8 Bar

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O 8 Bar Bistrô foi um espaço que mobilizou diversos movimentos da cena artística e política de Belém. Após ser alvo de ações criminosas por parte da polícia, ele fechou. Mas volta a ser tema de festa e de uma decisão judicial.

Belém já foi casa de um local onde figuras de diferentes movimentos artísticos se encontravam para confraternizar e construir projetos. O 8 Bar Bistrô fechou após ser vítima de operações ilegais, mas voltará a ganhar as ruas em uma festa chamada “Matando a saudade”, que será realizada amanhã, dia 8. Ao mesmo tempo, volta a ser assunto na Justiça no dia de hoje, 7.

A história começa na Avenida Doutor Moraes, nº8, no bairro do Reduto. Ali, os jovens Karllana Cordovil e João Paupério começaram a realizar o sonho de serem proprietários de um bar. “Eu lembro muito bem de ir ali com amigos. Pra mim, inconscientemente, era um lugar ideal pelo fato de ter gente de todo tipo, de todas as orientações, cores, classes”, recorda Wladerson Rodrigo, estudante de cinema, amigo dos antigos donos, ex-funcionário e, hoje, organizador do evento que ocorrerá sexta-feira.


Wladerson Rodrigo organiza o “matando a Saudade” para manter vivo o espírito do 8 bar


Depois de “incessantes investidas de policiais cobrando valores sob o argumento de ‘dar proteção ao local’ (o que foi registrado em mais de uma ocasião na Corregedoria de Polícia), o assédio constante e as ameaças fizeram com que o estabelecimento mudasse de endereço”, contou o advogado Stephan Fernandes Houat, autor de um artigo científico, ainda em estado de finalização, que abordará o caso do 8 como um exemplo da prática policial no Brasil.

Foi no novo endereço, na rua Henrique Gurjão, nº 599, para onde o bar se mudou no dia 28 de março de 2014, que os donos viveriam um dos momentos mais tensos de suas vidas: a prisão.

VIOLÊNCIA

Na noite de 25 de junho de 2015, quatro pessoas, sendo três policiais da Delegacia do Comércio (Raimundo Afonso Amaral Cavalero, Rosinaldo da Conceição Fontes de Figueiredo, Marcos Roberto de Jesus Correa) e um indivíduo encapuzado, que apenas “se presume que fosse também policial”, segundo Stephan, invadiram a residência do casal. O advogado descreve que dois policiais escalaram o muro do prédio e entraram no local pela varanda. Ao notarem a presença de cachorros que acordaram João, os policiais assustaram-se e apontaram uma arma para a cabeça do empresário, o ameaçando de morte. Esse foi o início de uma série de atos ilegais.

Ao notarem a presença de cachorros
que acordaram João, os policiais assustaram-se e apontaram uma arma para a
cabeça do empresário, o ameaçando de morte. Esse foi o início de uma
série de atos ilegais.

Os policiais, em seguida, alegaram que havia denúncia anônima de venda de drogas no bar. João relatou às autoridades que o indivíduo encapuzado retirou da própria roupa uma sacola plástica e colocou em uma gaveta. Posteriormente, a mesma pessoa disse ter achado drogas, efetuando a prisão do casal em flagrante delito. João e Karllana foram levados para a Delegacia do Comércio em carro descaracterizado.

Além da polícia, a imprensa também agiu ilegalmente no caso 8. O veículo Diário On Line publicou uma matéria na qual veicula uma foto não autorizada pelo casal, assim como a Agência Pará.

Depois de cinco dias de detenção, o juiz Flávio Sanches Leão, responsável pelo caso, extinguiu o procedimento contra os dois, sob o principal fundamento de que como a entrada dos policiais na casa foi ilegal, isso contaminou a principal prova, tornando todo o procedimento irregular. No entanto, o Ministério Público do Pará (MPPA) recorreu da decisão do Juiz. No dia de hoje, 7, os desembargadores debaterão entre si se o caso deve ser arquivado ou reaberto.

NOVO CAPÍTULO

“Se eles decidirem que deve ser reaberto, tudo recomeça do zero, ou seja, a polícia investiga, depois envia o inquérito para o MP, que por sua vez inicia ou não a ação penal junto a um juiz, que no final prolata uma sentença dizendo se são culpados ou inocentes”, explica Stephan, que acompanha o caso. Ou seja, Karllana e João ainda podem voltar a ser investigados. Caso seja decidido pelo arquivamento, o assunto não está completamente encerrado, pois ainda é possível um recurso pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ).

Karllana e João ainda podem voltar a ser investigados


A assessoria de comunicação da Polícia Civil, perguntada sobre a existência de alguma ação punitiva contra os policias que invadiram a casa dos proprietários do 8, afirmou que há um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado na Comissão Permanente da Corregedoria da Polícia Civil e que este está em fase de finalização de relatório. “Posteriormente, a decisão dos integrantes da comissão será submetida à apreciação dos delegados que integram a comissão para apresentação de suas conclusões. O PAD poderá resultar em sugestão de penas administrativas, que vão desde a repreensão, suspensão, até a demissão”, afirmou a assessoria.

 Já o setor de comunicação do MPPA informou que o promotor responsável pelo caso, Carlos Stilianidi Garcia, declarou que prefere se manifestar somente após a decisão da reabertura ou do arquivamento do procedimento.

UM REDUTO CRÍTICO

Embora resida atualmente em outro país, com seu marido João, Karllana aceitou conceder uma entrevista por e-mail, na qual afirma que a perseguição ao 8 Bar Bistrô é fruto de uma intenção política, que buscava abafar as vozes de pessoas e movimentos não “bem vistos” pelos setores conservadores de Belém.

 “Vivemos em uma democracia mascarada, manipulada e fantasiada, onde as pessoas não podem ser, falar, pensar, fora do contexto tradicionalista da nossa sociedade belenense”, afirma. E, em relação à cena artística, ela acredita que o bar criou um cenário artístico, “sem seleções, sem bancas, sem medidas, criou, sem querer, um reduto de performers”. Onde “todos inventavam. Todos faziam parte. Mostrar essa liberdade que sempre foi escondida foi lindo e perturbador pra nossa sociedade.”

Para Karllana, são óbvias as razões para a perseguição sofrida pelo 8. A primeira delas é o fato de estar localizado no centro da cidade, sem seguir padrões da classe média em termos de comportamento, pois quem quisesse sentar no chão não era coibido, por exemplo. Outra razão seria a postura crítica dos clientes. “Como não se preocupar com um espaço onde as pessoas se mobilizavam, apanhavam e levantavam novamente cada vez mais fortes?”, escreve.

No entanto, a convivência com os vizinhos enfrentava também outro problema: o barulho. Algo que, segundo Karllana, era difícil de controlar. “Isso sempre saía do nosso controle por muitas vezes serem pessoas que nem entravam no bar, iam pra lá por causa do movimento. A maioria dos clientes do 8 sabia o que enfrentávamos para continuar aberto e ajudavam a controlar o barulho de madrugada, mas outros nem sabiam o porquê do 8 ter mudado de espaço”, recorda.

Apesar dos problemas, ficaram saudades, como a convivência entre as pessoas. Por isso, Wladerson decidiu criar o evento “Matando a saudade”, que terá início às 20h, na rua Doutor Moraes e depois seguirá em cortejo até o endereço da Henrique Gurjão. O organizador pede que as pessoas levem sacos de lixo, para que a cidade fique limpa após a festa. Segundo ele, a questão ambiental sempre foi uma preocupação dos proprietários e dos frequentadores do 8.

Serviço
Festa “Matando a saudade”
Local de saída: Rua Doutor Mores, esquina com a José Malcher.
Local de chegada: Travessa Piedade, esquina com Rua Henrique Gurjão.
Observação: Levar sacos de lixo para ajudar na limpeza das ruas.
 

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