada vez mais difícil realizar coisas nas praças. Qualquer batuque é reprimido. A gente tá tocando um tamborzinho na rua e a polícia já diz que não pode tocar o tambor”, relata.
 
De acordo com Pierre, os batuques realizados nos últimos meses do ano de 2015 foram impedidos de prosseguir normalmente devido a ausência de documentos como alvarás, que devem ser apresentados à instituições como a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) e à GMB, e à realização de uma abaixo-assinado dos moradores do entorno da Praça da República que se referia aos batuques e à feira de artesanato que ocorre aos domingos.

“O grande problema do batuque da praça é de ser um movimento social, um movimento aberto, de cultura de rua, de cultura popular e de ser totalmente independente, que não recebe nenhum apoio, além das pessoas que participam”, afirma Pierre. Esse é o motivo, segundo ele, da dificuldade em custear alvarás para a realização da festa.
 
“A legislação que trata do uso dos espaços públicos em Belém vem da época da ditadura militar. Ela é anacrônica.”
Com o intuito de discutir saídas para os problemas dos produtores culturais de rua de Belém, foi realizada uma audiência no ano passado convocada pelo vereador Fernando Carneiro na Câmara Municipal de Belém (CMB). O parlamentar afirma que o objetivo era debater ideias no sentido de criar uma legislação aos eventos culturais em espaços públicos que não seja proibitiva e sim regulamentadora. “A legislação que trata do uso dos espaços públicos em Belém vem da época da ditadura militar. Ela é anacrônica. A intenção dela é de impedir o uso do espaço público”, diz Carneiro.
 
Pierre relata que as perguntas feitas aos representantes da prefeitura na audiência da CMB foram: “como a prefeitura pode nos apoiar enquanto um movimento cultural que tá na rua fazendo o que a prefeitura tinha que fazer? Será que a gente pode, pelo menos, ter acesso a esses documentos sem ter que arcar com eles?”. As respostas ainda não foram dadas e, segundo Fernando Carneiro, ainda não foi trilhado um caminho de diálogo junto a órgãos como a Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel) e a Semma.
 
O que Pierre pode afirmar é que as atividades do Batuque na Praça não terminaram. Em breve, segundo ele, haverá uma próxima edição que, dessa vez, deverá contar com as exigências da prefeitura. “A próxima realização vai ter esse corre. Não dá mais pra fazer sem documentação. Então a gente vai tentar deixar tudo certo, com licença até meia noite”, anuncia.
 
A Prefeitura Municipal de Belém foi procurada para se manifestar sobre os fatos referentes à postura coercitiva da Guarda Municipal narrados durante a reportagem e sobre os motivos que levariam a administração a impedir as manifestações. Até o fechamento da matéria, não recebemos respostas.

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