Ser Trans

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Ser transexual é vivenciar repressões e resistir todos os dias para ser quem se é. O artista de rua Luan Alex lança o seu olhar sobre o tema em texto exclusivo.
O Brasil é o país que mais mata transexuais. E daí? O que fazer? Se importar seria o mínimo, mas nesse “cistema” sexista e transfóbico em que vivemos, quem tem tempo a perder se importando com outrem? Banalizamos a morte, azar o nosso, mas quanto custa a transfobia diária é uma conta que não cai no vestibular Enem nem em prova de nenhum concurso público. Esse tipo de discussão não deveria sair do âmbito privado: “na rua, a pessoa trans, como qualquer outra, deveria simplesmente se adequar aos padrões pré-estabelecidos para não se colocar em risco”. A culpa é da vítima?

“Meu corpo é assunto de domínio público e é o Estado quem vai me dar um laudo  dizendo o que eu sou! ” Foto: Kleyton Silva (do Espetáculo Conexão Dança Curimbó)

Há quem diga que jejuns são curativos e há quem escolha submeter o corpo a isso, mas eu não tenho direito de retirar meu útero, por que sou obrigado a parir mais um ser humano? Como se tivesse em falta, o ser “mais evoluído” que devido a essa esperteza toda está destruindo o planeta inteiro. Somos os primeiros terráqueos a fazerem viagens espaciais, mas despoluir os rios não parece um bom negócio?! No mundo material, a morte é natural, mas o espírito, este, dizem ser eterno. Se meu corpo é meu templo, porque você quer me dizer como devo protegê-lo?

Nem todas as mulheres possuem úteros, muitas nem menstruam, isso é algum crime? Nem todo homem tem um pênis. Isso faz de nós más pessoas?

Participei recentemente de um debate com um pai e uma mãe de terreiro sobre o acolhimento de pessoas trans nas comunidades afro-tradicionais. Fiquei contente com a iniciativa, pois se eu não puder exercer minha transsexualidade, se tiver que fingir um comportamento, uma expressão de gênero que não é minha, como trabalhar minha espiritualidade, se não estou sendo íntegro comigo mesmo? Negramente falando, não tenho nenhum orgulho de ser branco. Mas vamos deixar tudo bem escuro: nem todas as mulheres possuem úteros, muitas nem menstruam, isso é algum crime? Nem todo homem tem um pênis, alguns até engravidam. Isso faz de nós más pessoas?
Maldição, dizem-nos. Somos como que pseudo-humanos, necessitando de uma espécie de “$alvação”, mas custa quanto para o deus-mercado nos aceitar? Ah sim, custam muitas vidas e não são poucas as pessoas que fazem pouco de nós.

Preciso falar com você: provavelmente sou eu que vão mandar exterminar. A menos que eu me extermine primeiro.
Eu não tenho problema nenhum com meu gênero! Esta sociedade é que não aceita que eu seja um homem, a menos que tenha um pênis. Se o gênero fosse determinado pela genitália, como dizem, não precisaríamos ser submetidos a esse apartheid de gênero, que é a educação binarista, heteronormativa e misógina. Ninguém quer saber, a maioria quer julgar, atualmente querem até proibir a discussão do assunto em sala de aula, embora isso seja inconstitucional. Mas não confio na nossa democracia parlamentar, então preciso falar com você: provavelmente sou eu que vão mandar exterminar. A menos que eu me extermine primeiro.

Depois vem a depressão. E com sorte, caso algum anti-depressivo, resolva, quem sabe algum vício lícito me permita continuar sendo essa borboleta que vive dentro de um casulo empoeirado, sabe por quê? Porque ser livre te torna um alvo. Então da próxima vez que ver uma pessoa trans na rua, não atire seus preconceitos. 

Escutei a minha vida inteira pessoas mandando eu me comportar como uma menina. O que é ser um homem trans ninguém me perguntou

Você é trans? Não? Então escute, não julgue, busque compreender. Não é fácil escutar, quando se tem muito a dizer, eu sei. Escutei a minha vida inteira pessoas mandando eu me comportar como uma menina. O que é ser um homem trans ninguém me perguntou, mas é tão simples e difícil quanto me amar. Não foi fácil chegar até aqui. Ao longo da minha infância eu não dizia abertamente que queria ser um menino, uma vez fui brincar e quando caí e me machuquei, em meio ao choro e a dor, mais uma vez eu escutei: “Tá vendo? Foi brincar com os meninos!” Ser menina é difícil para todas, já que o machismo impera, mas eu não conseguia acreditar que minhas amigas tivessem orgulho de ser mulher, já que eu só tinha vontade de chorar e negar.

Eu realmente nunca quis ser homem, mas sempre fui um, entende a diferença? Só que da feita que eu contradigo o dogma sexista de que toda mulher tem vagina e todo homem tem pau, meu corpo é assunto de domínio público e é o Estado quem vai me dar um laudo  dizendo o que eu sou!

Você que ainda está ai. Gratidão. O maior pecado do humano ocidental pós-moderno é se importar porque é o único jeito de não banalizar. Diante da profana inquisição da psiquiatria, peço que me perdoem por ser o que eu não deveria. Prometo dizer o que querem ouvir  para que me concedam assim o seu aval para existir . Peço perdão aos praticantes de todas as religiões que frequentei. Talvez nem os deuses me perdoem, mas eu, um homem trans, mesmo para quem não crê, estou aqui (r)existindo. Tanto quanto você. 

Luan Alex, artista de rua; toca violão, recita poesia e passa o chapéu no transporte público, eterno aprendiz de permacultor, atualmente escreve seu TCC da faculdade da vida, onde cursa astropsicopolitica geoespacial e estagia nos coletivos A Coisa (batuque e performance anarcomusical) e Freedas Crew.

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