Polo de Gastronomia II

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Pensado como um espaço que pretende dialogar com a feira do Ver-o-Peso, o Polo de Gastronomia é um projeto totalmente desconhecido dos feirantes; ninguém foi consultado sobre a iniciativa. 
Uma volta pela feira do Ver-o-Peso e algumas conversas com os feirantes que ali trabalham deixa claro que ainda falta muito para que a sociedade em geral conheça de fato o que será o Polo de Gastronomia. Segundo a exposição que apresentou o Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia à cidade, realizada na Casa das 11 janelas em outubro do ano passado, o local é um dos espaços com os quais o novo projeto pretende dialogar. 

“Na ilharga do Feliz Lusitânia, o centro gastronômico vai dialogar com o contexto do Ver-o-Peso, uma vitrine da biodiversidade alimentícia da Amazônia: cores, cheiros e sabores diversificados e muitas vezes exóticos”, diz um dos textos.


Manoel Rendeiro, o “Didi”, e outros feirantes criticam a falta de transparência do governo do Estado. (FOTO: Kleyton Silva)

Quando questionados sobre o que já conhecem sobre os projetos, os feirantes Manoel Rendeiro, o “Didi”, Mario Lima e Júlio Wanzeler respondem quase que em coro. “Eles (os governos estadual e municipal) são assim mesmo: fazem tudo em segredo. Aí, quando tu te espantas, eles vêm com tudo pronto, baixam um decreto e não tem mais jeito”, reclamam, lembrando que, de fevereiro a abril deste ano, a prefeitura tentou aprovar um projeto de reforma para o espaço, muito polêmico pela falta de diálogo e pela pretensão de transformar a feira livre quase que num mercado de cobertura extensa, fechada e com boxes de alvenaria.   
Osvaldina Ferreira, feirante do Ver-o-Peso que atua em projetos junto a chefs nacionais e internacionais, espera que o investimento do Polo não seja restrito aos “restaurantes caros”.
(FOTO: Kleyton Silva)
A cozinheira do setor de refeições, Osvaldina Ferreira, é uma das que participam há anos, junto com chefs nacionais e internacionais, do projeto Ver-o-Peso da Cozinha Paraense. Ela diz ter expectativas de que as melhorias prometidas pelo Polo não fiquem concentradas em restaurantes “caros”, pois conhece as necessidades dos espaços e das condições de trabalho de quem cozinha diariamente para uma ampla clientela que inclui outros trabalhadores, frequentadores da feira, moradores das ilhas do entorno de Belém, assim como turistas nacionais e estrangeiros.  

“É no dia a dia, no relacionamento com os clientes que eu garanto e aumento a minha clientela”, comenta, orgulhosa. O geógrafo Saint-Clair Trindade Júnior concorda que, se o objetivo é aproveitar o potencial da gastronomia e da cultura alimentar presente na cidade, é necessário reconhecer as redes que já existem, não apenas as concentradas no centro histórico da cidade. “O Polo de Gastronomia não precisa ser criado, ele já existe e está espalhado por toda a cidade, só precisa ser potencializado”, assegura.   

“A primeira exigência de um projeto como esse é criar uma política mais descentralizada em relação a esse tema da gastronomia”

Isso seria possível a partir do mapeamento, de uma cartografia sociocultural dos espaços existentes em locais mais afastados do centro, como o distrito de Icoaraci, com a sua rede de restaurantes de comidas regionais, o bairro da Condor, onde há peixarias bastante conhecidas na cidade, a feira da Cremação, que comumente atrai os apreciadores de sopas, entre os muitos exemplos possíveis.  

“A primeira exigência de um projeto como esse é criar uma política mais descentralizada em relação a esse tema da gastronomia, que esteja articulada à geração de trabalho e renda, à valorização dos trabalhadores que produzem e abastecem essa cadeia”, argumenta Saint-Clair.


De acordo com o decreto de criação do projeto, o Polo de Gastronomia vai envolver, além da Casa das 11 Janelas, o antigo prédio da Fumbel e um barco-escola. (FOTO: Kleyton Silva)

A partir daí, é preciso fortalecer as redes existentes, garantindo relações de cooperação, solidariedade e colaboração entre elas. Experiente na área de planejamento e estudos urbano-regionais, ele explica que é preciso descentralizar o alcance da política urbana e incorporar as vivências cotidianas presentes para além do centro e do atendimento à classe média e às elites econômicas da cidade. 

“Não estamos dizendo que os espaços voltados à alta gastronomia não tenham que existir. Eles também podem e devem fazer parte de uma rede, mas não são prioritários, ainda que sejam vistos como estratégicos para o governo do estado”, defende. 

Para quem pesquisa o desempenho do Pará na área do turismo, a principal questão que se coloca para a elaboração das políticas públicas no setor diz respeito a compatibilizar os investimentos de modo que os novos planos não se tornem alheios à própria cidade e seus moradores, substituindo as funções dos espaços existentes.

“Os problemas de Belém com o turismo estão principalmente relacionados à própria infraestrutura disponível aos moradores, que é ruim, e isso aparece nas pesquisas que realizamos”, explica o pesquisador Silvio Figueiredo, cujas trabalhos integram as áreas de políticas públicas e o turismo na Amazônia. 



Nos moldes do projeto do
Polo de Gastronomia, a prefeitura de Belém tentou emplacar um projeto de reforma
do Ver-o-Peso sem qualquer debate com os feirantes. (FOTO:
Kleyton Silva)


“O principal investimento para aumentar o fluxo turístico deveria ser o cuidado com a cidade e seus moradores, o sistema público de transporte, a coleta de lixo, a manutenção dos logradouros públicos, o cuidado com o patrimônio e a atenção à especulação imobiliária e à segurança, que são questões também relacionadas à diminuição de desigualdades sociais”, continua.

Ele também defende que um projeto com o porte do Polo da Gastronomia, que é apresentado pelo governo, deve colocar em relevo – e não se sobrepor – à vida cultural da cidade, desde a produção artística em diferentes campos até a cultura cotidiana de diversos grupos, incluindo o patrimônio material e imaterial.

“Nesses dois quesitos, a cidade padece mas também resiste, e não adiantará novos modismos”

“Nesses dois quesitos, a cidade padece mas também resiste, e não adiantará novos modismos, pois modismos passam e nos sobrará a expulsão da população desses espaços em detrimento das elites da cidade e da promessa de um turismo que parece que nunca virá em tempos de crise internacional cíclica do capital”, completa.

A própria Estação das Docas, criada no começo dos anos 2000, apresenta atualmente espaços vagos no decorrer da área destinada a restaurantes. Ainda assim, novos projetos para o centro histórico continuam a incentivar a abertura de mais espaços do tipo.

“O que você chama de desenvolvimento e de sustentabilidade nesse contexto? Parece que vivemos uma busca permanente pelo eldorado. É a promessa do eldorado como uma estratégia de enriquecimento”, critica também a fotógrafa Cláudia Leão, que também realiza pesquisas sobre a região. 
Nota: procuradas pela reportagem, as Secretarias de Cultura, de Comunicação e de Desenvolvi-mento, Mineração e Energia não confirmaram o agendamento de entrevistas. 

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