Profissionalização

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Às vésperas das Olimpíadas no Brasil, as atletas na capital paraense ainda sonham em fazer do esporte a sua profissão. Caroline Quaresma, nossa colunista dessa semana, conquistou posições de destaque no triathlon, mas mesmo assim teve que abandonar o esporte.  

Quem são as atletas profissionais do Pará? Elas existem? Existem, mas quase sempre elas abandonam o estado quando decidem ir em busca do sonho de se tornar atletas profissionais. Ser atleta profissional no estado do Pará é algo tão difícil que é considerado um sonho. 

 

 Futebol feminino é um dos esportes que sofre com falta de estrutura, de incentivo e com a pouca visibilidade. (Foto: Kleyton Silva)

 

A situação só piora quando falamos de mulheres negras. Talvez você lembre agora de alguma atleta que tenha disputado e até vencido alguma competição em nível estadual, regional ou até mesmo nacional. Mas raramente vai ver esta atleta se profissionalizando, mesmo que ela compita a em alto nível, mesmo que sua performance seja ao nível de uma atleta profissional.     

É fácil muitas ex-atletas ou atletas amadoras se tornarem profissionais de educação física, professoras, médicas, enfermeiras, jornalistas, por exemplo. Mas não serão atletas profissionais. É raro, raríssimo. Pois não existe uma política pública efetiva de incentivo ao esporte no estado do Pará, muito menos de desenvolvimento de ações de fomento ao esporte e ao lazer.

 

A invisibilidade da mulher atleta é tão violenta que quase não vemos mulheres profissionais, muito menos as negras

 

Quanto a profissionalização de atletas podemos falar de questões de classe, mas quando vamos de questões de gênero e questões étnico-raciais o problema é bem mais embaixo. Você já viu alguma mulher negra atleta profissional no Pará? Já viu alguma mulher transgênero? A invisibilidade da mulher atleta é tão violenta que quase não vemos mulheres profissionais, muito menos as negras.  

         

Você já viu alguma partida de futebol feminino profissional em um estádio lotado? Já viu lutadoras de jiu-jitsu, judô, karate ou MMA (Mixed Martial Arts) profissionais paraenses? Conhece alguma nadadora, corredora ou ciclista profissional? Já viu alguma triatleta profissional no Pará? Bem, até que tem algumas triatletas no estado do Pará. Mas apenas uma é negra e, de todas elas, nenhuma é profissional. 


Caroline durante prova nacional de thiathlon (Foto: Ivan Carmo)

Há poucos anos iniciei treinos e competições no triathlon amador em Belém. Logo de cara percebi que era a única mulher negra no esporte, além de já ser praticado por poucas mulheres. Mesmo recebendo premiação em primeiro lugar na minha categoria e conseguir colocações entre os primeiros cinco lugares, também na categoria, em nível nacional não consegui me manter no esporte.

 

Há poucas piscinas para treinar em horário livre em Belém, há pouca disponibilidade de ampla pista para treinar o ciclismo com segurança assim como para a prática da corrida

 

O triathlon é um esporte que requer muito investimento, seja nos equipamentos, nos treinos e competições, seja no tempo, na dedicação, na atividade como um todo. É um esporte que junta natação, ciclismo e corrida. Há poucas piscinas para treinar em horário livre em Belém, há pouca disponibilidade de ampla pista para treinar o ciclismo com segurança assim como para a prática da corrida. 

Quando percebi o meu orçamento pessoal diminuindo e as condições de treino também se reduzindo, eu resolvi pausar as minhas atividades no esporte. Sem patrocínio fica inviável, e minha patrocinadora era eu mesma. A atividade começou como um uma prática de atividade física qualquer, mas quando comecei a perceber possibilidades de alcançar maiores índices para competições comecei a me empolgar, mas o investimento não acompanhou. 

 

Mulheres desistem da carreira profissional por falta de incentivo e patrocínio, desistem por conta do assédio moral e sexual, desistem por conta do machismo e do racismo diário

 

Vivemos o machismo e o racismo velado e institucionalizado, inclusive no esporte. Mulheres desistem da carreira profissional por falta de incentivo e patrocínio, desistem por conta do assédio moral e sexual, desistem por conta do machismo e do racismo diário que passam despercebidos pelos olhos da própria vítima inclusive. 

Cadê os programas de incentivo ao desporto? Cadê os centros de treinamento poliesportivos? Cadê as arrecadações de nossos impostos revestidos em serviços públicos de qualidade de política pública de ação afirmativa? Cadê a identidade das atletas paraenses?

Quando alguma atleta alcança a profissionalização, como a jogadora de vôlei Larissa França, é necessário abandonar o estado ou até mesmo o país, como no caso da Marta, jogadora de futebol. O número de atletas mulheres profissionais é tão pequeno no Pará que é difícil até achar dados estatísticos para saber números e a informações precisas.  

 

A identidade étnico racial é algo a ser discutido dentre os atletas, é uma pauta que quase inexiste; mesmo observando que o números de atletas de estereótipo negro (pretos e pardos) sejam mais de 50%

 

Existe pouca mobilização de atletas paraenses que questionam políticas públicas de ação afirmativa identitária no estado. As mulheres ainda são em número menor, tanto em formação esportiva quanto o quantitativo de mulheres atletas amadoras, e é menor ainda a quantidade de mulheres profissionais. A identidade étnico racial é algo a ser discutido dentre os atletas, é uma pauta que quase inexiste; mesmo observando que o números de atletas de estereótipo negro (pretos e pardos) sejam mais de 50%. A auto-idetificação, a auto-declaração étnico racial e a tentativa de visibilidade como tal, parece ainda ser uma pauta adormecida entre atletas amadores e profissionais no estado. 

Quanto à identidade de classe, talvez essa seja umas das discussões mais abertas atualmente, mais que a de gênero. No estado do Pará, o jogador profissional de futebol de campo masculino é idolatrado pela torcida e recebe investimento. Já o futebol de alto nível de campo feminino não é profissional pela falta de investimento e invisibilidade.


Caroline de Paula Bitencourt Quaresma é professora e tradutora, ativista do movimento Mulheres Negras em rede e triatleta amadora interrompida.

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