Fórum das Ilhas

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O Fórum de Desenvolvimento Sustentável das Ilhas de Belém é uma iniciativa criada há sete anos para funcionar como um espaço de reivindicação de melhorias de vida para a população ribeirinha. No entanto, a falta de transporte e água potável são problemas que persistem.
 
O dia começa bem cedo para Dona Maria Cândida. Quando os primeiros raios de sol tocam a janela de sua casa, ela já está coando o café para as três filhas. As meninas precisam acordar cedo, tomar banho e se arrumar para pegar a condução até a escola. O trajeto é longo, então todo o processo precisa ser feito com antecedência. Após as garotas saírem, Dona Maria lava a louça e sonha com um futuro promissor para elas. Universidade, diploma, trabalho e dignidade. Tudo isso vem à mente enquanto esfrega a esponja ensaboada nas xícaras sob a água de cor amarelada. A vida é boa, mas as dificuldades são muitas. A distância do centro, a falta de saneamento, de mobilidade urbana, de serviços. Pontos que cansam quem vive esse tipo de realidade, e por vezes torna mas árdua a tarefa de conseguir novas conquistas.
 
A vida de moradores da periferia de Belém é complicada. Bairros como Jurunas, Terra Firme, Barreiro, Cabanagem e tantos outros sofrem com diversos problemas estruturais e de abandono do poder público. Mesmo assim, muitas vezes possuem condições melhores que as de Dona Maria. Ela vive além. É moradora de uma das 39 ilhas que compõem Belém, junto com a sede principal. Lá, a situação é bastante complicada. Por isso, projetos sociais e iniciativas que visem melhorar as condições dessa população são bem vindas. E não apenas para que as comunidades ribeirinhas busquem auxílio, mas que provoquem o poder público em busca de melhorias e atuem diretamente na construção de melhores condições.
 
Uma dessas iniciativas é o Fórum de Desenvolvimento Sustentável das Ilhas, organização feita pelos próprios moradores das ilhas, com apoio de entidades e órgãos públicos, que promove ações para erradicar os principais problemas das comunidades ribeirinhas, em áreas como saneamento, saúde e desenvolvimento.

O isolamento das comunidades ribeirinhas é um problema grave. Uma parte considerável da população fica sem acesso a elementos básicos, como água tratada e unidades de saúde. (Foto: Kleyton Silva) 

SITUAÇÃO COMPLICADA
 
Segundo o Plano Piloto de Belém, 65% do território da capital paraense é formado por ilhas. Isso sem contar os terrenos pertencentes aos outros municípios da Região Metropolitana de Belém. Uma área extensa, que concentra uma parcela bastante significativa da população, mas que mesmo assim, enfrenta uma série de dificuldades.
 
As duas principais ilhas são a de Mosqueiro e do Caratateua, onde fica o distrito de Outeiro. Ambas possuem uma dinâmica diferenciada do restante das ilhas. Primeiro, pela densidade populacional. De acordo com dados da prefeitura de Belém, Outeiro possui cerca de dois mil habitantes permanentes, que moram de fato na ilha, embora a população chegue a subir para 5 mil durante os fins de semana e períodos de férias escolares.  Mosqueiro é mais populosa. Segundo o último senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o distrito possui atualmente cerca de 28 mil habitantes, população equivalente à um município de médio porte. Para associações de moradores locais, o número é ainda maior, chegando próximo à 50 mil.

“É um isolamento mesmo. São mais de 20 anos que moro aqui no Acará, e a gente sempre enfrentou esses problemas. Não tinha luz, usa água do rio, não tem remédio, não tem vacinação. A gente vê que em todas as ilhas o problema é parecido. Parece às vezes que, se a gente não se cuidar, ninguém vai”
 
Outra diferença é a proximidade com o centro da capital. Pelo menos na questão logística. Embora esteja afastada do centro cerca de 70 quilômetros, Mosqueiro possui acesso viário, e assim como Outeiro, possui linhas regulares de ônibus que fazem o transporte público com a sede da capital. Os distritos também possuem, embora não livre de falhas, sistema de abastecimento de água e esgoto, provenientes do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Belém (Saaeb), da prefeitura. Mesmo assim, as dificuldades e reclamações sobre a qualidade dos serviços ofertados e de vida na região são constantemente lembradas por moradores dos locais. Nos últimos seis meses, comunidades de ambas as ilhas chegaram a interditar as pontes de acesso aos distritos, isolando os locais, durante protestos cobrando maior atenção do poder público.
 
Nas outras ilhas, os problemas são ainda maiores. Questões como o afastamento do centro, falta de logística de transporte, ausência de rede de tratamento de esgoto, água encanada e unidades de saúde toram a vida nas ilhas dificultosa para muita gente.
 
“É um isolamento mesmo. São mais de 20 anos que moro aqui no Acará, e a gente sempre enfrentou esses problemas. Não tinha luz, usa água do rio, não tem remédio, não tem vacinação. A gente vê que em todas as ilhas o problema é parecido. Parece às vezes que, se a gente não se cuidar, ninguém vai”, afirma Dona Maria.

Belém conta com 39 ilhas. Além dessas populações, o Fórum conta com comunidades de outros seis municípios. (Foto: Kleyton Silva) 

O FÓRUM
 
A ideia de que é preciso de mobilizar para conquistar a mudança que se quer é a base teórica do Fórum de Desenvolvimento Sustentável das Ilhas. Criado oficialmente em 2009, o projeto é resultado de um trabalho feito alguns anos antes nas ilhas de Belém e Ananindeua por sacerdotes católicos, em parceria com órgãos públicos, buscando promover o desenvolvimento sustentável das populações locais.
 
Até então, a maioria dos projetos que eram realizados na área focavam apenas na questão florestal, sem destaque às populações que habitavam a região. Então, foi elaborado um projeto de cidadania, que acabou abandonado durante a fase de desenvolvimento. As comunidades ribeirinhas então assumiram a organização do Fórum, elaborando as pautas de reivindicações e organizando a entidade.
 
“O fórum foi constituído para promover a defesa, preservação do meio ambiente e promoção do desenvolvimento sustentável das populações ribeirinhas”, afirma Padre Jonas, coordenador do movimento. Com o tempo, foi feito um mapeamento dos principais problemas enfrentados pela população local, e elaborado planos para reverter essas questões, além de estratégias para serem discutidas com o poder público de como melhorar as condições de vida na região.
 
Uma das principais questões discutidas no Fórum é o acesso à água potável. “A aquisição de água potável é um problema que deve ser enfrentado pelas autoridades. Cuidar das populações ribeirinhas levando água potável deve ser uma política permanente dos governos. Além da energia elétrica, habitação e outros fatores. O saneamento básico também é um dos grandes problemas enfrentados. O lixo produzido pelas populações são jogados na mata, no rio ou queimados”, explica padre Jonas.

 “A aquisição de água potável é um problema que deve ser enfrentado pelas autoridades. Cuidar das populações ribeirinhas levando água potável deve ser uma política permanente dos governos. Além da energia elétrica, habitação e outros fatores. O saneamento básico também é um dos grandes problemas enfrentados.

A questão da saúde também já foi abordada pelo Fórum, que já realizou campanhas de prevenção ao câncer no colo de útero, higiene bucal e similares. Educação, cidadania e direitos da população também foram temáticas trabalhadas nas ações do Fórum. “Entre as ações se destacam as visitas constantes, a promoção de ação de saúde e cidadania; confecção de cursos diversos e a busca de parceiros na confecção de cisternas para captação de água da chuva, ou junto a Funasa e outros parceiros a confecção de SALTA-z (tecnologia de captação e tratamento da água do rio)”, completa o padre.
 
Atualmente, comunidades de sete municípios integram o Fórum: Belém, Ananindeua, Acará, Barcarena, Abaetetuba, Bujaru e Santa Bárbara do Pará. O Fórum realiza encontros anuais, onde é feito o debate sobre as principais necessidades das populações, além de encontros regulares para promover ações e discutir alternativas às políticas públicas para sanar questões urgentes.
 
“Acreditamos que a maior conquista foi sensibilizar os governos para que tenham política voltadas para estas populações. No último sábado, 4, estivemos na Ilha Nova (pertencente à Belém) realizando juntamente com a prefeitura e a Policia Civil uma ação de saúde e cidadania”, conclui o coordenador.

A esperança é melhorar a situação de quem vive na beira do rio, como Dona Maria Cândida. “Eu gosto muito daqui, não tem as complicações de Belém. É difícil, mas em cada passo a gente vai melhorando. Não quero sair não. Espero que fique melhor, claro. Mas isso vai acontecendo. Ainda vou ver essa comunidade cheia de condições”, afirma.

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