Cultura do Estupro

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram
O Outros400 estreia uma coluna semanal voltada exclusivamente às questões de gênero e à causa feminista no Brasil. No primeiro texto da série, a escritora e professora Paloma Franca Amorim expõe as razões para o uso do termo cultura do estupro no contexto em que vivemos.

Imaginemos que esses 33 rapazes responsáveis pelo estupro da menor no Rio de Janeiro fossem apenas três contra uma mulher de quarenta anos em Roraima.  Novamente: imaginemos agora oitenta rapazes, uma menor de idade, em uma cela de prisão no interior do Pará durante meses a fio. Imaginemos que agora os agressores são o filho mais velho de uma família de classe média, a vítima é sua irmã menor, a violência dura exatamente nove anos, em uma linda casa em Brasília. 
A cultura do estupro é uma violência sistêmica, combatida pelo movimento feminista 
(Foto: Klewerson Lima)
As notícias sobre a violência sexual contra a menor de 16 anos correram mais rápido do que o comum, isso porque as vias de acesso às provas do crime foram descobertas não pelos colegas jornalistas ou pela polícia: o material foi divulgado pelos próprios agentes do crime, de forma assustadoramente espontânea, nas redes sociais. No vídeo, o corpo da jovem desacordada é exposto jocosamente como se não passasse de um saco de batatas revirado pelas mãos brincalhonas de seus manipuladores, ali também ecoam comentários sobre o que ocorreu com a moça durante o final de semana inteiro. O fato de tamanha violência ter se tornado uma postagem cotidiana do espaço virtual demonstra uma realidade ainda mais aterrorizante para toda e qualquer mulher: se não há constrangimento na partilha global de cenas de estupro, certamente esse tema não causa nenhum tipo de desconforto ético na esmagadora maioria dos homens brasileiros. As imagens humilhantes da moça, antes de provocar indignação, foram um material bastante compartilhado – tão banalmente quanto qualquer outro factoide ou meme da internet. 
Esse texto é escrito por uma mulher e não me furtarei à liberdade (já que os homens também não abrem mão dela) de defender um ponto de vista de gênero.
Não entrarei aqui no mérito de várias mulheres terem se colocado contra a vítima, reproduzindo um discurso extremamente conservador e machista para justificar sua posição condenatória. Esse texto é escrito por uma mulher e não me furtarei à liberdade (já que os homens também não abrem mão dela) de defender um ponto de vista de gênero sobre esse episódio e sobre tantos outros ocasionados pela chamada cultura do estupro. 

Cultura, em uma definição simplificada, é toda ação e reflexão humana que se desdobra temporalmente na História cumprindo uma espécie de estabilização das relações em sociedade, sejam elas civilizadas ou não. É importante ver nesse quadro, portanto, que a ideia de civilização não garante a manutenção política dos direitos humanos, tampouco dos direitos específicos das mulheres, isso porque ao longo de toda História que permeia e baliza o pensamento ocidental toda civilização está, irrevogavelmente, assentada sobre a barbárie.  As sociedades ditas evoluídas são justamente aquelas que imperiosamente massacraram suas bases coloniais, o melhor exemplo disso é a relação entre a Revolução Francesa da qual se extraíram verdades universais humanistas e a independência do Haiti, país colonizado pela França que nunca usufruiu desses pressupostos éticos. A mesma lógica pode ser observada na relação entre povos indígenas e seus colonizadores progressistas também na América Latina, essa relação foi notificada historicamente como um encontro entre selvagens e homens esclarecidos. O genocídio foi promovido pelos esclarecidos. 
Quantas mulheres de família já não foram vítimas de estupro? Quantas não sabem o que significa ter prazer sexual? E quantas filhas não foram ferramenta de iniciação sexual de primos e irmãos?
Em uma perspectiva de gênero mais recortada, toda boa casa de família é a configuração do aparato civilizatório do Estado. Dentro dessa boa casa existe muita violência física e psicológica associada à educação patriarcal. Essa condição, entretanto, não é verificável a olhos nus, pois o que se apresenta publicamente é a aparência higienizada dessas relações, mas no privado quantas mulheres de família já não foram vítimas de estupro? Quantas não sabem o que significa ter prazer sexual? E quantas filhas não foram ferramenta de iniciação sexual de primos e irmãos? 

As agressões se espraiam para além do compadrio: quantas empregadas domésticas não são obrigadas a sucumbir aos desejos do sinhozinho para garantir seu trabalho? 

A argumentação de que o crime de estupro está associado à barbárie é falseada e preconceituosa, se assim fosse, a família tradicional brasileira seria, nesse quesito e em tantos outros, o espaço mais protegido dessa violência. 
A reação imediata de patologização, animalização, dos estupradores cria uma cortina de fumaça para uma realidade social que diz respeito a todos os segmentos sociais
O caso da jovem no Rio de Janeiro, para além de revelar fatores sociais gravíssimos evidentes em qualquer comunidade periférica do país (e que obviamente colaboram com os altos níveis de violência de gênero uma vez que essa problemática está diretamente associada a fatores sociais importantes como educação, estabilidade econômica e autonomia política), escancara os reais pilares da cultura do estupro. A reação imediata de patologização, animalização, dos estupradores cria uma cortina de fumaça para uma realidade social que diz respeito a todos os segmentos sociais. Os 33 agressores, do ponto de vista de uma ética de gênero, são homens como quaisquer outros, vereadores, publicitários, bispos etc. – chamá-los de monstros é um jeito de nos afastarmos de uma dolorosa realidade: todo homem educado para ser o gênero forte de nossa cultura é potencialmente um estuprador.
Paloma Franca Amorim nasceu em Belém do Pará em 1987. É escritora, professora e faz samba. Publica crônicas há dez anos no caderno Magazine de variedades do jornal O Liberal do estado do Pará, foi colaboradora da revista virtual Geni, sobre gênero e sexualidade, e hoje edita a Revista Eneida, plataforma virtual organizada por mulheres sobre cultura e experimentação literária.

Continue lendo...

Guajajara

Sônia Guajajara foi recebida com um canto de saudação na sala da Associação dos Povos Indígenas Estudantes na Universidade Federal do Pará (APYEUFPA), na última