Protagonismo feminino

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A professora e pesquisadora Patrícia de Araújo, da Universidade do Estado do Pará (UEPA), debate o tema da inserção das mulheres nos esportes e o protagonismo feminino na área.
O tema mostrou-se um desafio. Principalmente, quando nós, mulheres, falamos de esporte ou pensamos no conceito de esporte como uma prática corporal, nesta que mal deixa entrever o universo de significações simbólicas, psíquicas, sociais, culturais, históricas, políticas e econômicas. E, ainda, pensar as mulheres neste universo esportivo que tem sido alvo de debates em todos os meios de comunicação por ter-se tornado um produto cultural de massa.
A presença da mulher no esporte enfrentou decretos e instituições machistas para afirmar-se historicamente (FOTO: Moisés Sarraf)
Durante um longo período na linha do tempo, a História foi escrita sob a ótica masculina como classe hegemônica da produção do conhecimento. Podemos, portanto, admitir que essa hegemonia masculina acabou produzindo uma versão parcial da história da humanidade que marginalizou mulheres, negros, índios, deficientes, homossexuais e outros. No que tange à temática, percebemos que ela foi marcada por tensões no processo de apropriação das mulheres em todo o mundo, principalmente as mulheres brasileiras e paraenses pelos esportes.
Neste sentido, movimentos moralistas desafiaram a inserção da mulher brasileira no esporte no século XIX. Durante o decorrer do século XX, as mulheres chegaram a enfrentar interdições, estabelecidas pelo Conselho Nacional do Desporto (CND). “Às mulheres não se permitirá prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo para este efeito o CND baixar as necessidades de instruções às entidades desportivas do país”, dizia o artigo 54 da lei que criou o conselho em 1941.
No século XX, mais precisamente em 1965, outra deliberação ratificava a proibição: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, rúgbi, halterofilismo e baseball”.
Mesmo com as crescentes conquistas femininas e o consequente aumento da participação das mulheres nos esportes, as desigualdades entre os sexos são constantemente reafirmadas e naturalizadas
Essas intervenções surgiram a partir do receio de alguns membros da sociedade de que a mulher perdesse suas características femininas. Uma medida que se referia à mulher por sua aparência meiga, delicada e sensual. Havia, portanto, alguma preocupação de que certas modalidades esportivas masculinizassem a mulher, tanto no tocante ao caráter e à sexualidade quanto na aparência e no jeito feminino de ser. Essa proibição estava na base de uma argumentação cuja ideia central era a de proteger a integridade física da mulher e, consequentemente, dar proteção à sua fertilidade.
Confirmando a dificuldade encontrada pelas mulheres para sua inserção no esporte brasileiro, podemos citar alguns exemplos de comparações entre datas de primeiras competições masculinas e femininas em campeonatos brasileiros, tais como: a natação masculina em 1898, já a feminina, 1935; atletismo e basquetebol masculinos em 1925, enquanto os femininos apenas em 1940; tênis masculino (1923) e feminino (1947).
Observamos, porém, que as mulheres vêm conquistando seus espaços nesse universo esportivo historicamente masculino. No entanto, essas atletas ainda enfrentam barreiras que dificultam a sua iniciação e permanência nos esportes. Mesmo com as crescentes conquistas femininas e o consequente aumento da participação das mulheres nos esportes, as desigualdades entre os sexos são constantemente reafirmadas e naturalizadas por meio das práticas e discursos que permeiam seu espaço nessa prática corporal.
O protagonismo da mulher no esporte já deu seus passos iniciais, mas ainda permanecem práticas de invisibilidade (FOTO: Moisés Sarraf)
As tensões permanecem e, em pleno século XXI, ainda se fazem presentes no mundo, no Brasil e em nossa realidade paraense. Assim, a invisibilidade da mulher no esporte precisa ser questionada mediante o seguinte: inserção feminina no esporte, protagonismo da mulher?

Alguns poderiam citar a Lei n.º13.272/2016, que institui 2016 como o Ano do Empoderamento da Mulher na Política e no Esporte. Sancionada pela então presidente Dilma Rousseff (PT), criada para estimular o protagonismo feminino, publicada em 18 de abril do referido ano. Neste momento fazemos outros dois questionamentos: quantas pessoas conhecem a lei e onde estão o incentivo e o patrocínio para as mulheres paraenses no esporte?

Recentemente estive no município de Portel, na região Marajó, ministrando, junto ao Núcleo de Esporte e Lazer da Secretaria de Estado de Educação (NEL/Seduc), sobre esporte educacional aos professores que atuam na Educação Física. Em uma comemoração na cidade, ao observar o jogo feminino e a presença de gerações nos times, com mulheres de 16 a 40 anos, pude perceber que, embora a mulher faça parte da história do esporte paraense, construindo com luta e garra sua própria história, ela não fora notada, nem anotada, mencionada, ou seja, permanece na invisibilidade.
A mulher paraense aparece como sujeito da sua própria história, pois passou a conquistar seu espaço no mundo esportivo mostrando suas habilidades e seu conhecimento no assunto
Todavia, em meio à luta, e com sua garra, a mulher paraense aparece como sujeito da sua própria história, pois passou a conquistar seu espaço no mundo esportivo mostrando suas habilidades e seu conhecimento no assunto, na busca de que o protagonismo feminino se consolide no universo do esporte como um pilar na organização das relações sociais, e também como um instrumento de ressignificação para nós, mulheres.

No esporte feminino, com regras próprias de cada prática corporal, técnicas determinadas e táticas específicas, assim como no masculino, não é apenas uma manifestação lúdica do homem e da mulher. O esporte feminino é mais uma forma que a mulher encontrou para se expressar, uma maneira de extravasar características emocionais profundas, tais como paixão, ódio, felicidade, tristeza, prazer, dor, coragem, garra, fraqueza, dentre outras, na qual a bandeira pela inserção feminina no esporte como sinônimo de protagonismo da mulher se fazem presentes.
Patrícia de Araújo é professora da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e doutora em Pedagogia da Educação Física. Exerce a função de Coordenadora Pedagógica do Programa Segundo Tempo – Forças no Esporte, do Ministério da Defesa e compõe o Grupo de Estudos em Lazer – GEL / UEM.

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