Pássaros Juninos

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O mês de junho é marcado por festas e tradições. Uma das mais icônicas são os Pássaros Juninos. Mas a falta de recursos e espaços para as apresentações coloca em risco a cultura popular.

O sol queima forte sobre o céu de Belém nos últimos dias de abril, dando os primeiros sinais do fim da estação das chuvas e o começo do verão amazônico, que, aparentemente, promete ser quente. O calor e a luz causam certo desgaste durante o dia, e o clima abafado da noite muitas vezes não permite o descanso necessário. Mesmo assim, em uma tarde de sábado, um grupo de pessoas encara uma caminhada pelo asfalto quente até uma casa no bairro do Telégrafo para brincar de atuar. Uma brincadeira séria, com roteiro, coreografia, figurino, cenário, muitos ensaios e uma forte tradição cultural nas costas. Mas, ainda assim, uma brincadeira. Esse é o espírito dos Pássaros Juninos, um movimento cultural paraense icônico da quadra junina, ao lado das quadrilhas, cordões de Bichos e dos Bois. Para quem participa, entretanto, os Pássaros cada vez mais estão perdendo espaço nos festejos de junho, e a tradição acaba abandonada nas sombras. Mas há esperança para os grupos verem a luz novamente?
OS PÁSSAROS 

Na rua Curuçá, próximo à esquina com a rua Coronel Luis Bentes, passando um pouco dos Correios da avenida Senador Lemos, fica uma estreita casa gradeada. Na calçada, quase em frente, uma gaiola de ferro no meio fio pode ser entendida como um sinal da predileção por aves na região. Apesar do ornamento, a moradora do local possui espírito livre e busca formas de tentar fazer os pássaros voarem cada vez mais alto. Sentada entre máquinas de costura, pedaços de tecido e uma série de roupas, Iracema Oliveira, guardiã do Pássaro Tucano, aguarda a chegada dos brincantes para realizar o ensaio das apresentações deste ano.

Tia Iracema, guardiã do Pássaro Tucano: esforço para manter viva a tradição junina. (Foto: Klewerson Lima)

Sorridente, animada e de um carisma enorme, “Tia Iracema”, como é chamada por quem lhe cerca, concorda alegremente em falar sobre a tradição dos Pássaros juninos, embora seja enfática ao corrigir quem comete o equívoco de perguntar sobre o “Cordão do Tucano”. “Não, mano, aqui não é cordão, não. Não vai te confundir, olha. Nós somos o Pássaro Tucano”, explica. 

Mas qual a diferença? Em termos gerais, a execução. Ambos são movimentos culturais tradicionais do período junino, em que uma história é contada através de música e encenação. Uma característica forte dos cordões é o posicionamento em meia lua, em que os participantes se apresentam e depois encerram o espetáculo, saindo de cena. “Do outro lado, os Pássaros são uma forma de teatro popular com histórias de comédia e drama, com música ao vivo, atores saindo e entrando de cena. Tudo seguindo sempre a tradição”, afirma Iracema.

Nos enredos, histórias sobre amor, vingança, dramas familiares e aventuras. Entre as personagens, elementos tradicionais do teatro, como príncipes, princesas, duques e marquesas, além de outros mais familiares a estas terras, como o matuto, o caçador e índios.
A tradição é antiga no Estado. Registros da Secretaria Estadual de Cultura (Secult) apontam grupos de Cordões de Bichos e de Pássaros Juninos desde o século XIX, principalmente a partir dos anos de 1900, durante o período da Belle Époque.

“O Teatro São Cristóvão era nosso maior local. Era rota de ônibus, então tanto todos os grupos tinham acesso, como o público também. Eram grandes espetáculos, com dezenas de grupos, uma coisa muito linda. A quadra junina não era oficialmente aberta enquanto não houvesse a apresentação dos Pássaros lá”

“Tinham aquelas apresentações de teatro e ópera no Theatro da Paz e outros espaços, coisa da Europa, que falavam sobre reis, fadas, essas coisas. O povo diz que tinha isso lá. O pessoal não podia assistir, só ouvia histórias de como era. Aí fazia a mesma coisa nas suas apresentações”. As encenações ocorriam principalmente durante o festejo da quadra junina, período que acabou sendo o abrigo desses grupos.

DIFICULDADES

Com o tempo, os Pássaros acabaram se tornando um elemento bastante tradicional na cultura paraense. Grupos eram encontrados em todos os bairros de Belém, inclusive nos distritos de Icoaraci, Outeiro e Mosqueiro. Atualmente, 22 grupos mantêm a tradição na cidade, a maioria dirigidas pelos descendentes dos criadores e primeiros brincantes.

“Eu entrei no Pássaro Tucano quando tinha cerca de sete anos, por volta de 1945. Naquela época não tinha internet, festa na night, essas coisas. Então o povo era voltado só para o mês de junho, para a apresentação dos Pássaros”, conta Iracema. “Tinham vários espaços nos bairros, em quermesses. A gente saía 19h da sede e fazia até quatro apresentações por noite. O mês todo”.





A esperança de manter a tradição está nos novos brincantes dos Pássaros, como o jovem Fabrício Magalhães(canto esquerdo). (Foto: Klewerson Lima)

O passar do tempo, entretanto, foi ingrato com o movimento cultural. “Com os anos, os espaços foram fechando, os grupos também foram dando uma quebra… e hoje a gente fica no ‘ora,veja’. Espaço físico não tem. Captação de recursos, também não. É um pouco aqui, um  pouco ali. Não tem salário. Muitas vezes tenho que gastar do meu bolso”, afirma a guardiã. “Por sorte o Governo do Estado sempre faz apresentação no Margarida Schivasappa (no prédio do Centur). A prefeitura fica na incerteza”.

A diminuição no ritmo de apresentação dos grupos preocupa Iracema. “A gente fica assim, sem saber. Porque os Pássaros são talvez a manifestação mais importante em nosso Estado. Porque só tem aqui. Quadrilhas, casamento da roça, bois e similares são importantes, mas têm em outros locais. O Pássaro não. Se acabar aqui, não vai mais existir”, afirma.

Como sobreviver, então? Aparentemente, a garra, esperança e uma boa dose de teimosia. “A gente vai chamando quem dá pra participar. Vê um rapaz que vem fazer alguma coisa e já convida, ai vai insistindo até convencer. Mas é uma tradição gostosa, que muitos jovens acabam se apaixonando”.
Foi o caso de Fabrício Magalhães, de 15 anos. Frequentando o Tucano desde os sete anos, o jovem já havia feito pontas sem falas nas apresentações. Mesmo tímido, irá neste ano encenar o papel do príncipe, com certo destaque. Segue os passos do pai, brincante do Tucano por diversos anos, até falecer em outubro do ano passado.

“A gente fica assim, sem saber. Porque os Pássaros são talvez a manifestação mais importante em nosso Estado. Porque só tem aqui. Quadrilhas, casamento da roça, bois e similares são importantes, mas têm em outros locais. O Pássaro não. Se acabar aqui, não vai mais existir”

“Eu já ajudei a montar as peças, até apareci outras vezes, mas a Tia Iracema ficava insistindo pra eu me apresentar. Agora vou, com muito orgulho em manter essa tradição, que vem tentando se manter como era feita antigamente”, afirma.

O TEATRO SÃO CRISTÓVÃO

Um dos problemas que os brincantes afirmam passar é a falta de espaço. “Atualmente a gente se apresenta onde chamam. Teatro, quadra, uma rua fechada. Não há local que a gente se recuse. Não tem mais um espaço reservado para os Pássaros”, conta Iracema.


Antes imponente, o teatro está completamente abandonado atualmente. (Foto: Kleyton Silva)

Mas já houve. O local, inclusive, ficou conhecido como a Casa dos Pássaros. Era o Teatro São Cristóvão, na avenida Magalhães Barata, em frente ao Parque da Residência.
“O Teatro São Cristóvão era nosso maior local. Era rota de ônibus, então tanto todos os grupos tinham acesso, como o público também. Eram grandes espetáculos, com dezenas de grupos, uma coisa muito linda. A quadra junina não era oficialmente aberta enquanto não houvesse a apresentação dos Pássaros lá”, lembra a guardiã do Tucano.

Para quem passava em frente ao local durante a década de 40, 50 e 60, o teatro era reconhecido como um grande prédio, com enorme circulação de pessoas e uma chamativa faixa na fachada anunciando as atrações durante o mês de junho. Na década de 90 e começo dos anos 2000, o local pode ser lembrado como o imóvel antigo em que estudantes retiravam suas carteiras de meia passagem em ônibus. Atualmente, o teatro é nada mais que um prédio abandonado, coberto por mato e de estrutura deficiente, entre uma padaria e um edifício em  construção. 


Estrutura deteriorada e coberta por plantas são as atuais marcas do prédio, que esteve sob risco de desabamento. (Foto: Kleyton Silva)

“Me entristece muito ver o Teatro neste estado. Em 2014,  a Marta Suplicy (então ministra da Cultura) veio aqui, falou sobre um projeto de reconstrução do local. O Paulo Chaves (secretário estadual de Cultura) chegou a falar sobre como seria a reforma, me mostrou as ideias. Mas aí não vi nada mais sobre isso”, lamenta Iracema.

Na época, o Ministério da Cultura havia liberado um orçamento de R$ 8 milhões para revitalização do espaço, que, após as obras, teria um teatro com capacidade para mais de 200 lugares, além de abrigar a sede da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz e da Amazônia Jazz Band, um Memorial dos Pássaros Juninos e da história da Associação de Chauffeurs, e um local dedicado ao padroeiro, São Cristóvão. Dois anos depois, da calçada é possível ver partes da estrutura sem telhado, tomada por plantas.

“A revitalização do São Cristóvão seria um ponto importante para reviver a tradição dos Pássaros. Ver o teatro abandonado me dói muito. Sei o bem que faria à cultura popular. Porque é isso que o Pássaro representa, a cultura popular. É isso que queremos levar adiante”.
Por nota, a Secretaria de Estado de Cultura informou que houve o compromisso do Ministério da Cultura, mas que “a ministra saiu e na interinidade não tivemos a garantia de mais nada e, evidentemente o dinheiro não foi repassado”. A secretaria ainda afirmou que voltou “a apresentar a solicitação ao Ministério da Cultura e desde então estamos aguardando, embora achemos muito difícil por conta da crise”.

A secretaria afirmou ainda que foi feito um Reforço Estrutural para que o prédio não desabasse, e que “o São Cristóvão não é propriedade da Secretaria de Cultura, é uma propriedade particular tombada”.

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