Páginas de humor

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Páginas de humor viraram febre no Facebook. Mas alguns conteúdos acabam seguindo para o lado do machismo, homofobia e preconceito. Afinal, é mesmo engraçado rir do outro?  

Sucesso nas redes sociais do Pará: páginas de humor que satirizam hábitos e problemas da região amazônica e de Belém em especial. As postagens dessas fan pages passam pelas nossas timelines todos os dias. Mas o que impressiona são as marcas. Elas beiram as 100 mil curtidas, alcançando um envolvimento de quase um milhão de perfis, segundo as métricas do Facebook. Não apenas isso, as páginas campeãs de curtidas e compartilhamentos também veiculam piadas machistas e homofóbicas, além de postagens que ridicularizam pessoas envolvidas em crimes. O próprio Facebook já baniu algumas postagens. Os produtores de conteúdo, que também podem ser considerados haters – pessoas que publicam comentários de ódio ou crítica sem critério -, afirmam que “humor é humor”. Politicamente, eles se posicionam à direita e reproduzem preconceitos sob a embalagem da piada. Há um detalhe: elas ganharam impulso durante as manifestações de 2013. Para eles, o humor feito pelas páginas pode ser comparado ao quadro Guernica, de Pablo Picasso. Vejamos se pode.
 
As páginas veiculam piadas que giram em torno dos conhecidos memes, um termo que, atualmente, é usado para designar tirinhas que reúnem montagem de imagens e textos e, geralmente, repetem uma ideia concebida anteriormente. Elas tendem a viralizar com diversas variações. E no Pará, dentre as páginas campeãs nesse segmento, estão o Malaco Intelectual e o Chewbacca Paraense. As duas estão entre as mais compartilhadas páginas do Facebook no Estado e surgiram no contexto das manifestações de 2013. Na verdade, um pouco antes, em 2012, quando reuniam entre 500 e mil curtidas cada uma. Mas a internet foi o veículo dos protestos. Naquele mês, inflamadas pelos protestos contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, estouraram as chamadas “Jornadas de Junho”. Foi no meio online, sobretudo dos eventos do Facebook, que a população jovem se reuniu em diversas capitais do Brasil para protestar contra tudo: corrupção, precariedade dos serviços públicos, construção de hidrelétricas na Amazônia e outros temas.

As páginas beiram as 100 mil curtidas, alcançando um envolvimento de quase um milhão de perfis, segundo as métricas do Facebook. Não apenas isso, as páginas campeãs de curtidas e compartilhamentos também veiculam piadas machistas e homofóbicas, além de postagens que ridicularizam pessoas envolvidas em crimes.
 
CHEW
 
Na sala de aula de uma universidade particular de Belém, um sujeito negro, alto e barbudo aguarda para conceder entrevista. Chewbacca – nome do alienígena peludo da série de filmes Star Wars –  era um apelido de infância que acabou intitulando a página de Márcio Gomes, 19, gerida por ele e outros três produtores de conteúdo, como eles se definem. A idéia era criticar o preconceito regional. “O pessoal sulista vê o paraense como índio, andando em jacaré. Então vou pegar alguma coisa de fora e adaptar”, explicou Márcio, que é estudante do terceiro semestre do curso de Jornalismo. Para ele, o “humor da página varia”. “Não é estático. Uma hora é humor negro, uma hora um humor leve.” Os bons resultados, que envolvem mais de 900 mil pessoas, são atribuídos à interação empreendida junto aos seguidores da página.

A página de humor “Chewbacca Paraense” afirma que 
reforça esteriótipos, mas com toques de humor.
Preconceituosa? É. Mas e aí? “Sim. Ela [página] está reforçando um estereótipo, mas não tem como… A página reforça, sim, estereótipos”, responde Márcio. “O malaco é marginalizado na sociedade. A gente pega aquilo que a sociedade marginaliza, mas a gente tenta fazer humor.” Ele advoga pela tese de que há um problema com a sociedade politicamente correta. “A nossa sociedade está chata. A nossa página quer tirar o estereótipo. Pode estar até reforçando, mas é tirar o preconceito e fazer a pessoa sorrir”, opina. É que a página, vez por outra, tem seu conteúdo denunciado por ofender os termos de uso do Facebook. O próprio Márcio já foi penalizado com um mês sem poder postar.
 
O estudante de Jornalismo tem medo de, no dia a dia, vincular seu nome à página e ser fotografado. Isso porque ele já sofreu ameaças em função das postagens que faz. Uma delas foi sobre a Batalha de São Brás, evento de hip hop realizado semanalmente na praça Floriano Peixoto, em Belém. “Passei por São Brás uma vez e vi o pessoal lá. Fui a um evento. Pra mim, aquilo não tem rima. E o pessoal fica incitando o consumo de drogas”, criticou o administrador da página, que, então, fez uma postagem criticando o evento. “São um bando de Zé Droguinha. Eles mesmos estão se marginalizando.” Desde então, recebeu ameaças de pessoas que ele supõe serem participantes do evento.
 
MALACO

Desconhecidos para as quase um milhão de pessoas que podem topar com uma postagem nas redes sociais, os administradores dessas páginas se relacionam nos bastidores. Mais que isso: o Malaco Intectual, por exemplo, foi uma espécie de pupilo do Chewbacca. Durante as manifestações de junho de 2013, Márcio produziu uma postagem que explorava as diferenças entre o Sul e o Norte do Brasil. “Em São Paulo, a polícia batia nos manifestantes. Aqui, manifestantes tiraram foto os policiais”, contou Márcio, que tentava explorar o conflito como uma vantagem para o Norte. A tirinha foi ideia de Bill Haley Wanzeler, que enviou a sugestão por mensagem para a página. A postagem foi feita e Bill continuou colaborando com novas ideias e montagens. Até que pediu para gerir a página Malaco Intectual que, àquela altura, tinha 800 curtidas. Mais ou menos em agosto do mesmo ano, Bill passou a se dedicar apenas a ela. Hoje, a página tem 96.597 seguidores, de acordo com a última contagem.

A fanpage “Malaco Intelectual”: responsável pela página 
não vê preconceitos no conteúdo.
“Todas as montagens e piadas, sou eu mesmo que faço tudo (risos). Ainda não tive a confiança de colocar mais pessoas pra administrar a página comigo”, contou Bill, por e-mail, já que ele reside atualmente em São Paulo. Ele preferiu não revelar sua idade. “Mas estou com projetos e moldando uma equipe para que possamos expandir o negócio.” É que o passatempo virou negócio mesmo. Há oferta de anunciantes, empresas e políticos. Bill acredita que cumpre a função de abordar “temas que muitas pessoas não tocariam em seu dia a dia, até mesmo pela falta de interesse em assuntos mais delicados ou pelo próprio grau de instrução”. Para ele, o humor que faz pode ser caracterizado como “nonsense, indo até um humor mais crítico a situações políticas e sociais”. Com essa visão, ele vislumbra acessar novos mercados. No momento, porém, a atividade principal de Bill é como estudante na faculdade de Desenvolvimento de Sistemas. “Tudo com muita pimenta, como é do gosto do povo paraense”, completa ele.
 
CRÍTICAS FEITAS…
 
Mas o Chewbacca e o Malaco têm muito a falar. Sobretudo acerca do conteúdo político das postagens. Bill fora indagado sobre o teor preconceituoso das publicações. Ele, contudo, não vê preconceito nas tirinhas. E mais: acredita que há como fazer uma ponte com a história da arte. “Hoje em dia eu falo que vivemos na geração do ‘mimimi’, a geração ‘vitimista’. Tudo que você falar e que seja contra o pensamento de quem está ao seu lado é caracterizado como preconceito ou algo parecido”, defende-se. “Lembro do episódio de quando um oficial nazista perguntou a Pablo Picasso se tinha sido ele que havia feito (pintado) Guernica e Picasso respondeu ‘não, foram vocês!’”.
 
Indagado sobre o conteúdo misógino e machista da página, Bill rebate: “não há preconceito nas postagens em relação à mulheres ou qualquer outro gênero (sic)”. Ele diz tentar fugir das tendências políticas nas redes. “Hoje tá na moda e é ‘fashion’ falar que é feminista ou femista e chamar os homens de machistas”, afirma o administrador. “Se você comentar acerca de um acidente de trânsito a conversa flui normalmente, mas se você falar, sem pretensão nenhuma, que envolveu uma mulher, você será tachado de machista.” E completa: “Mais uma vez, o preconceito está na mente de quem o desenha”.
 
…E CRÍTICAS RECEBIDAS
 
As postagens não circulam sem críticas. Nas próprias páginas, usuários respondem e questionam o conteúdo produzido. Mas não apenas isso. A advogada e professora universitária Luanna Tomaz, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados seção Pará (OAB-PA), já topou com algumas das tirinhas. “Já vi algumas circulando. Não só dessas páginas, mas de outras. Essas páginas e humor reproduzem uma ótica de preconceito”, inicia Luanna. “A lógica de que é só uma piada faz com que as pessoas sejam mais coniventes”. Para ela, o “humor é uma ferramenta para uma vida mais leve, mais feliz e não pode ser utilizado para oprimir e agredir quem já é agredido na sociedade”. A OAB já recebeu denúncias de crimes cometidos por páginas que não se assumem como humor, mas como páginas de ódio. E aí reside uma das chaves. “Acho que, justamente pelo humor, faz com que as pessoas ‘tirem por menos’”.

“humor é uma ferramenta para uma vida mais leve, mais feliz e não pode ser utilizado para oprimir e agredir quem já é agredido na sociedade”
 
Mas qualquer cidadão pode denunciar sempre que se sentir ofendido pelas postagens. Em Belém, há uma Delegacia de Crimes Discriminatórios, o Ministério Público pode ser provocado a fiscalizar e a Polícia Federal também acompanha investigações relativas a racismo. Para Luanna Tomaz, essa é uma atribuição que perpassa toda a administração pública. “Combater esse tipo de preconceito cabe à Secretaria de Educação, ao Ministério Público. O poder público como um todo tem esse dever”, diz ela. “Às vezes as pessoas só veem racismo em coisas diretas, como ser chamado de macaco. Mas as pessoas não veem como racismo essas postagem que se difundem no dia a dia. É importante estarmos sempre vigilantes.” A analogia com o quadro Guernica só pode ter um significado: quer dizer que conteúdo veiculado por essas páginas são só o reflexo da sociedade preconceituosa em que vivemos.

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