Polo da Gastronomia

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A notícia sobre o fechamento da Casa das 11 Janelas demonstra que, em Belém, a disputa pela cidade envolve autoritarismo e uma concepção de cultura problemática. Mas que nada disso é de hoje.  

“Gastronomia é cultura” é o slogan do novo projeto que promete “ocupar” o centro histórico de Belém. E que deu origem ao embate, que já dura mais de duas semanas, entre o governo do Pará e artistas visuais, produtores culturais, curadores nacionais e frequentadores do Museu da Casa das 11 Janelas, que terá o seu atual espaço ocupado pelo novo Polo da Gastronomia, criado oficialmente pelo governo no dia 17 de junho.  
A falta de diálogo e de transparência por parte do governo é apontada pelos artistas como um dos principais fatores da crise; o movimento defende a permanência do museu, o único destinado à arte contemporânea em todo o estado. O seu acervo é considerado um dos mais representativos da arte moderna e contemporânea brasileira, com uma grande coleção doada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), entre outras fontes, e trabalhos de artistas como Cildo Meirelles, Adriana Varejão, Rosângela Rennó e Miguel Rio Branco, Luiz Braga e Miguel Chikaoka.   
Enquanto os apoiadores do movimento se manifestam por meio de um perfil criado na internet, de petições online e manifestações no prédio histórico, reivindicando por uma audiência pública para a  discussão aberta sobre o uso do espaço, entre outras pautas, o governador Simão Jatene (PSDB-PA) convocou uma reunião com alguns de seus representantes e da secretaria de cultura, para tentar resolver o impasse a portas fechadas. 
“Nós fomos para tentar abrir o diálogo, mesmo sabendo do risco de sermos mal interpretados por outras pessoas, mas no decorrer de toda a reunião ficou muito claro a posição irredutível do governo e que não há de fato uma proposta em relação ao museu”, relata o fotógrafo e pesquisador Mariano Klautau Filho.  
“O governador manteve uma postura muito evasiva e ao mesmo tempo prepotente. Ele rebateu e foi rebatido o tempo todo até o ponto em que nos chamou de meia dúzia e nós nos retiramos.”

Depois do confronto, a referência “não somos apenas meia dúzia” passou então a ser usada nas redes sociais em resposta à insinuação de que o governo não declinará da intenção de instalar o Polo na Casa das 11 Janelas para atender a meia dúzia de descontentes.
“A escolha do espaço para implantação do Polo de Gastronomia deveu-se ao esforço de agregar ao sítio conhecido como ‘Feliz Lusitânia’, que já congrega manifestações marcantes da nossa história e traços da nossa cultura e memória, mais um componente com o condão de fazer um elo entre todos os seres vivos de todos os tempos e lugares, que é o alimento”, informa a nota divulgada por meio da Secretaria de Estado Comunicação em sua agência governamental de notícias.
O governo também nega o fechamento do museu. Entre as alegações, a nota diz que a Casa “sempre abrigou também (sic) um restaurante, que ocupava metade da mesma” e que “o tempo vem impondo ao museu, além das limitações naturais de um prédio que não foi concebido para o que se destina, novos desafios”, em função “da tendência de crescimento de acervo” e de “razões estruturais”, relativas “a restrições quanto ao espaço, climatização, iluminação, entre outros fatores”. 

ALTERNATIVAS
Ainda segundo o comunicado oficial, a Secretaria de Estado de Cultura (Secult) teria sido “orientada a encontrar um espaço mais apropriado” e três alternativas já estariam em estudo. 
A primeira seria um “prédio localizado no mesmo sítio”, e que, apesar de não mencionado pela nota, segundo algumas fontes, não é ainda de propriedade do Estado e requer uma grande obra para a sua reativação, após um grande incêndio, enquanto ainda funcionava como loja e depósito de fogos de artifícios. A segunda refere-se à “adequação de um prédio histórico conhecido como Palacete Faciola”, localizado na avenida Nazaré e formado por três casarios em condições bastante precárias, cujas obras para escorá-los e evitar desabamentos iniciaram há pouco tempo. E a terceira seria a construção de um espaço específico na área do Novo Parque do Utinga, sem a existência de um projeto e tampouco a previsão de início.
Na internet, a pressão de diversos apoiadores do movimento recaiu sobre o chef Alex Atala, que lidera o Instituto ATÁ, um dos fundadores do Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia, organização sem fins lucrativos idealizadora da proposta que gerou o projeto do Polo. 
  Diante de inúmeras críticas, ironias e provocações em seus perfis, o chef divulgou um comunicado informando um “profundo desagrado o que está acontecendo”. “De nossa parte, houve uma tentativa de diálogo, mas não houve flexibilidade das outras partes”, o que teria provocado a desistência do Instituto ATÁ de se candidatar para gerenciar o projeto do Polo Gastronômico até que o impasse sobre a retirada do museu se resolva.

Reedição de um mesmo discurso

Nem o discurso de inserir o estado num circuito de um turismo histórico e de consumo cultural praticamente restrito ao centro da cidade nem o que promete a modernização e a ocupação dos espaços públicos em nome da arte representam de fato novidades em Belém. 
A partir de 1995, quando o então governador do estado, Almir Gabriel, também do PSDB, encampou em seu programa de governo dois grandes projetos destinados a intervenções arquitetônicas e urbanísticas, a promessa também era a de tornar esses espaços rentáveis. 
A novidade agora é que a inserção da cidade no circuito do turismo se dará sob a construção de uma cidade voltada para a gastronomia, com graves riscos de desmobilizar a experiência de construção do sistema de museus associado ao centro histórico, entre outros problemas. 
Nesse contexto, o que a discussão polarizada na internet entre o #ForaAtala e o #FicaMuseu parece encobrir é que o autoritarismo que se expressa na imposição da mudança ao museu das 11 janelas tem sido uma característica da política cultural do PSDB no estado durante os quase 20 anos de gestão, intercalados apenas pela eleição de Ana Júlia Carepa (PT-PA), em 2006.
No final de 2014, por exemplo, ano em que o governador Simão Jatene se reelegeu, ele enviou em regime de urgência à Assembleia Legislativa um projeto de reforma administrativa que extinguia órgãos importantes para o setor como o Instituto de Artes do Pará (IAP), a Fundação Curro Velho e a Fundação Cultural Tancredo Neves. Sem amplas discussões com a sociedade por meio de audiências públicas e setoriais, os três foram diluídos na “nova” Fundação Cultural do Pará, que, na prática, subordinou os dois primeiros ao terceiro, centralizando nele as decisões sobre os recursos e as agendas de cada um.
“Do ponto de vista da politica cultural é um crime pensar a cultura como instrumento para o turismo. Isso significa negar ou maquiar toda a dimensão antropológica de cultura e esconder os conflitos étnicos e sociais do estado”, critica o pesquisador Fabio Fonseca de Castro. No decorrer dos últimos anos, ele publicou análises sobre a política cultural no estado que englobam desde o período de criação da secretaria de cultura em 1975.
Entre algumas das muitas críticas à atual gestão política na área cultural, estão, além da construção de obras de lazer que excluem o acesso de grande parte da população, a manutenção de políticas de fomento com base em concessões seletivas a poucos grupos. Outro grave problema está na centralização em Belém de toda a ação cultural do governo e a ausência quase completa de um projeto de interiorização em um estado que compreende144 municípios. 

Nota: procuradas pela reportagem, as Secretarias de Cultura, de Comunicação e de Desenvolvi-mento, Mineração e Energia não confirmaram o agendamento de entrevistas. 

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