Feminismo Negro

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O feminismo negro no Brasil e a necessidade de um pensamento voltado à compreensão das relações entre raça, gênero e classe são o assunto do texto da psicóloga e ativista Flávia Câmara na coluna de mulheres do Outros400. Confira o artigo inédito.
“Feministas protestam pelo fim da violência contra mulher na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), algumas urinam em um balde e depois jogam nas paredes e chão.”
O que era para ser uma crítica à violência contra mulher demonstra que, ainda na atualidade, nós, mulheres negras, estamos de fora das agendas revolucionárias do feminismo tradicional, uma vez que ações como essa (que não são isoladas) ignoram que será uma mulher negra, pobre, quem irá limpar o chão e paredes; uma posição social que se perpetua desde o período da escravidão. Essa mesma mulher que segundo o último Mapa da Violência Contra Mulher viu o cruel aumento do número de feminicídios negros para 54%, enquanto o de mulheres brancas caiu em 9,8%.
O feminismo negro começou a articular-se a partir do final dos anos 70 e compreende a importância de fragmentar noções modernas sobre o ser humano (FOTO: Kleyton Silva)
Desde sua origem, o feminismo surge a partir de demandas de uma mulher universal, branca, classe média e heterossexual, com suas experiências ocupando o lugar central das reivindicações. Mulheres negras fizeram parte das lutas do feminismo hegemônico, mas ao perceber que nossas dores e nossa existência eram anuladas, várias mulheres começaram a questionar e escrever novas perspectivas sobre o (s) feminismo (s). Assim, no final dos anos 70 e, aqui no Brasil, nos anos 80, mulheres negras emergem enquanto sujeitas políticas autônomas, assumindo posturas críticas ao movimento negro que não discutia questões sobre o sexismo e ao feminismo tradicional que não discutia sobre o racismo. Foi preciso enegrecer o feminismo para trazer as experiências, romper silêncios e fragmentar noções modernas sobre o mundo e o ser humano.
“É urgente que nós comecemos a aprender com o que diversas feministas negras tem dito há anos, quando apontamos que nós não podemos nos dar o luxo de escolher contra qual opressão lutar”.
Ainda hoje quando o assunto é racismo ecoa o silêncio dentro dos diferentes movimentos, sendo considerado esse um tema de segunda ordem, quando não, segue sendo ignorado. É urgente que nós comecemos a aprender com o que diversas feministas negras tem dito há anos, quando apontamos que nós não podemos nos dar o luxo de escolher contra qual opressão lutar, pois somos atravessadas pelos diferentes marcadores. Somos mulheres negras, em sua maioria, pobres, com orientações afetivas,corpos cis e transgêneros , de idades diferentes, quilombolas ou não, logo precisamos lançar mão da interseccionalidade como ferramenta para pensar na articulação dos sistemas raça-gênero-classe.

Compreender o lugar que o racismo ocupa no ordenamento social, econômico e político do país significa se contrapor às estratégias de dominação sutil que insistem em fazer crer que no Brasil existe o mito da democracia racial. O Brasil tem como pedra angular da formação do estado-nação, dos seus pilares de civilização, ordem e progresso, o sangue, a dor e o suor das negras e negros que foram sequestrados do continente africano e, aqui, escravizados. O país se ergue sobre o peso histórico do sistema colonial-escravocrata que, por quase 400 anos, desumanizou, violentou e matou a população negra, deixando marcas indeléveis que se perpetuam em nosso corpo negro até a contemporaneidade.
“Negros (pretos e pardos) representam mais da metade da população brasileira e mesmo assim continuamos em minoria nos centros de decisão política, nas universidades, no mercado de emprego formal”.
Perder de vista que negros (pretos e pardos) representam mais da metade da população brasileira e mesmo assim continuamos em minoria nos centros de decisão política, das universidades, no mercado de emprego formal, e em contrapartida, a nossa presença é maior nas periferias, favelas, prisões, no topo dos índices de violência doméstica e assassinatos, é fazer coro com um racismo à brasileira (que acredita que aqui só existe a raça humana e não há racistas), uma história oficial embranquecida que forjou um povo e um Estado.

Somos frutos do estupro colonial que alimenta a técnica da mestiçagem orientada a um embranquecimento que fragmentou nosso povo em matizes cromáticas, dificultando nossa identificação positiva com a negritude e nos relegou aos mais baixos substratos socioeconômicos e políticos do país.

Perder de vista tudo isso é acreditar que quando mulheres negras apontam que precisamos discutir sobre o racismo fora das amarras colonizantes do nosso pensamento, estamos dividindo um movimento que surge unilateralmente e ao qual não fomos incluídas. 

“Queremos caminhar lado a lado em prol de uma nova sociedade, mas para que isso seja possível é preciso desconstruir a colonialidade das suas visões e do pensamento, romper com o silêncio do racismo no Brasil”.
Ignorar a articulação do sistema raça-gênero-classe e suas táticas de manutenção do status quo é acredita em racismo reverso, isto é, pessoas brancas que assumem um lugar de vitimismo quando seus privilégios históricos são questionados em uma pífia tentativa de criar falsas simetrias e deslegitimar denúncias sobre um racismo estrutural e institucional que negou direitos à população negra, indígena e outras minorias étnicorraciais.

Deste modo, entender como se constrói sócio-historicamente essa matriz articulada de dominação (raça-gênero-classe) é enxergar que atos como o da matéria citada, falam a partir de um feminismo tradicional que não enxerga mulheres negras, não discutem sua própria racialidade (sim, brancxs também precisam sair do campo do silêncio e discutir branquitude), lutando de forma parcial contra um sistema de exclusão que é articulado e se retroalimenta.

Queremos caminhar lado a lado em prol de uma nova sociedade, mas para que isso seja possível é preciso desconstruir a colonialidade das suas visões e do pensamento, romper com o silêncio do racismo no Brasil que nos é muito caro. É preciso que se leiam as produções e reivindicações de feministas negras e intelectuais do movimento negro, que se ouçam as demandas da dona Maria, mulher negra, preta, pobre, periférica porque ela também tem muito a nos ensinar. É a circularidade da vida que forja novas ferramentas de combate!

Flávia Câmara é feminista negra, amazônida, antiproibicionista, psicóloga e costura a Rede de Mulheres Negras.

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