Mulheres Trans

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Quais são os principais problemas e conquistas das mulheres transexuais em Belém? Ana Lúcia Weyl, bacharel em física e ativista, apresenta o tema no primeiro artigo da série sobre transexualidade.  

Quando se fala de mulheres trans, o senso comum sobre o assunto associa a transexualidade ao debate sobre orientações sexuais. Esse senso é tão multiplicado que leva muitas vezes a mulher trans a não ser tratada no gênero feminino, ao qual ela pertence. Vemos que existe um preconceito enorme com esse grupo em nosso estado, em nossa cidade, assim como em todo o Brasil. A situação é pior ainda quando analisamos a questão da visibilidade social, justamente pelo fato já citado dessas mulheres serem visualizadas muitas vezes, de forma errônea e preconceituosa, como homens.

A mulher trans é uma mulher, redesignada – nome usado para quem passa por uma cirurgia de adequação de gênero- ou não. É mulher por se sentir mulher e por vivenciar a disforia de gênero, que é justamente a inequivalência entre o corpo e a mente, juntamente com a necessidade de alterar-se do ponto de vista hormonal e de expressão, para assim poder ser vista como a mulher que mentalmente já é.

Ana Lúcia Weyl, no centro, acredita que a mulher trans conquistou direitos, mas ainda não possui muitas oportunidades de trabalho (FOTO: Arquivo)

Desta invisibilização das mulheres trans resulta a exposição destas a situações extremas de segregação em todos os setores. É comum travestis e transsexuais acabarem parando no mundo da prostituição, por justamente não conseguirem encontrar empregos formais ou até mesmo informais que consigam suprir suas demandas do dia-a-dia.

Você não vê mulheres trans em farmácias, como caixa de lojas, atendentes em shoppings, por exemplo, mesmo que estas tenham um nível de formação desejável.

Você não vê mulheres trans em farmácias, como caixa de lojas, atendentes em shoppings, por exemplo, mesmo que estas tenham um nível de formação desejável. As pessoas que conseguem um emprego formal acabam trabalhando em vagas como faxineira, servente e outras profissões também consideradas invisíveis pela nossa sociedade.

Isso acontece mesmo com indivíduos trans com uma boa formação, como eu, que mesmo com pontos positivos em meu currículo- sou formada em física por uma universidade pública- não sou chamada em entrevistas de emprego. Algumas iniciativas em Belém tentam mudar este cenário como é o caso do cursinho (R)existência que visa auxiliar pessoas trans a realizar provas de vestibular e frequentarem universidades, de forma a minimizar essa exclusão do mercado de trabalho e da sociedade.

Apesar das dificuldades, algo começa a ser modificado. A prática informal ou o empreendedorismo tornou-se a melhor chance de inserção da profissional transsexual ou travesti no mundo do trabalho. E o setor público começa a abrir-se também como nova possibilidade. As políticas públicas de respeito ao nome social oferecem um ambiente realmente mais confortável para se trabalhar, garantindo a estabilidade do emprego. Algo fascinante para quem não consegue ter estabilidade alguma na sociedade.


Aula de formação sobre questões de identidade de gênero são realizadas pelo cursinho (R)existência (FOTO: Divulgação do projeto (R)existência)
Outro ponto importante a ser levantado é o perigo e a insegurança física que a mulher trans enfrenta em situações corriqueiras, como andar na rua, o que pode a levar a situações extremas, como ter que se jogar de um carro em movimento para salvar a própria vida, caso verídico relatado por uma mulher trans a ONG Gretta. O Brasil é campeão mundial de mortes de pessoas transsexuais pela estatística recolhida por ONGs nacionais e internacionais como a ANTRA, a Rede Nacional de Pessoas Trans e a Transgender Europe.

Belém ainda engatinha na questão de representatividade forte no ativismo trans, porém já existem algumas conquistas graças a uma militância que visa a melhoria da qualidade de vida de pessoas transsexuais
Belém ainda engatinha na questão de representatividade forte no ativismo trans, porém já existem algumas conquistas graças a uma militância que visa a melhoria da qualidade de vida de pessoas transsexuais no geral. A ONG GRETTA, grupo de resistência do qual eu faço parte, é um exemplo. Devido a luta desses grupos de pessoas transsexuais, o Pará conseguiu tomar certa dianteira na luta.

Uma das conquistas do movimento é a garantia de documentos como o Decreto nº 726, que estabelece o nome social, como foi dito, para uso específico em uma carteira chamada de Registro de Identificação Social. Esta substitui em instituições públicas a identidade, que é emitida pela Polícia Cívil e pela Defensoria Pública do Estado. O uso do nome social é uma vitória histórica.

Além disso, a militância conseguiu reivindicar a criação um ambulatório do Sistema Único de Saúde (SUS) especializado para transsexuais no processo transsexualizador. O que já garante  um pouco de qualidade de vida,  já que muitos outros serviços ainda tratam pessoas transsexuais, no geral, de forma desumana. Mesmo com essas pequenas conquistas é preciso ter consciência de que a luta continua. O Brasil e o Pará ainda precisam evoluir muito em políticas públicas. Apenas começamos.
 
Ana Lúcia Weyl, bacharel e licenciada em Física, é ativista trans e feminista intersec. Atualmente atua como bolsista da Universidade Federal do Pará (UFPA) e professora voluntária  no projeto do coletivo (R)existência.

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