Suspeita de racismo

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Um espaço cultural no centro de Belém foi palco de mais um episódio de conflito que envolve suspeita de racismo, violência e a questão das manifestações de matriz africana. O fato é mais um dos inúmeros casos registrados na capital.

Um grupo de cerca de 10 jovens, predominantemente negro, é seguido por uma viatura da polícia que se move lentamente em uma rua de um bairro do centro de Belém. É madrugada. A cena, que suscita questionamentos sobre o modo de agir dos policiais na cidade, foi o desfecho de um fim de noite de conflito no dia 7 de abril, uma quinta-feira, no espaço Gotazkaen Estúdio, localizado na Travessa Rui Barbosa, 543, no bairro Reduto. Segundo relatos, os jovens foram impedidos, de forma incisiva e sem “minimamente conversar”, de tocar um pandeiro, cantar e dançar nas dependências do local que organizava uma festa de reggae. Em seguida, o grupo se retirou do lugar e continuou o batuque do lado de fora.

O estudante de artes visuais Rodrigo Leão, que fazia parte do grupo, veiculou um texto em sua página em uma rede social no qual relata que o que ocorreu foi uma “abordagem extremamente grosseira”. Ele afirma que apenas alguns minutos após o som mecânico do espaço ter cessado e o grupo ter começado a tocar o instrumento de percussão, um “cara”, o qual não pôde identificar se fazia parte ou não da equipe do espaço, atravessou a sala da parte interna da casa e falou, “quase tocando” no rosto das pessoas, que elas deveriam parar o que mal haviam iniciado.

“Não teve explicação ‘de boas’ pra gente levar em conta o lado deles. Tudo (desde o fim da música até a saída) foi muito rápido, eu até entenderia a reação se já estivessem pedindo há mais de dez minutos (não chegou a dar isso)”, escreveu na rede social. Rodrigo avalia ainda que se “o problema deles fosse com o barulho, e não conosco, pode ter certeza que eles teriam explicado em primeiro lugar, e conversado direito”.


Incidente reacende o debate sobre racismo e homofobia em espaços culturais de Belém


Para uma pessoa presente na ocasião, que preferiu não se identificar, o fato de o grupo ser formado, em sua maioria, por pessoas negras e não héteronormativas- tendo em vista que havia homens que utilizavam batom no rosto, ornamentos e roupas que são alvos de um discurso que limita a utilização destes artefatos às mulheres- corrobora a tese do texto da rede social de que o problema, para os incomodados com o grupo, seria a presença e o comportamento das pessoas. Neste caso, o ocorrido passaria a figurar como mais um caso de racismo e homofobia nas estatísticas brasileiras.

RESISTÊNCIA

Daniel Silva, proprietário do Gotazkaen Estúdio, afirmou que sua reação foi, de fato, incisiva em razão de que o local era obrigado a fechar uma hora e o horário já havia sido ultrapassado.  “Quando vi que eles estavam tocando, eu pus minha mão e pedi pra parar o som. Quando eles passaram por mim, eu pedi que eles parassem”, disse. Segundo ele, o local vem recebendo investidas seguidas da polícia, o que já motivaram seis intimações, um pagamento de multa e um termo de ajuste de conduta, causado pelo incômodo dos vizinhos. No entanto, ele nega que tenha ocorrido atitudes racistas ou homofóbicas por parte dele ou de algum membro de sua equipe.

“O espaço precisa seguir algumas regras, eu não posso pôr em risco o sustento de toda uma cadeia de pessoas que trabalham comigo. Você podia ser marciano, mas o som tinha que parar”, afirmou. De acordo com ele, uma situação semelhante ocorreu quando o grupo de percussão Trio Manari se apresentou na casa e foi também impedido de tocar por razões que poderia comprometer o funcionamento do local.

“O espaço precisa seguir algumas regras, eu
não posso pôr em risco o sustento de toda uma cadeia de pessoas que
trabalham comigo. Você podia ser marciano, mas o som tinha que parar”

A atriz e arte educadora Érika Bonifácio, que fazia parte do grupo, afirma que houve, sim, um caso de violência pois, segundo ela, em nenhum momento houve diálogo. “Muito pelo contrário”. Em entrevista por escrito, ela contou que “um cara pegou, com força, no braço do Danilo e ‘pediu’ pra sairmos do local’. O grupo possuía dois pandeiros, mas apenas um estava sendo tocado. Após a ordem intransigente, os dois pandeiros começaram a ser tocados como forma de resistência, um deles pelo também estudante de artes visuais, Danilo Leão.

Ainda segundo o relato de Rodrigo Leão, na rede social, a “insistência do pessoal em continuar tocando, em primeiro lugar, foi pela abordagem extremamente grosseira deles”. “Acontece que não teve conversa, nem diálogo. Porque conversa e diálogo envolve educação”, completa Rodrigo. Após o ocorrido, o grupo se retirou do local e continuou a tocar na calçada do outro lado da rua. No entanto, depois de alguns minutos, um carro da polícia encostou em um lugar próximo. Segundo Daniel Silva, a viatura não foi acionada pelo Gotazkaen.

O PESO DE UM TOQUE

A imagem de uma mão que impede que um pandeiro seja tocado nos remete, de forma direta, aos casos de impedimento dos batuques que vem ocorrendo por parte do poder público em Belém, assunto já noticiado pelo Outros 400 . Historicamente, a cidade assiste às manifestações de matriz africana serem criminalizadas pelo poder instituído, como é o caso da Lei nº 1.028, de 5 de maio de 1880, presente no Código de Posturas de Belém.

Historicamente, a cidade assiste às
manifestações de matriz africana serem criminalizadas pelo poder
instituído, como é o caso da Lei nº 1.028, de 5 de maio de 1880,
presente no Código de Posturas de Belém.


A legislação afirmava que era proibido “sob pena de 30.000 réis de multa: Fazer batuques ou samba. Tocar tambor, carimbó, ou qualquer outro instrumento que perturbe o sossego durante a noite”. As leis mudaram, mas o tratamento reservado aos batuques e aos batuqueiros parece seguir a mesma lógica de segregação racial e cultural.

Para Arthur Leandro, da Rede Amazônica de Tradições de Matriz Africana, o que é possível observar ao longo dos anos é a que as manifestações de matriz africana sofreram um processo de assimilação e apropriação pela indústria cultural que promove um “embranquecimento” das mesmas.

As manifestações de matriz africana
sofreram um processo de assimilação e apropriação pela indústria
cultural que promove um “embranquecimento” das mesmas.


“Quem são os dois principais nomes do axé music hoje? Duas cantoras brancas. E o que era uma música que priorizava a percussão, hoje faz a marcação no baixo. O que importa é o dinheiro e não a afirmação de uma cultura negra”, afirma. Para o pesquisador e ativista, o mesmo ocorre atualmente com o carimbó, que estaria passando por um processo semelhante de desterritorialização, no qual ele deixa de ser uma “cultura de pescadores negros praianos e vaqueiros para qualificá-lo como música de classe média branca”.


Sobre a questão da perseguição à juventude negra em Belém, Arthur é categórico. Para ele, vivemos a reprodução do racismo institucional instalado no Brasil como um elemento estrutural da sociedade brasileira. “É só você reparar nas políticas das bancadas BBB (Bala, Boi e Bíblia) no congresso”. “A da bala persegue a juventude negra, da periferia, a do boi desrespeita a posse de terra dos quilombolas e a da Bíblia propaga uma visão de que as nossas práticas religiosas são do mau”, explica.


É nesse contexto que o grupo de jovens atravessa a rua e instala seu batuque na outra extremidade da via pública. E é de lá que, após a chegada do carro da polícia, minutos depois, eles decidem mudar de lugar por motivos óbvios. Medo era o principal. “No final, decidimos ir pra casa”, relata Érika. Como foi descrito, a viatura os seguia lentamente.

Fotos: Klewerson Lima

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