Senhorita Andreza

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Hoje completam-se três meses da prisão de Andreza. Conhecida nas redes sociais pelo bordão “sem embaçamento”, ela busca, agora, poder usar os holofotes para mudar sua realidade e ajudar jovens da periferia.
 
Uma mulher com vocação para a polêmica vem polarizando ainda mais os círculos políticos em Belém – e as rodas familiares também. Foi através de um vídeo com milhares de visualizações que a Andreza Ariane Castro,21, ficou conhecida. Senhorita Andreza. Lembrou?
 
O convite para a “social” desencadeou uma série de transformações na vida da jovem: ganhou certa fama na capital paraense, mas também foi em função dele que a Andreza foi presa sob acusação de apologia ao crime. Muitos setores consideraram o vídeo uma afronta ao Estado. Uma boa parcela da juventude replicou os trejeitos de Andreza. O jargão pegou: “sem embaçamento”. Depois de 25 dias na prisão, ela saiu para conturbar ainda mais o cenário.

Na internet e redes sociais é difícil ver a face de Andreza sem lembrar: sem embaçamento! (Foto: Kleyton Silva)

A segunda polêmica foi a filiação à União da Juventude Socialista (UJS), entidade vinculada ao PCdoB. Os mesmos que clamaram pela prisão da jovem, agora apontaram o dedo: ela não pode fazer política. A resposta vem sendo dada nas redes sociais, reduto de Andreza. Ela diz que a UJS é uma forma de transformar sua vida e a vida da juventude da periferia de Belém e região metropolitana. E uma possível candidatura a vereadora? Mãe de uma menina de três anos, moradora da Cabanagem, Andreza é clara. “Não há nada que me impeça.” Em entrevista ao Outros400, ela contou os detalhes da social e como foram os 25 dias no Centro de Reeducação Feminino (CRF).

“Acordei com a minha tia mandando mensagem. Ela me perguntou: já viu isso Andreza?”
 
Hoje completam-se três meses da prisão de Andreza. Tudo em função do vídeo. Vídeo que havia sido produzido há pelo menos quatro meses antes da prisão. “Esse vídeo aí eu fiz mesmo por brincadeira, só para os amigos, que era só no meu grupo do Whatsapp”, iniciou Andreza. “Não era só o meu. Várias pessoas fizeram. Só o que surgiu foi o meu, sendo que esse vídeo já tinha sido postado muitos meses atrás, uns quatro meses atrás.” O nome do grupo era “Chegados da Andreza” e a disputa consistia em apontar quem fazia a melhor chamada. Temos uma vencedora. O vídeo dormiu e ressurgiu.

“Acordei com a minha tia mandando mensagem porque a página do Sargento Silvano tava convidando todo mundo para a social. Ela me perguntou: já viu isso Andreza?”, contou a jovem. “Eu pensei: não vai dar em nada, faz tempo.” Mas deu. No dia seguinte, Andreza tinha sido adicionada a mais de cem grupos no Whatsapp, suas fotos tinham mais de cem curtidas no Facebook. Havia comentários e vídeos parodiando a chamada original.



Andreza foi acusada por tráfico e formação de quadrilha, mas só a acusação de apologia ao crime continua tramitando na Justiça. (Foto: Kleyton Silva)

A viralização era uma parte da história. “Me prenderam por causa disso”, diz Andreza. “Falaram lá que iam me prender por causa de apologia ao crime”, completa, se referindo à abordagem da Polícia Civil. Por volta das 7h da manhã do dia 22 de janeiro, sexta-feira, a polícia chegou à casa da jovem. “Eles chegaram lá em casa sem mandado. Arrombaram a porta da minha casa, assustaram a criança. Só tinha homem. Não tinha mulher.” Naquele mesmo dia, ocorria uma operação de combate ao tráfico no bairro da Cabanagem. 

Na delegacia, Andreza foi autuada por apologia ao crime e outros crimes, como tráfico de drogas e formação de quadrilha. “Prenderam aquelas pessoas e lá na DRCO (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado) e quando chegou lá colocaram todo mundo junto, como se eu fosse de uma quadrilha”, narra a jovem. Ela afirma ainda que, na DRCO, forjaram a apreensão de uma quantidade de maconha, mas nada foi comprovado. “Pedi a perícia pra que eles comprovassem. Não teve nada. Não comprovaram.” Na página do Facebook da Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado do Pará (Susipe), a prisão de Andreza virou piada — mas teve de ser retirada do ar em função do rechaço de internautas.
 
“Horrível. Não desejo pra ninguém. É um sofrimento. É muita humilhação ali dentro. Eu fiquei 25 dias lá, se eu peguei dois dias de sol foi muito.”

Apesar de discordar da atuação da Polícia Civil, Andreza não pensa em processar o Estado. “Cara, isso é um constrangimento para qualquer pessoa”, dispara Andreza. “Porque uma pessoa que nunca matou, nunca roubou, nunca fez nada para ninguém, pra tá passando por uma coisa dessa e ainda vir falar de ti pra te queimar na televisão, isso não é certo.” Há, além da abordagem do Estado, o desdobramento nas redes sociais. “Hoje muita gente tá me criticando e afirmando nas redes sociais: afirmando que eu vendo drogas, afirmando que eu roubava, sendo que ninguém me conhece”, dispara.
 
CRF
 
Com a prisão, veio um novo episódio: o Centro de Reeducação Feminino (CRF), em Ananindeua. “Horrível. Não desejo pra ninguém. É um sofrimento. É muita humilhação ali dentro. Eu fiquei 25 dias lá, se eu peguei dois dias de sol foi muito”, conta Andreza. Ao chegar ao CRF, segundo ela, a jovem foi posta na mesma cela que uma detenta com doença mental. “Num dia eu tava lá, de toca, sentada, e ela veio pra cima de mim, me bater, cara. Eu não briguei com ela, apenas me defendi”, relata. 

Retirada da cela, Andreza foi conduzida para a cela das “brindes”, como são chamadas as detentas que cometeram crimes violentos, como assassinato. “Aí gerou mais confusão ainda porque as outras detentas não aceitaram. Mesmo assim, eles disseram ‘bora embora, pega teu colchão’. Fiquei numa cela com umas 15 mulheres, apertadinho, dormi com uma porque não tinha lugar”, relatou, completando: “Uma humilhação mesmo que eu não quero passar nunca mais”.
 
MUDANÇA
 
Os 25 dias se acabaram. Ela, então, deixou o CRF. Começava a carreira da Senhorita Andreza. Como é a vida de uma pessoa famosa? “Ai, eu não sei, cara. Eu não entendo isso. Eu nunca esperei. Nunca esperei mesmo. Eu era uma pessoa tão normal, como todo mundo”, comenta Andreza. “Quando eu saí do CRF, tinha um monte de pessoa estranha que eu não conhecia. Minha mãe começou até a chorar, com medo, pensando que ia acontecer alguma coisa.” 

A lista era grande: pessoas querendo fazer uma selfie, gente que de alguma forma souberam de sua saída e curiosos apenas para ver a mulher. “Eu imaginei: do jeito que a polícia me queimou, quando eu sair, a sociedade vai me chamar só do que não presta”, pensou. “Mas não foi. Tinha gente do ônibus gritando, gente na parada pedindo pra bater foto comigo (Risos). Eu morro de vergonha disso.” Nas ruas, pessoas tiram foto do alto das janelas. E tem outra: cobradores de ônibus nem mais cobram a passagem da Senhorita. A nova vida inclui o patrocínio de lojas de roupas e acessórios.

“Chegaram lá mandando os meninos ir para o lado, botando as mãos na cabeça, mulheres para o outro, chamando a dona da festa.”
 
Antes do vídeo, Andreza trabalhava como manicure num salão de beleza da Cabanagem e cursava o ProJovem, programa do governo federal. Mas a jovem agora tem outra carreira: presença VIP. Nas festas, ela é convidada para tirar fotos, enviar vídeos e conversar com os presentes. Há contatos em Belém, Ananindeua, Santa Izabel. Há propostas no município de Portel, na região do Marajó, e até no Maranhão. “Teve uma que me convidou para ir para o Festival da Melancia em Goiânia.” Há duas semanas, ela foi convidada de uma festa no município de Breves, também no Marajó. No meio da festa, a Polícia Civil apareceu. “Eles foram lá. A missão deles era parar a festa. A dona disse que nunca tinha acontecido isso de ir delegado, escrivão e tudo”, conta a Senhorita, que deixou seu emprego no salão, mas continua seu curso no ProJovem.
 
“Chegaram lá mandando os meninos ir para o lado, botando as mãos na cabeça, mulheres para o outro, chamando a dona da festa.” A proprietária, porém, apresentou toda a documentação exigida. Na cidade, num programa policialesco da TV Record, o apresentador já havia anunciado a presença de Andreza. “O policial falou pra mim: já não basta o tanto de imundície que tem aqui, ainda trazem mais uma de Belém?”, contou. Ela acredita que a intenção era fechar a festa apenas em função da sua presença. “Eu estou liberada. Posso trabalhar!” Os policiais pediram desculpas e se retiraram. Acontece que, antes disso, já haviam espalhado fotos e vídeos, dizendo que a “rainha do tráfico” estava presa em Breves. “Minha tia me ligou desesperada pra saber o que estava acontecendo”, lamenta a jovem.
 
POLÍTICA
 
Da visibilidade, houve outra possibilidade: a carreira política. Senhorita Andreza fora convidada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) para integrar a União da Juventude Socialista, que faz parte do partido. “Eles fizeram o convite e eu quero mudar de vida. Por que o que eu passei no CRF eu não quero passar nunca mais. E eu não quero que ninguém esteja lá. E, como aqui na UJS é uma oportunidade para estar ajudando vários jovens, eu aceitei”, justificou a agora militante. 




Andreza considera sua guinada ao PCdoB uma forma de transformar sua vida e a de outros jovens da periferia de Belém e região metropolitana. (FOTO: Kleyton Silva)

“É um projeto também para a periferia. Eu sou de lá. É dar a oportunidade porque muita gente só critica, não dá oportunidade.” Na sua nova empreitada, agora na militância, a jovem volta seu foco para a periferia. Para ela, “muitos jovens roubam, viram bandido, vendem drogas, porque não têm oportunidade”. Diariamente, as pessoas, “ao invés de ajudar, só sabem julgar, e chamar de vagabundo”, completa ela. “Foi o que aconteceu comigo. Por causa de um vídeo, fui chamada de traficante, de matadora, assaltante, sendo que isso nunca existiu na minha vida.”
 
A filiação ao PCdoB também abre outra possibilidade: a candidatura a um cargo eletivo. Com a proximidade das eleições municipais deste ano, ser candidata a vereadora é uma chance real. “Entrei na UJS para mudar minha vida. Mas, se pintar a oportunidade, não tem nada que me proíba”, argumenta. “O que eu quero mostrar para as pessoas é que basta dar uma oportunidade e que muitos não estão querendo dar.” 

“Eu agradeço muito. Tem muita gente para criticar, mas tem muita gente, de vários estados, que chegam no meu Facebook e falam que está comigo. Gente que me apoiou para eu não desistir.”

A candidatura, porém, se consolidada, só será anunciada após a convenção municipal do partido, que deve ocorrer apenas em julho deste ano. Ao final da entrevista, na sede do PCdoB, ela tinha dois recados. O primeiro para os fãs. “Eu agradeço muito. Tem muita gente para criticar, mas tem muita gente, de vários estados, que chegam no meu Facebook e falam que está comigo. Gente que me apoiou para eu não desistir.” E outro recado para os críticos. “Ah, eu quero que eles mudem de opinião. Porque não é assim como eles pensam. Então, queria que eles pensassem. Porque para julgar a família dos outros é fácil. Se acontecer na família deles, é muito difícil. E é muito ruim ser julgado por uma coisa que você não é”.
 
RESPOSTA
 
Procurada pela reportagem do Outros400, a assessoria de imprensa da Polícia Civil não se posicionou sobre as denúncias publicadas até o fechamento da matéria. Apesar das denúncias, sem dar mais detalhes, a assessoria de imprensa da Susipe encaminhou nota em que se limita a alegar que, “enquanto ficou detida Andreza Ariane Castro não teve nenhum tipo de tratamento diferenciado das demais presas”.

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