Casarão Flora

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Casarão localizado no bairro da Terra Firme é um centro de atividades gratuitas voltadas à população de Belém. No entanto, o local, que pertence oficialmente à UFPA, está exposto a ações criminosas.

Todas as semanas, nos dias de terça-feira, quinta-feira e sábado, a rua Tachi Branco, localizada no bairro da Terra Firme, é tomada pelo som de instrumentos de percussão, cantos e o pulsar de um berimbau. A movimentação vem de um casarão antigo, chamado de Casarão do Conjunto Flora Amazônica ou simplesmente Casarão “do” Flora. Além da roda de capoeira, o local abriga atividades como aulas de Jiu-Jitsu, arte circense, taekwondo, uma biblioteca pública e exibições de cineclube totalmente gratuitas, que atingem cerca de 100 pessoas e são geridas de forma autônoma, sem apoio do poder público. O lugar carrega uma história de abandono do poder público e de auto-organização dos moradores.

Após o final de uma atividade da Associação Cutimbóia, entidade responsável pelas atividades de capoeira Angola, em uma noite de calor, a arte-educadora Ló Ojuara relatou a história do casarão para os participantes da roda, que relaxavam o corpo depois de uma sessão de treino. “Esse casarão tem mais de 20 anos. Ele foi o resultado de um projeto de doutorado do professor Raimundo Cota, nos anos 90. Ele ia servir de modelo de um conjunto habitacional que iria abrigar os funcionários da UFPA (Universidade Federal do Pará)”, relembra.

O professor Raimundo Cota, que é hoje aposentado da Faculdade de Ciências Econômicas da UFPA, segundo Ló, teria projetado o casarão utilizando técnicas mistas de construção. O projeto arquitetônico uniu os saberes das casas de palafita dos ribeirinhos amazônicos a materiais vindos dos Estados Unidos, que são utilizados para evitar estragos graves em caso de desastres naturais. O projeto, no entanto, não foi levado adiante enquanto um modelo e o casarão tornou-se sede de uma unidade da Fundação Papa João XXIII (Funpapa). “Virou Funpapa nos anos 1998 e 1999 e depois ficou completamente abandonado. Até que, depois de uns anos, em 2007 ou 2008, a comunidade conseguiu uma verba com o IFPA (Instituto Federal do Pará)”, conta ela, que é também moradora do bairro.
A capoeira toca, dança e luta no Casarão: 
reforço à identidade negra das crianças da 
Terra Firme. (Foto: Klewerson Lima)

ASCENÇÃO 

Um professor de Língua Portuguesa que participou ativamente do casarão, entre os anos 2010 e 2012, afirma que ali funcionaram diversos cursos gratuitos ofertados à comunidade em parceria com o IFPA, como aulas de alfabetização para adolescentes e adultos, aulas de Língua Inglesa, Língua Portuguesa e cursos profissionalizantes como corte e costura. Inclusive, uma reforma do local foi realizada em 2012. “Nós atendíamos aproximadamente 1200 pessoas. Só no cursinho popular para o vestibular tínhamos 230 alunos. Depois, o projeto parou quando o IFPA suspendeu as atividades”, afirma o professor, que prefere não se identificar. “Ainda tentamos continuar, junto à Associação Comunitária Flora Amazônica, cobrando uma taxa de 20 reais, mas as pessoas não podiam pagar.”

“O Duciomar tentou tirar da gente. Outros tentavam se beneficiar politicamente, se aproximando na inauguração. Mas depois que acabaram os cursos, ninguém mais quis ocupar.”
 
Sem a ação do poder público, há cerca de dois anos despontou a iniciativa popular de ocupação do espaço, o que motivou a aproximação de pessoas que procuravam se apropriar da ação. “O Duciomar tentou tirar da gente. Outros tentavam se beneficiar politicamente, se aproximando na inauguração. Mas depois que acabaram os cursos, ninguém mais quis ocupar”, afirma. O professor e ativista acredita que os espaços públicos precisam ser sempre apropriados pela população a partir de um processo de sensibilização política que seja ininterrupta. “Fico muito feliz que ele continue sendo ocupado. É preciso que se disponibilize mecanismos que não deixam essas ações morrerem”, completa.

A assessoria de comunicação do IFPA respondeu que, de fato, ocorreram cursos profissionalizantes no casarão entre os anos 2010 e 2012. No entanto, de acordo com a instituição, as atividades foram suspensas pelo fato de o instituo possuir outros espaços como o prédio da reitoria e o campus de Ananindeua para desenvolver ações de extensão. “Foi, basicamente, por contenção de despesas. Pois a gente tinha que arcar com as despesas do casarão”, afirmou a assessoria. Até o fechamento da reportagem, não foram enviadas ao Outros400 informações sobre a quantidade de pessoas atendidas pelos projetos e se este mesmo contingente continuou sendo atendido em outros locais do instituto.

RESISTÊNCIA

 “A chegada da Associação Cutimbóia, nos últimos anos, caiu como uma luva, pois na capoeira são ensinados os valores de respeito, de circularidade”, ressalta Ló Ojuara. Ela afirma que um dos objetivos das atividades no casarão hoje é fortalecer a identidade negra nas crianças que participam das ações, como nas suas aulas de carimbó. “A Terra Firme é um local de forte relação com a cultura maranhense, com os bois Marronzinho e Boi da Terra, com a quadrilha junina Rosa Vermelha. Por isso aqui é um local muito rico de cultura popular”, acrescenta.


Legalmente, o Casarão Flora Amazônica ainda é propriedade da UFPA. Mas, na prática, quem conduz o espaço é a população do bairro. (Foto: Klewerson Lima)

Outro aspecto importante para a compreensão da ocupação do Casarão Flora, como também é conhecido, é a história da luta pela moradia no bairro da Terra Firme. “O Centro Comunitário Bom Jesus, que fica aqui próximo, foi o primeiro centro comunitário de Belém e reuniu muitas lideranças importantes na luta pela moradia”, disse o arte-educador e membro da Associação Cutimbóia, Leonel Oliveira. Ele se refere principalmente à chegada de muitas famílias maranhenses nos anos 1990, que ocuparam em massa o bairro e, segundo ele, protagonizaram momentos de enfrentamento com o poder público. “Inclusive, a relação entre a UFPA e os moradores sempre foi meio ambígua, de certa tensão”, completa Ló.

As ações educativas no casarão são mantidas hoje por festas organizadas pelos ativistas como Ló e Leonel, e pela contribuição de entidades parceiras como o Coletivo Casa Preta, o grupo circense “Circo Nós Tantos”, a Associação Cutimbóia e pessoas parceiras como a artista de rua Luana Weyl, que organizou a Brinquedoteca Pública 25 de Julho, presente no local. As organizações voluntárias, no entanto, enfrentam um grave problema: a insegurança.


O Jiu-Jitsu é uma das atividades desenvolvidas por colaboradores sem apoio algum do poder público. (Foto: Klewerson Lima)

“A gente já foi roubado ‘trocentas’ vezes.  Se deixamos aqui um garrafão de água, sempre levam”, diz Vinícius Cunha, instrutor de Jiu-Jitsu do projeto coordenado pelo professor Brian Palmer. “Já sofremos com a ação de vândalos, que desorganizaram toda a biblioteca uma vez”, lembra Ló.

CRIANÇAS

Apesar dos problemas, as crianças do bairro agradecem a existência do casarão. “Gosto muito daqui por ser de graça. Aqui eu faço capoeira, Jiu-Jitsu, Taekwondo. Eu moro próximo, na rua 1º de maio”, conta Juliana Almeida, de 11 anos. Segundo ela, em sua escola, o Colégio Mário Barbosa, não existem ações dessa natureza.

A assessoria de comunicação da UFPA afirmou que o Casarão do Conjunto Flora Amazônica ainda pertence ao patrimônio da universidade. Até a finalização da matéria, não foi informado pelo Centro de Regularização Fundiária (CRF) da universidade se existe algum projeto voltado ao local ou as razões do abandono pela instituição federal.

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